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Que restará de tudo isto?

por Luís Naves, em 22.04.18

Que restará de 2018 daqui a mil anos? Admitindo que a civilização ocidental resolve os seus maiores problemas, trinta gerações são uma eternidade, a ponto de nessa altura sermos incompreensíveis, como os bizantinos são para nós. Partindo do princípio de que a nossa civilização encontrará formas de progredir sem passar por colapsos traumáticos, talvez se consiga resolver a limitação das viagens espaciais, prolongar a vida humana e desenvolver máquinas inteligentes, talvez se encontrem soluções para os problemas da energia, ambiente, água e alimentação da humanidade, que será mais numerosa e transformada. Em 3018, haverá cem mil milhões de seres humanos dispersos por trinta planetas habitáveis em 80 sistemas solares explorados, cujas ligações levarão trinta a cinquenta anos a concluir entre si. Sendo necessário para cada viagem um décimo da longevidade média dos astronautas geneticamente modificados, haverá aventureiros famosos a concluir a sua sétima ou oitava viagem (os passageiros estarão em hibernação, para consumirem o mínimo de recursos, e a maioria dos sistemas terão inteligência artificial). Cada pequeno núcleo de viajantes levará consigo embriões humanos. Com núcleos populacionais tão distantes entre si, a linguagem estará a fragmentar-se a partir de uma língua franca baseada em inglês, castelhano e mandarim, cujas formas arcaicas, tal como eram faladas no início do século XXI, serão compreensíveis só para peritos, como o latim pertence hoje a uma elite de sábios. Para historiadores especializados em assuntos arcanos, o ano de 2018 terá uma sensaboria interna que os obrigará a vasculhar velhos arquivos nas camadas mais profundas do conhecimento, consultando informação que ninguém terá procurado desde o centenário anterior. Entre o que não se perdeu entretanto, por causa das tecnologias obsoletas dos arquivos, será possível recuperar imagens e factos, com dúvidas sobre o respetivo grau de relevância: por exemplo, qual o motivo de determinado conflito num país obscuro que se chamava Síria ou o que pretendiam as potências da época, Estados Unidos, China, aliança europeia (seria este o nome?), os impérios russo ou japonês, núcleos políticos que se desintegraram ou reconfiguraram ao longo dos dois séculos seguintes, para não falar daquelas pequenas nações extintas com nomes poéticos, como Portugal, cujos problemas não passarão de enigmas quase insolúveis, a exigir especulação histórica. Das artes, pouco restará. O pós-modernismo foi uma transição em que se privilegiou a moda e o fogo de artifício, que por definição não resistem à tradução e à poeira do tempo. Mesmo para eruditos, será difícil distinguir entre 2018 e os anos à volta (o que terá sido aquela crise de 2008?); e alguém, mesmo culto, terá dificuldade em perceber se 2018 foi antes ou depois da Guerra Fria, precisando de fazer contas de cabeça para compreender que já tinham passado gerações após os grandes tiranos do século XX, cuja fama misteriosa será o que para nós é a celebridade de Átila, o Huno. O cidadão comum terá dificuldade em lembrar-se que 2018 ocorreu depois da primeira viagem à Lua, que por sua vez os estudantes mais cábulas tentarão colocar no século XXI, levando os tutores robóticos à impaciência. Talvez os historiadores ortodoxos concordem em chamar ao nosso tempo o breve período do liberalismo complacente ou terceira fase capitalista arcaica, ainda antes da pré-robotização e da ascensão das máquinas, certamente um momento pouco fértil do lento progresso rumo ao início do século XXII, o da segunda renascença, aí sim, com aceleração da História e coisas interessantes para estudar.

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publicado às 18:33

Pequenos soldados

por Luís Naves, em 12.04.18

Nos jornais já não se escreve crónica de jeito e nos jornais online este género jornalístico está extinto. Há, pelo contrário, grande profusão do género opinativo, que também não é para todos, sendo apesar de tudo fácil fazer uma boa imitação. Para a reportagem não há dinheiro e a que se faz é sobre temas leves, quase sempre com a tese já programada. De facto, e por muito que me custe esta opinião, começa a ser difícil justificar a existência de jornais em papel. Para ler as notícias de ontem? Mas já vimos tudo nos portais de informação na internet, já lemos até os comentários nas redes sociais, demos uma vista de olhos na imprensa estrangeira online, vimos as televisões, por isso temos uma ideia muito precisa do noticiário básico. O que podia ainda diferenciar os jornais foi aquilo que desapareceu: a boa prosa, a história original que nenhum outro órgão apanhou, a opinião heterodoxa (mas certeira) e a crónica capaz de nos fazer ver a realidade de outra forma. Os jornais suicidaram-se e julgo que esta morte começou naqueles anos da concentração dos meios de comunicação em grupos económicos, como pequenos soldados em grandes exércitos ao serviço de enormes interesses.

 

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publicado às 18:39

Carta da minha sobrinha-neta Flora

por Luís Naves, em 06.04.18

Carta da minha sobrinha-neta, Flora, escrita em 2100, enviada pela máquina do tempo que ela mesma inventou, na sua primeira experiência. A carta apareceu-me hoje assim, manuscrita, na minha secretária:
«Querido tio, gostava que aqui estivesses, para poderes ver o meu mundo, tão diferente daquele que imaginaste. Não posso dizer que somos todos mais felizes do que no teu tempo, pois isso seria exagero e mentira, mas vivemos numa sociedade que, apesar dos seus defeitos, é mais justa do que aquela que conheceste, mais rica e progressiva, mais optimista e segura. Somos mais sábios? Não me parece, mas sabemos mais coisas, o que não é o mesmo. Os problemas da tua época não têm a mesma forma na minha, mas persistem neste tempo alguns dos defeitos menores da nossa espécie, a inveja, desprezo, medo, ambição e os chamados erros humanos em geral, que resultam das fraquezas correntes e que seria apesar de tudo uma grande pena perderem-se pela inevitável e progressiva modificação da nossa natureza. É talvez o problema que mais nos apaixona: até que ponto queremos manter a natureza humana, prolongar a vida, aumentar as nossas capacidades mentais e físicas, incluir uma parte maquinal nos nossos corpos, viver em comunidades de consciência alargada, entre outras amplas possibilidades tecnológicas que dificilmente poderias entender. Os meus pais ensinaram-me a gostar e cuidar de pessoas e assim vivi todos estes anos, já não vou mudar, embora me preocupe a longevidade e, claro, tudo farei para atrasar o meu próprio envelhecimento e a miséria da decadência. Tenho 82 anos, o que nesta época ainda é ser jovem, por isso viverei mais umas décadas. No ano em que nasci, em 2018 (lembras-te quando me pegaste ao colo?) sei pelos teus apontamentos que imaginaste um futuro com viagens mais velozes, energia abundante, gente em demasia, crises sociais e poderes oligárquicos. No fundo, olhavas para a tua realidade e pensavas como ela iria evoluir através de mais do mesmo: haveria aviões, mas mais rápidos, computadores mais pequenos, pessoas mais saudáveis, conflitos com mais fogo-de-artifício, um capitalismo mais selvagem. Não aconteceu exactamente assim, houve saltos súbitos e mudanças profundas, sobretudo quando acabaram os combustíveis fósseis e descobrimos a forma de viajar entre as estrelas e de construir autómatos capazes de fazer todo o trabalho mecânico. Não, não concluas que somos indolentes e preguiçosos, dispomos de um exército de escravos robóticos, mas cada indivíduo pensa em ser útil e, na realidade, vivemos uns para os outros. Dedicamo-nos à fantasia e à busca da felicidade, libertámo-nos da ideia de utilização finita de recursos (usamos sempre menos do que está disponível), explorámos outros sóis na galáxia e levámos connosco o esplendor da vida, com nova compreensão da mortalidade e melhor entendimento do universo. Tudo aquilo que entre nós te poderia horrorizar (as experiências de mente colectiva, por exemplo, ou a minha máquina do tempo), possui também alguma coisa de milagre; as nações diluíram-se e as culturas misturaram-se, não há fronteiras (excepto em alguns locais que escolheram manter-se isolados), temos mais liberdade e tolerância. Pensarias porventura que, para as nossas idades, somos infantis, ingénuos e demasiado irreverentes, certamente ficarias surpreendido com a sofisticação artificial e algo pedante das conversas que mantemos à hora do chá. Talvez te fizéssemos rir e talvez nos ríssemos de ti, meu tio-avô, que estás tão sério neste velho retrato da tua meia-idade, uma imagem diluída que tenho à minha frente e me leva, através da espessa névoa que cobre o oceano do tempo, a vagas memórias da tua existência»

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publicado às 18:42

Não somos diferentes

por Luís Naves, em 21.03.18

Os homens primitivos precisavam de saber o que estava para lá da montanha mais alta ou do rio caudaloso e, para isso, ouviam histórias daqueles que tinham explorado essas fronteiras. Não eram relatos factuais, mas exageros distorcidos pela imaginação, e só assim funcionavam. Não somos tão diferentes dos nossos antepassados, só mais organizados em rede, por isso, também gostamos de coboiadas, de histórias de aventuras e crimes, por isso necessitamos de ler, ou seremos apenas formiguinhas embaladas em caixas. E, no entanto, a ambição provocada pelos exercícios da imaginação vai desaparecendo da arte contemporânea, sobretudo devido à domesticação imposta pelo dinheiro. Estão a matar aquele um por cento de literatura que a humanidade ainda possuía. Ou talvez não, de vez em quando ouvimos pequenos testemunhos daqueles tios que ainda vão escrevendo: esforçam-se por explicar que a arte é uma ilusão em movimento e tentam extrair das realidades toda a essência que não se consegue dizer por palavras, tudo o que na experiência humana possa ser mais obscuro, indomável e desmedido.

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publicado às 14:08

Dissonância

por Luís Naves, em 13.03.18

Uma das características mais subtis da política contemporânea tem a ver com a distância crescente entre as elites e o povo, uma dissonância que se vai espalhando pelos meios intelectuais e que ocorreu no passado antes de grandes convulsões. Não há jornalista que não repita aquelas beatitudes quase religiosas sobre os valores liberais ou que se atreva a fazer uma leve crítica aos excessos ideológicos dos bem-pensantes. A academia, essa, entrou mesmo no delírio da torre de marfim, numa separação radical em relação ao mundo lá fora. Os políticos usam a linguagem de pau e têm tanto maior êxito quanto menos tentam mexer nas alavancas da sociedade. Os governos parecem cada vez mais impotentes para fazer o mínimo. Tudo é aparência, de conhecimento, de poder, de arte, mas na realidade oculta-se a acção do estado profundo e dos interesses oligárquicos, condenando as sociedades à paralisia e à mediocridade. Cresce a intolerância perante a mínima contestação da ortodoxia e todos os que têm algum acesso aos meios de comunicação limitam-se a dizer inanidades sem contacto com a vida dos outros. É o mundo do castelo: já ninguém pode compreender os mecanismos do poder, a democracia representativa tornou-se desnecessária e a elite, para além da crescente falta de transparência, tem intenções misteriosas.

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publicado às 14:07

Escândalos de Hollywood

por Luís Naves, em 04.03.18

Em véspera da cerimónia dos óscares, não é possível ignorar a extraordinária decadência a que chegou Hollywood. Não sei se é o infantilismo da Marvel, o politicamente correto, a violência ridícula ou algo de mais sério, mas olhamos para a lista dos óscares de melhor filme e não encontramos um vencedor de jeito desde 2003. Longe vão os tempos áureos, entre 35 e 44, onde nunca houve menos de duas obras-primas a disputar cada troféu. Em 1942, no óscar de melhor filme, venceu O Vale Era Verde e o derrotado principal foi Citizen Kane. Venha o diabo e escolha! Num único ano, concorreram duas obras inesquecíveis, que devem constar em qualquer lista honesta dos dez melhores filmes americanos de sempre. Em contraste, a partir de meados dos anos 70, o cinema americano passou a exibir uma mediocridade geral, pelo menos na lista de vencedores. Em 1975, o histórico Barry Lyndon perdeu para o histérico Voando Sobre um Ninho de Cucos. Em 76, imagine-se, Taxi Driver perdeu para Rocky. E em 1979, Apocalypse Now perdeu para a xaropada Kramer vs Kramer. A última película de qualidade indiscutível a ganhar o óscar de melhor filme foi O Senhor dos Anéis, em 2003, e o último escândalo remonta a 2006, com a derrota de Cartas de Iwo Jima por um filme chamado The Departed. Entre os vencedores, não há uma obra-prima marcante desde 1972, ou seja, desde O Padrinho, apesar das vitórias justíssimas de Imperdoável, em 1992, e do já referido Senhor dos Anéis, dois filmes brilhantes que, apesar de tudo, não têm a mesma importância do primeiro. Para mim, é um mistério: qual a razão do declínio? Hollywood já foi a grande máquina ideológica do mundo ocidental, mas agora é apenas uma maquinaria sem ideias. Há dinheiro, tecnologia e talento, mas os melhores produtos são apenas sofríveis ou engraçados; os piores, embora intragáveis, são muitas vezes os premiados.

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publicado às 14:00

Sobre os heróis de cada tempo

por Luís Naves, em 26.02.18

A cultura popular dominante tende a reflectir a forma como as pessoas se interpretam a si próprias e a maneira como encaram o mundo em que vivem. Se olharmos atentamente para a ideologia em pano de fundo nas histórias dos filmes relevantes de cada época, podemos encontrar, no período após a II Guerra Mundial, três grandes ciclos narrativos. Na primeira fase, que corresponde à reconstrução que ficou conhecida nos EUA por ‘Grande Sociedade’, as personagens positivas são geralmente indivíduos de força, construtores e pioneiros, que resistem à tirania e ao cinismo da mediocridade ou da ganância. A coragem, a resistência e a autoridade moral são os valores desta época de poucas ambiguidades, caracterizada pelo progresso, a confiança e o triunfo da ordem. No final dos anos 60 e início dos anos 70, ocorreu uma transformação social e os heróis deixaram de ser pessoas carregadas de certezas, passando a favorecer a ideia do rebelde que procura uma causa capaz de preencher o seu vazio. As ideias dominantes da cultura popular passaram a ser liberdade, solidariedade e contestação, e foi assim até à crise de 2008, que talvez tenha lançado um novo ciclo. Agora, a rebeldia e a liberdade não são propriamente ideias valorizadas, pelo contrário, parece que introduzem uma espécie de opressão do pensamento. Os heróis deste ciclo estão sobretudo desiludidos e divididos, terão problemas de identidade e serão forçados a escolher soluções menos individualistas: o seu eventual inconformismo será menos compreensível para o público. Esta nossa fragmentação implica que cada dose de realidade esteja amplamente contaminada por fantasias (não quer dizer que isso não tivesse acontecido no passado, o que significa é que hoje já não podemos dizer que uma realidade aceite como tal é mais autêntica do que outra qualquer). Estaremos talvez ainda à procura dos heróis do nosso tempo. O que os fará dar o peito às balas? Antes, foi a necessidade de vencer o totalitarismo, depois foi a solidariedade com os oprimidos. O que virá agora?

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publicado às 13:57

Velhice

por Luís Naves, em 20.02.18

Tornou-se de bom tom afirmar que os grandes romances são escritos aos 30 anos (veja-se a tendência nos prémios) ou que um líder partidário não pode ter mais de 40, embora não haja qualquer prova de que isso seja assim, pelo contrário, não faltam exemplos que desmentem tais preconceitos. O mesmo princípio aplica-se mais ou menos a tudo o que mexe, à moda, aos padrões de beleza, ao entretenimento, aos actores, à música, à opinião ou ao jornalismo: vivemos numa obsessão pela novidade e a carinha laroca, preferimos a espuma das coisas ou a leveza adolescente. Uma sociedade envelhecida despreza tudo aquilo que resulte da sua experiência e procura o que não tem, que é juventude, enquanto mergulha no caminho da senilidade e da paralisia institucional, incapaz de mudar. Estamos a destruir a memória e deixámos de nos preocupar com o futuro. Temos uma população onde haverá imensos velhos depauperados, incapazes de pagar os cuidados de que vão necessitar e cujas poupanças foram e serão destruídas nesta crise e na próxima. Nem quero pensar no fardo da próxima geração, mas o que já vemos é a indiferença em relação à violência sobre os idosos, em simultâneo com a indignação extrema em relação a coisas de nada, como é próprio de quem não deseja enfrentar o vazio que está ali à frente, mas viver somente no conforto ilusório do outono.

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publicado às 19:20

Uma sociedade de velhos

por Luís Naves, em 19.02.18

Cada vez ouço mais pessoas da minha geração a dizerem que tentam chegar à idade da reforma sem penalizações e conheço novos casos em que isso se revela difícil. É sem dúvida um dos grandes paradoxos do nosso tempo: menos jovens terão de pagar as pensões de uma geração numerosa e em rápido envelhecimento. A sociedade portuguesa terá uma massa de velhos extremamente empobrecidos e não conseguirá pagar o sistema de segurança social segundo as actuais regras. Por outro lado, não nos permitem prolongar a carreira contributiva (o que devia ser deixado ao critério de cada um, com as devidas compensações) e não nos deixam sequer concluir a carreira, o que implicará cortes drásticos nas reformas ou impostos insustentáveis. Aos 50 anos, um trabalhador é considerado dispensável, isto aplica-se a todas as áreas: políticos, académicos ou artistas de 60 anos estão ultrapassados, apesar de estarem no topo das suas capacidades. Nas empresas, os mais antigos são os primeiros na lista de despedimento; em todas as actividades, os mais experientes são os primeiros a ser esquecidos. O problema da segurança social estará provavelmente resolvido, mas de que vão viver os velhos pobres? Não conseguem poupar nem concluir a carreira contributiva, terão pensões miseráveis e ninguém os quererá empregar em idade avançada.

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publicado às 19:07

Fundos comunitários

por Luís Naves, em 13.02.18

Em Portugal instalou-se um mini-debate sobre o próximo pacote de fundos comunitários (para sete anos), que os líderes europeus vão discutir nos próximos dez meses e que entra em vigor em 2021. O que desencadeou a conversa foi uma proposta, apresentada como sendo de António Costa (na realidade, é tirada a papel-químico das ideias da comissão e do parlamento) de aprovar três impostos europeus, sobre economia digital, empresas poluentes e transacções financeiras. Ao aderir tão de perto a ideias que já circulam, Portugal reduz a sua capacidade negocial, não terá cedências para fazer e aceita tudo o que vier da negociação. O Brexit implica uma quebra nas receitas: sem o contribuinte líquido Reino Unido, haverá menos dinheiro para distribuir pelos países que recebem do orçamento mais do que pagam. Tendo regiões acima de 75% do rendimento médio per capita, Portugal terá menos dinheiro do que nos anteriores pacotes, pois as verbas tenderão a beneficiar os países de leste, mais pobres e que prometem negociar com dureza. Além disso, o essencial do orçamento comunitário sustenta a agricultura, sobretudo a francesa, sendo pouco provável que esse bolo se reduza sem resistência da França. A saída dos ingleses equivale a 10% das verbas, portanto, só há duas soluções: impostos europeus ou aumento da percentagem que cada país paga, de 1% do PIB para pelo menos 1,1%. No segundo cenário, os países contribuintes líquidos vão exigir qualquer coisa em troca. Por seu turno, a ideia de impostos que Lisboa apoia tem vários problemas. O da economia digital visa multinacionais americanas e terá a devida retaliação comercial de Washington (pode fazer enormes estragos); o das transacções financeiras contradiz a ambição de franceses e alemães de absorverem parte do negócio da City de Londres, no mundo pós-Brexit; e o das empresas poluentes é pago pelos países mais atrasados da União, aqueles que precisam de fundos exactamente para acabar com as empresas poluentes. Ou seja, isto vai acabar por ser um aumento da contribuição dos países e Portugal, com os seus crónicos problemas orçamentais, acabará provavelmente por pagar mais para os cofres europeus, recebendo menos das políticas comunitárias (é preciso não esquecer que as contribuições nacionais, calculadas em função do PIB per capita, representam 70% das receitas). A alternativa ao aumento da contribuição nacional será a redução de todos os programas europeus, a começar pela agricultura, que absorve 40% dos 140 mil milhões de euros anuais do orçamento. Haveria ainda a hipótese de diminuir as ambições da UE, mas os líderes pretendem avançar na direcção oposta, querem adicionar a segurança e as migrações a uma longa lista de programas comunitários onde constam energia, emprego, formação, alterações climáticas, ajuda externa, inclusão social, inovação, ciência, entre muitos outros. Em resumo, entramos na fase da política a sério, onde o interesse nacional será determinante e a EU terá de fazer uma escolha estratégica, se quer ou não ceder mais poderes e dinheiro à estrutura supranacional.

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publicado às 19:04



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