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Autenticidade

por Luís Naves, em 22.09.18

Se a literatura deve ser autêntica, então devíamos escrever sobre aquilo que sabemos. A autenticidade é um dos pontos, em oposição às rodinhas do meu bairro e outras tretas sentimentais. E, no entanto, a realidade não chega. Um livro de ficção, pelo menos no meu conceito (que é o melhor para mim), deve explorar a fantasia tanto quanto a memória, num equilíbrio que só cada um pode calcular. Julgo que este é o sentido da explicação incluída num diálogo de A Doida do Candal: o narrador (sempre o autor, CCB) explica o livro que acabámos de ler a uma das suas próprias personagens, a qual lhe pergunta se as histórias dos seus romances aconteceram mesmo. «É tudo verdadeiro, minha senhora», responde o escritor, «uns casos aconteceram, outros podiam acontecer; e logo que podiam, é quase evidente que aconteceram».

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publicado às 19:13

O que mudou

por Luís Naves, em 11.09.18

Os acontecimentos do dia 11 de Setembro de 2001 ficaram na memória de todos, mas o que verdadeiramente mudou as nossas vidas foi a crise financeira que começou em Setembro de 2008, com o colapso do banco americano Lehman Brothers. A partir daí, vivemos uma época da fragmentação, caracterizada pela estagnação económica (a década perdida), a aparente dissolução dos valores, a mediocridade da política, a crispação do discurso da intolerância, o estilhaçar das classes sociais, o antagonismo sem ideologia e a irrelevância das vozes moderadas. Nestes últimos dez anos, tivemos a sensação de viver numa espécie de época pantanosa, em que se acentuou a ideia do próprio declínio da cultura, como se não houvesse rumo e futuro. A grande recessão teve causas complexas e nunca li uma explicação convincente. Aliás, os académicos ainda hoje discutem as causas da Grande Depressão dos anos 30 do século passado e talvez seja preciso esperar um século para que se compreenda o fenómeno que nos atingiu. Ora, se ainda hoje não entendemos inteiramente o que aconteceu, quem nos garante que já terminou o ciclo? Podemos conceber novos espasmos do processo, em que se acentuam divisões sociais e cresce o fosso entre vencedores e vencidos, em que ocorrem novos episódios de segmentação, em que voam estilhaços das classes sociais e saltam pedaços de tribos e de clãs, acentuando choques e contradições da época. Depois da fragmentação, haverá outra tendência, talvez até a contrária, mas uma coisa é certa: o mundo que estamos a construir será muito diferente daquele de onde saímos.

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publicado às 19:09

Telescópios imprecisos

por Luís Naves, em 03.09.18

Os escritores são solicitados para falar sobre tudo e um par de botas, mas normalmente nem sabem o que os faz escrever e desconhecem o mecanismo que os leva, por vezes, a conseguir tocar ao de leve em alguns dos mistérios essenciais do seu mundo. Isto funciona um pouco como os telescópios. Há telescópios ópticos que captam a luz visível, há outros aparelhos que detectam infravermelhos ou radiação ultravioleta. Cada um destes equipamentos permite ver uma versão da realidade, mas apenas parte limitada do universo. Assim funcionam as ciências sociais e a filosofia, cada uma a captar determinado espectro da luz. E, no entanto, sabe-se que no universo existe matéria escura, que continua invisível para a tecnologia. Ora, a literatura pode explorar o que as ciências não atingem. Perguntar aos autores pela matéria visível não tem grande lógica, pois eles são melhores a detectar matéria escura, ou seja, a parte enigmática da humanidade, e piores a pensar sobre aquilo que já é conhecido. Sem perceberem ao certo como o fazem, os ficcionistas podem entender uma parcela da essência do seu tempo, mas sempre no território do enigma e do que se oculta nos interstícios da realidade. Quando os interrogam sobre matéria que possa ser estudada, como a explicação de um país ou a descrição da sociedade, têm geralmente telescópios imprecisos.

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publicado às 17:56

Regras absurdas da vida

por Luís Naves, em 02.09.18

Parece ser uma daquelas regras absurdas da vida, mas quando uma pessoa está na mó de baixo recebe sempre mais críticas, seja de desconhecidos, de familiares ou de amigos com boas intenções. Dizem eles que deve haver alguma coisa de errado com alguém que pareça um óbvio fracasso: esforços inúteis, esforços insuficientes, ilusões ou caminhos que não dão em nada. Enfim, algo estará errado, e então aparecem aqueles conselhos que já foram explorados, aquelas observações que já foram pensadas, as ligeiras críticas veladas que mandam a auto-estima ainda mais abaixo. Não tens talento para o que tentas fazer ou vives numa estúpida mania de grandezas, enfim, não te sabes avaliar e quando insistes num plano estás a bater com a cabeça na parede. Se a tua vida é um buraco, então pára de escavar, dizem os amigos; se não funciona este caminho, não insistas, mas por outro lado não fiques a dormir a sesta, à espera que os teus problemas se resolvam sozinhos, embora isso (no teu caso, mas só no teu caso) não seja inteiramente má ideia, pois é preferível não dares nas vistas, fingires que está tudo bem, sorrir e confiar. A mó de baixo é culpa de quem lá está, portanto, é culpa tua. Para ti, a fasquia está sempre mais alta. Ah, e não critiques, porque é inveja.

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publicado às 17:53

Das minorias

por Luís Naves, em 01.09.18

Basta ler qualquer autor centro-europeu da primeira metade do século para se perceber que o mundo do presente nem sempre é uma melhoria em relação ao do passado. A sociedade austro-húngara era multicultural e desapareceu no tempo do diabo esfregar o olho. O argumento que justificou desmembrar o império austro-húngaro foi a necessidade de criar territórios sem as chamadas quintas-colunas das minorias, por isso os Tratados de Versalhes e Trianon (impostos pelos vencedores da I Guerra Mundial) deram origem a processos de limpeza étnica de grande violência. Nos anos 20 e 30, desenvolveram-se ideologias de exclusividade racial e nacional que originaram catástrofes. Nos últimos cem anos, os países que se formaram no antigo império lutaram pela homogeneidade cultural e étnica, mas agora são acusados de desvio nacionalista sobretudo aqueles que já nasceram homogéneos contra a sua própria vontade. É uma ironia cruel. Durante o império, havia nas mesmas localidades populações sérvias, ciganas, húngaras, alemãs ou judias, ou outra qualquer combinação de cinco ou seis línguas e três religiões, mas nesse tempo as pessoas viviam em tranquilidade. O desmembramento do império serviu sobretudo as elites nacionais que, antes, teriam menos hipóteses de ascender ao poder. As expulsões das culturas erradas duraram duas gerações e decorrem ainda, sobretudo por emigração, pois não desapareceu o impulso de discriminar minorias. Entretanto, no resto da Europa, quando hoje se fala nas vantagens do multiculturalismo, isso significa aceitar culturas não europeias e considera-se irrelevante a continuação da discriminação política ou cultural dessas minorias internas, as que ficaram do lado errado das novas fronteiras e que continuam a resistir à assimilação. Há também o curioso caso dos migrantes dentro do mesmo país, cuja aceitação nunca foi fácil, sendo o caso catalão o mais evidente.

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publicado às 12:19

Que se passa na América Latina?

por Luís Naves, em 31.08.18

O que se passa na América Latina? Ainda não ouvi uma boa explicação, mas o cenário é preocupante: colapso na Venezuela (e talvez na Nicarágua), a Argentina a pedir ajuda ao FMI, o Brasil numa crise política alarmante, talvez à beira de uma eleição catastrófica. Se juntarmos a isto os problemas financeiros na Turquia (um dos canários da mina) e a crescente guerra comercial entre potências, está a formar-se um daqueles momentos de alta volatilidade que terminam em rebentamentos de bolhas ou quedas bolsistas. Há pelo mundo dívidas insustentáveis, países que mergulharam em súbitas dificuldades de liquidez, regimes à beira do fim, democracias presas por um fio, mas se ocorrer por contágio uma súbita crise financeira, Portugal não tem muitas hipóteses de escapar à queda das exportações e ao aumento de taxas de juro e serviço da dívida, não dispondo de instrumentos para contrariar uma recessão — não é possível baixar impostos e não é possível aumentar a despesa. Se isto acontecer, veremos que o governo acreditou de tal forma na própria propaganda que não terá boa maneira de explicar à população como é que estamos de novo a olhar o abismo.

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publicado às 12:09

Estado de insegurança

por Luís Naves, em 30.08.18

Na Europa Ocidental começou uma transição política que pode até ser o início de uma grande transformação. Esta mudança é alimentada pelo descontentamento de uma franja assinalável do eleitorado, a metade mais pobre da chamada classe média, que foi a parte derrotada na recente crise. Os motivos da insurreição são complexos e levarão anos a ser compreendidos, mas podem estar relacionados com o impacto de novas tecnologias, a contracção dos generosos sistemas de protecção social, a degradação dos serviços públicos, a insegurança física que muitas pessoas sentem nas próprias cidades e a pressão salarial dos migrantes. É fácil observar que cada um destes fenómenos tem maior efeito sobre pessoas mais pobres, as que vivem em bairros sociais ou as que dependem de empregos menos qualificados, a antiga classe operária, que os partidos de esquerda abandonaram. Em todos os países ocidentais, parte substancial da classe trabalhadora empobreceu, as fábricas mudaram de local e os novos empregos são mal pagos. A revolta que se designa como populista será a resposta destes eleitores à crescente insegurança, mas é também uma reacção a problemas concretos que as chamadas elites se recusam a reconhecer. Quando falo em elites, refiro-me ao conjunto de partidos tradicionais, burocracias e organizações, hierarquias académicas, grupos de influência empresarial, de intelectuais e vedetas mediáticas, ou seja, a bolha do topo, cuja narrativa da realidade rejeita qualquer argumento dos descontentes, desprezados como xenófobos, nacionalistas, irracionais, até como fascistas.

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publicado às 12:07

Frequências desencontradas

por Luís Naves, em 24.08.18

Chegámos a Lisboa há uma semana e já dá para sentir o desânimo. Em Portugal, parece que se infiltra no corpo a vontade de não bulir um músculo. Tudo está pré-determinado. Julgo que estamos a assistir ao final de uma época: representados e representantes divergiram de tal forma, que passaram o ponto de não retorno. A situação lembra a de um filme razoavelmente mau, com John Wayne, que vi na televisão, Inferno Branco, onde um avião que aterrou no gelo é procurado por uma frota de aparelhos que procuram seguir sinais de rádio cada vez mais fracos. A metáfora aplica-se à realidade contemporânea: por vezes, é possível ouvir as mensagens de um lado ou do outro, mas no essencial as duas partes do conflito falam em frequências desencontradas. As elites no poder estão dispostas a não ceder um milímetro e não vão aceitar a legitimidade de qualquer revolta eleitoral; os eleitores, por sua vez, já não acreditam em nada do que ouvem, e estão cinicamente alheados, à espera de que o edifício se desmorone. Julgo de daqui a uns anos vamos discutir se votar é assim tão importante. Até lá, as instituições vão separar-se das populações que deviam servir, dirigidas por elites iluminadas que não respondem perante os eleitores. Estes só terão direito a escolhas rigorosamente idênticas. O povo perderá a voz. Portugal infelizmente já funciona desta forma, tornou-se um protectorado da União Europeia, que por sua vez é o triunfo do Castelo de Kafka, indiferente ao que acontecer aqui, desde que haja obediência a uma hierarquia com agenda misteriosa. Portugal é hoje um país a fingir, o pátio das cantigas no seu esplendor.

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publicado às 12:04

Coisas ultra-modernas

por Luís Naves, em 21.07.18

Vladimir Nabokov antecipou o triunfo geral da banalidade e do mau gosto, do moralismo e do lugar comum. Estes eram alguns dos elementos que ele detestava na literatura do seu tempo e que encontramos de maneira abundante na nossa época: a simplificação excessiva, o pedantismo, numa palavra o «fake» (uso a expressão inglesa por ser melhor do que falso, com sentido mais subtil, que tem a ver com a falta de sinceridade e a aparência enganadora das coisas). Os nossos tempos são como a literatura que Nabokov detestava: tudo bonitinho, com falsa poesia, sem autenticidade, embrulhado em belas frases. Gostamos de coisas moralistas, politicamente corretas e suficientemente hipócritas para manterem sempre certa leveza inócua. Somos pela verborreia sentenciosa, a pompa vazia, a ignorância atrevida. Raramente encontramos alguém que diga mesmo aquilo que pensa. Sebastian Knight, em particular, tem muitas pistas sobre a arte da literatura, no conceito de Nabokov, veja-se esta passagem, em que o narrador se refere a um poeta modernista russo: «o grosso da sua obra parece hoje tão fútil, tão falso, tão antiquado (as coisas ultra-modernas têm a estranha característica de envelhecerem muito mais depressa do que as outras)».

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publicado às 19:59

Clima tóxico

por Luís Naves, em 13.07.18

Escrevi um pequeno texto para o Delito, com uma análise sobre os EUA que até me parecia catita, e apareceram logo os comentários ferozes, com gente espantada por ler algo que divergia das opiniões gerais sobre o assunto. Portugal está a ficar com um clima tóxico, onde só são permitidas determinadas visões do mundo. Começam a surgir com frequência os artigos que defendem a existência de uma meritocracia e, para seu desgosto, um eleitorado populista mal informado que, levando a lógica até ao fim, nem deveria ter direito a voto (a República Velha defendia a mesma tese e protegeu o regime do voto de centenas de milhares de eleitores analfabetos, sendo que a ideia ressuscitou logo a seguir ao 25 de Abril, quando muitos comunistas defenderam as assembleias populares). Nestes nossos dias cinzentos, há um cinismo manhoso e provinciano a tomar conta das pessoas que se instalaram nos poleiros intelectuais. Com o desastre à porta, começam a desenhar-se as lamurias que vão servir para tirar o cavalinho da chuva, ilibar os responsáveis e continuar com a vil tristeza que nos afunda. Por tudo isto, começo a ficar sinceramente farto da perda de tempo de escrevinhar umas opiniões avulsas, boas ou más, que extraio sobretudo da minha reflexão, e pouco me importa esta quase desistência, pois há muito que o país desistiu de tanta coisa. Já poucos distinguem uma opinião trivial de outra diferente, um bom romance de um mau, uma interpretação musical culta de outra fora do estilo, e ainda menos se preocupam com isso. O respeito pela tradição, que é um dos pilares da arte, está definitivamente perdido a favor da colagem, da imitação e do gosto das sensações frívolas. A política, aliás, não é mais do que um espelho particularmente cruel destas tendências.

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publicado às 19:50



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