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A literatura photoshop

por Luís Naves, em 08.07.18

Escrever ficção é difícil devido às escolhas que o autor deve fazer em nome do compromisso que procura a verosimilhança e o imediatamente inteligível. Devemos pensar excessivamente nas deficiências do leitor, que não tem culpa de ser subestimado. Além disso, vivemos numa época medíocre e fútil, auto-centrada em excesso, que aprecia ideias mastigadas — que a doutrina afirma serem meramente «ideias depuradas». Em resumo, temos de escolher a dose certa de pureza nos conceitos, retirando o que possa pesar, como se a matéria magra fosse a única possível. Procuramos a imagem idealizada do humano, do excessivamente belo, já que tudo o resto incomoda. Detestamos imperfeições e fazemos literatura Photoshop, a suavizar arestas e sombras, a embelezar ou a retirar os defeitos da espontaneidade das coisas vivas, deixando apenas a juventude eterna, de preferência devidamente cómoda e adocicada.

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publicado às 12:02

A competição de pulos

por Luís Naves, em 16.06.18

Os principais dirigentes políticos estão envolvidos numa espécie de competição de pulos sobre quem é que mostra maior fervor pelo clube da pátria. Se o país não tivesse outros problemas, não havia nada de mal, mas o grande F deste regime, o futebol, permite apagar a luz durante demasiado tempo e, acima de tudo, cria um clima de ilusão e de pensamento mágico. Quando cairmos na realidade, um pequeno abalo será vivido como terramoto, a mínima perturbação social ou económica será interpretada como calamidade. O folclore da auto-estima, a teoria das vacas voadoras e a fé que vê miragens estão a conduzir o país para o território das desilusões insuportáveis.

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publicado às 12:00

Tudo ao contrário

por Luís Naves, em 15.06.18

Alguns comentadores não entendem que uma grelha de análise errada torna impossível a compreensão dos acontecimentos. Nos países de leste, a política não pode ser descrita como liberais versus nacionalistas, como acontece actualmente, pois os chamados liberais são na realidade pós-comunistas e os nacionalistas são exactamente os mesmos que na transição eram definidos como liberais, ou seja, aqueles que defendiam um tipo de sociedade com instituições democráticas. Ironicamente, os fariseus da Europa criaram uma narrativa que coloca tudo de pernas para o ar, transformando democratas em autocratas e pós-comunistas em liberais.

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publicado às 11:59

Sobre a mediania

por Luís Naves, em 12.06.18

O romance está muito avançado, falta a ponta final e as emendas, a parte mais difícil. Entretanto, mergulho na impaciência, com a crescente sensação de vazio e cansaço, pois todo o meu esforço se revela desnecessário e até ridículo. É bastante evidente que este livro não será publicado ou, se sair à luz do dia, parece-me óbvio que poucos o lerão e que ninguém se irá incomodar com ele. Posso estar a escrever para outra época, mas é duvidoso (isso é para uns raros), o mais certo é não estar a escrever para época nenhuma, como aqueles artistas que se esforçaram sempre imenso, mas jamais se distinguiram da mediania, que em arte é a zona insuficiente. Sim, na arte, na ciência, a mediania é menos que medíocre, não acrescenta coisa alguma, de nada serve, é apenas mais um bocadinho de ruído no imenso concerto do inútil.

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publicado às 11:57

Mudanças políticas

por Luís Naves, em 10.06.18

Está a ocorrer uma alteração política na Europa, com a crescente aproximação entre conservadores e populistas, ou seja, o centro-direita a fracturar-se, resultando igualmente no reforço do centro federalista que já absorveu parte dos social-democratas. A dicotomia direita-esquerda parece esgotar-se. Como dizia o outro, isto agora é a três: temos o bloco conservador-populista, que quer travar as migrações e despertar os sentimentos nacionalistas; o centrismo liberal-federalista, favorável ao multiculturalismo e à globalização; e a esquerda neo-marxista, que lidera as guerras culturais e desconfia profundamente do capitalismo, da globalização e do federalismo europeu. Portugal, para variar, anda fora destas coisas, entretido com a bola e o folclore da auto-estima.

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publicado às 11:56

A vida de molusco

por Luís Naves, em 06.06.18

Percebo um pouco melhor o que significa viver na concha. Tenho uma existência de molusco bivalve, com curtos vislumbres da vida exterior e gasto o meu tempo nestas escritas, que se destinam ao inútil, e em longas reflexões sobre os farrapos da realidade que me chegam através dos filtros da mediação televisiva. Sei cada vez menos sobre o que se passa nos meios onde se tomam decisões, desconheço as discussões das elites e ouço com crescente cepticismo os poucos debates tolerados, onde os políticos do costume repetem as banalidades que se esperam deles. Gasto demasiado tempo a ver notícias na internet, a tentar descortinar para além da agreste paisagem do meu aquário, do qual aliás só vejo uma parte ínfima, pois da minha concha tenho um ângulo de visão limitado. Em compensação, há mais tempo para pensar: ninguém me telefona (este texto foi interrompido pelo telefonema de alguém que se enganou no número e assustei-me com a chamada), posso ler ou passear, entretenho-me com tarefas domésticas, vou anotando o que escrevi em cada dia numas tabelas estatísticas que revelam ritmos um pouco absurdos de trabalho; muitos dos meus amigos desertaram. A vida na concha tem os seus momentos de conforto e os seus problemas. Posso fechar completamente as valvas do exoesqueleto, até não ouvir nada do que venha do exterior, posso abrir ligeiramente e olhar, sempre com receio, a agitação incompreensível lá fora. Oscilo entre esta vontade de viver protegido e a necessidade de sair da casca.

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publicado às 11:54

Isto hoje está lento

por Luís Naves, em 05.06.18

Passei seis horas nas finanças, na companhia de outros pobres, descontentes e frustrados, onde se incluíam muitos estrangeiros. Com as bases de dados, os computadores, as novas tecnologias, gerir o país devia ser cada mais simples, mas acontece o contrário, o Estado tornou-se incapaz das mais pequenas tarefas (e as finanças até funcionam razoavelmente, em comparação com outros organismos). O excesso de leis é um labirinto onde muitos se movem com extrema dificuldade. Quando insisti com um funcionário para que desse prioridade a uma senhora de 88 anos que estava por ali abandonada, ele proferiu uma frase lapidar, que julgo ser a que se ouve nestas situações: «isto hoje está lento». Portugal é mesmo assim, «isto hoje está lento», ninguém sabe bem porquê, nem interessa.

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publicado às 12:46

As mulheres dos jihadistas

por Luís Naves, em 23.05.18

Quando expulsou o movimento Estado Islâmico do seu território, o exército iraquiano, com a assistência das milícias curdas, capturou centenas de familiares dos jihadistas, sobretudo mulheres e crianças, muitas das quais terão sido certamente vítimas da brutalidade dos combatentes radicais. Os tribunais iraquianos estão agora a condenar à morte as mulheres dos jihadistas, que foram desde o início tratadas como criminosas, não como vítimas. Já foram decididas dezenas de condenações à morte por enforcamento, isto no âmbito de uma repressão mais vasta que inclui os militantes sobreviventes, que estarão a ser executados. Claro que o enforcamento destas mulheres é uma barbaridade inaceitável, uma injustiça absurda que só criará mártires e órfãos. Não me ocorre um exemplo de conflito militar contemporâneo que tenha dado origem ao extermínio dos familiares dos derrotados. Estas mulheres devem ser entregues aos países de origem (Turquia, França, Alemanha), com as suas crianças, e tiradas daquele inferno, mas os países de origem estão a protestar apenas suavemente. O Ocidente tem esta obrigação e uma das coisas que mais me custa é o silêncio, a indiferença, a hipocrisia. Onde estão os indignados do costume e as feministas? onde estão os protestos dos intelectuais politicamente correctos e as manifestações contra este ultraje? onde estão os jornalistas, os defensores de direitos humanos, as Nações Unidas, a União Europeia e a comunidade internacional? porquê o silêncio?

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publicado às 12:48

Contemporâneo

por Luís Naves, em 21.05.18

O mundo contemporâneo? bem, isso é como a pescadinha de rabo na boca que se fechou num círculo de futilidade, a minha volta de 360 graus em torno de mim mesmo, tal como o ponteiro dos minutos, sempre às voltas e em busca de rumo, que é uma espécie de norte magnético a deslocar-se à velocidade geológica na direcção do sul, dando durante milhões de anos voltas em redor do planeta inteiro pois, lá no profundo, circulam fluidos sobre si próprios, enquanto em órbita voam estações espaciais que desenham círculos imperfeitos, como um carrossel sempre às rodas dando a ilusão de velocidade e em que as pessoas estão sentadas no mesmo sítio, ao contrário do que faz o peixe do aquário mais a sua ilusão do infinito, a apalpar paredes e a abanar barbatanas num movimento perpétuo, aventurando-se sempre em frente, e tal como estas palavras que por aqui andam às rodas, a frase a abrir a boca e a engolir as palavras seguintes, que assim formam uma fila indiana de gente em que o primeiro encontra o último e deixa de haver primeiro e de existir último.

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publicado às 12:51

Doce ilusão

por Luís Naves, em 18.05.18


A sociedade portuguesa anda muito doente e a melhor analogia que me ocorre é a da diabetes. Uma sociedade diabética, lentamente envenenada pela doce ilusão de um bem-estar que se acumula em todos os tecidos e sistemas, destruindo os órgãos, a visão, a própria inteligência. A nossa realidade é a de velhos obesos, sem futuro e com memória imprecisa, que morrem devagar sob o efeito tóxico de um mal subtil, que lhes invade e contamina as células, sugando a vontade de viver, adormecendo a razão, comprometendo a fertilidade. O narcótico que separa as classes, o sonho do consumo infinito, ainda degrada a natureza e destrói o clima. Este corpo envelhecido, inseguro, pressente e teme o declínio, embora esteja viciado no conforto do prazer efémero e no suave embalo de um tédio sem desígnio.

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publicado às 19:30



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