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Pedaços do mundo e grãos de areia
A opinião pública europeia foi enganada durante três anos e meio sobre as causas da guerra da Ucrânia e a situação no campo de batalha. Perante a impossibilidade de sanções secundárias contra a Rússia, pressionado pela sua base eleitoral, a quem prometeu acabar depressa com o conflito (mas também pela escassez de munições), Donald Trump mudou subitamente a estratégia americana e decidiu fazer um acordo com Moscovo. Os países europeus estão em pânico, mas ajudaram a escavar o buraco onde agora se encontram presos. A Europa podia ter negociado com o Kremlin muito antes, mas insistiu em prolongar uma guerra que a Ucrânia não podia vencer. Zelensky é uma figura trágica, não tem cartas na mão, será responsabilizado pela maior calamidade sofrida pelo povo ucraniano nos últimos setenta anos; terá de aceitar a neutralidade, perdas territoriais e garantias frágeis. A alternativa a um mau acordo é a saída dos EUA do conflito, inaceitável para todos. Os europeus sabem que não podem continuar sem os americanos e terão de aceitar um entendimento com a Rússia. A realidade tem este péssimo hábito de destruir as melhores ilusões: a guerra acaba, a Rússia sai vencedora, a Ucrânia será um Estado-tampão e os líderes europeus terão de começar a explicar o que fizeram.
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Noite densa, silêncio. Quando me deitei, ontem, era um burguês anónimo, sem história para contar, feliz com a minha vida, digamos assim, plenamente satisfeito. Vivia numa cidade ocidental igual às outras, onde nada acontecia, era consumidor, pagava impostos e votava de vez em quando. Nessa qualidade, nunca me interessaram os conflitos do médio oriente, parecia-me aquilo demasiado grotesco, também distante, mas quando acordei, esta manhã, estava aqui, junto a esta pequena fogueira, rodeado de ruínas e com outra consciência na minha cabeça.
Tenho um nome diferente e outra história, no fundo sou uma pessoa alterada, que já não se lembra bem daquilo que foi ontem e recorda com nitidez tudo aquilo que lhe é novo. Os meus avós foram expulsos do país que hoje se chama Israel e que na altura se chamava Palestina. Eles vieram para aqui, Gaza. A minha família prosperou durante duas gerações, mas toda a gente atravessou dificuldades, depois veio esta guerra.
Quando começaram os combates, os meus avós já tinham morrido, mas sei que não podiam tolerar esta brutalidade, os bombardeamentos, a violência, as incursões de soldados, a fome e a agonia lenta. Os meus pais morreram logo no início das hostilidades, pois não havia medicamentos e os hospitais foram destruídos. Os velhos desapareceram depressa e não contam para as estatísticas.
Perdemos as nossas terras e vivemos numa prisão a céu aberto, onde sofremos durante setenta anos as maiores humilhações. O mundo sempre nos condenou. Alguns dos meus primos aderiram ao Hamas e foram martirizados nos combates. Chamamos a isto a resistência, mas o meu eu de ontem dizia que era terrorismo.
No último ano e meio, além dos meus pais, perdi dois irmãos e sete sobrinhos em bombardeamentos. Foram apanhados a dormir nas suas casas ou nos campos onde se tinham refugiado, palavra talvez errada, pois não existe refúgio, não temos para onde ir, a nossa prisão tem apenas 400 quilómetros quadrados e está inteiramente destruída. Não há água potável, comida ou energia. Não podemos pescar nem tratar das nossas hortas. A minha casa foi arrasada, mas felizmente sobrevivemos. Eu sou agora o chefe da família (não restam pais nem irmãos mais velhos), tenho mulher e três filhos, mais três sobrinhos órfãos à minha guarda.
Tenho andado à procura de comida, mas é cada vez mais perigoso. É preciso andar quilómetros até aos centros de distribuição, depois voltar, sempre sob ameaça. Há perigo constante. Podem disparar sobre nós ou roubar a comida. O caos é total, não há leis que nos defendam, morre-se de fome ou por um pedaço de alimento. Até agora tive sorte, mas cada vez que saio da tenda onde vivemos sei que o mais provável é não regressar. A minha criança menor já não tem força, está a perder peso depressa, não sei se vou distribuir a sua parte pelos outros e se divido a minha parte com ele.
Não sei que fazer. Será justo pegar em armas e resistir? O meu eu de ontem diria que isso me transforma num terrorista, ele acha que este não é um caso de violência sobre seres humanos, mas uma espécie de violência merecida, uma punição sobre animais ou sub-humanos. Diz-se que a situação vai piorar em breve. Hoje, tenho de regressar à fila de distribuição de comida. Talvez nunca volte para ver as almas preciosas que me são tão queridas. Nesse caso, irei para o paraíso ou talvez regresse ao meu eu de ontem, que tinha uma vida confortável e não precisava de se preocupar com nada.
imagem gerada por IA, ChatGPT

O homem cavalgava para oeste, mas não lhe restava tempo, as provisões estavam no fio. O sol impassível queimava-lhe a alma. O cavalo era magro e nervoso. A poeira agarrava-se aos ossos, cobria tudo com uma mortalha sufocante. A terra seca, a planície agreste transformada em corpo sedento, a tempestade a correr na sua direção, com o fragor de uma carga de cavalaria. Mesetas misteriosas recortadas no horizonte, pedra vermelha, antiga. Moitas cobriam o chão, o vago cheiro arrastado pelo vento amargo. Iúcas resistiam ao calor, cactos erguiam-se teimosos.
A sombra de uma cascavel assobiou, demasiado depressa, como se a rocha fervesse. O cavalo desviou-se, assustado, depois controlou o movimento. O homem nem teve tempo para levar a mão ao revólver, o perigo escondera-se. O céu tinha camadas de azul profundo, mas azuis mais claros estendiam-se no horizonte pálido, do lado de onde ele vinha. À direita, nuvens finas, altas. A aproximar-se, a barrar-lhe o caminho, a tempestade que engrossava: a massa escura de nuvens semelhante a um monstro ameaçador.
Chegou ao riacho, embelezado com flores silvestres. Amarelas, roxas. O cheiro era doce.
O mundo está perigoso, com o crescendo dos tambores que anunciam tragédias militares, os líderes a dizerem que será inevitável um conflito mundial nos próximos quatro anos, sem que ninguém explique como se evita o holocausto nuclear. É conversa a sério ou estamos perante o grande teatro da política? Os europeus têm de gastar mais dinheiro em armas (eles falam em investimento) e precisam de um perigo para convencer os eleitores, já desconfiados de tal estratégia de guerra. Portugal vai fingindo: gasta 4 mil milhões de euros em defesa e teria de subir a parada para 15 mil milhões, talvez atinja metade. Isto não é para os fracos. A Alemanha, Polónia e França estão a rearmar-se em larga escala, sendo nítida a retórica bélica. Há também notícias sobre uma vasta corrida aos armamentos na Ásia, enquanto a guerra da Ucrânia mostra que as novas táticas de combate são brutais e dispendiosas em vidas de soldados. Não vale a pena ter ilusões: a guerra de 14-18 também parecia impossível, mas os impérios europeus suicidaram-se na mesma. Após duas décadas de paz intermitente, sem nenhuma lição assimilada, o mundo caiu de novo no abismo. No essencial, estamos a repetir erros do passado.
Está em andamento um dos maiores crimes da história recente, a expulsão de dois milhões de pessoas da Faixa de Gaza, talvez até a expulsão de parte dos cinco milhões de palestinianos que vivem na Cisjordânia. As atrocidades são quotidianas e os relatos são insuportáveis. Soldados com ordens para disparar sobre filas de desgraçados que procuram comida, uma população tratada abaixo de gado, os aviões das operações contra o Irão a largarem sobre Gaza indefesa as bombas que sobravam. Destruição insensata, fome provocada, Israel perde a sua alma nesta calamidade de proporções bíblicas. A vida em Gaza é insustentável e, sendo assim, fica justificada a limpeza étnica em larga escala. Na realidade, estamos a assistir a um genocídio sem paralelo no século XXI, ao qual se seguirá a transferência organizada dos sobreviventes. Há estimativas que apontam para 200 mil mortos (velhos sem medicamentos, crianças de tenra idade), sendo que as vítimas diretas dos bombardeamentos ultrapassam as 60 mil, mais alguns milhares enterrados sob os escombros. O ocidente lava as mãos como Pilatos e levará tempo a recuperar moralmente. Nas discussões públicas, isto aceita-se com frieza.
Basta uma curta leitura de uma hora da imprensa nacional e encontram-se as mais incríveis tolices. À falta de assunto, os colunistas fazem raciocínios estranhíssimos e tentam demonstrar teses verdadeiramente bizarras. Antigamente, os jornais não tinham este excesso de opiniões fracas. Comunicavam o essencial das notícias e faziam o papel das televisões, em crónicas e reportagens escritas numa prosa visual, por vezes divertida, sempre descritiva, com abundância de pormenores, cores, sensações. Agora, temos a discussão enviesada, por tudo e por nada. Nas redes sociais, idem: toda a gente tem a opinião engatilhada (não serve para nada, mas a necessidade é universal). Não admira que as pessoas abandonem a leitura dos jornais, com a respetiva abundância de editoriais pomposos ao alcance de um Facebook mediano. As maravilhas tecnológicas prometiam um futuro brilhante para a comunicação: as pessoas pagavam pela qualidade e os algoritmos ajudavam a selecionar o melhor material, mas o lixo trivial está a travar este progresso possível. Temos nivelamento por baixo e dispersão dos leitores, sendo impossível financiar este modelo. Ninguém paga por banalidades.
A Europa caminha para um momento de divisão e paralisia capaz de matar o seu projeto político, a imitar o que aconteceu com o império austríaco, que definhou e estagnou até ao colapso, confrontado com a modernidade e incapaz de se adaptar. O modelo social baseado em pensões (o estado vigente na UE) está agora ameaçado por um projeto ainda mal explicado, o qual visa desviar as poupanças elevadas dos europeus para um mercado de capitais com inovações, recheado de riscos. Para os burocratas, o dinheiro está "parado no banco", pois os cidadãos não precisam de arriscar o que poupam em investimentos mais rentáveis, mas também mais voláteis. Será preciso desmantelar o estado social para convencer a população a investir à maneira americana? O facto é que a Europa precisa de dinheiro: o dilema é correr às poupanças ou aumentar a dívida. É urgente financiar a recuperação económica, mas também pagar o reforço da defesa. Aqui, os europeus agitam o papão russo: Moscovo vai invadir, apesar da abundância de artigos que nos explicam a derrota iminente da Rússia na Ucrânia, onde um exército de bêbados, sem botas nem munições, continua a usar chips de máquinas de lavar roupa.
É possível que este seja um momento inicial de uma catástrofe da nossa civilização. Aquilo que vemos diariamente dificilmente integra os nossos valores, entre os mais importantes a liberdade, a justiça, a compaixão. Pelo contrário, os militaristas que se dizem representantes do ocidente parecem exercer o exato inverso de tudo isto, a pura maldade, a opressão e a vingança. Não sei o que nos trouxe aqui, mas a distopia em construção tem desigualdades sem limites e um espírito violento que lembra os relatos das guerras de religião do século XVII na Europa, onde a desumanização do outro permitia todos os excessos. As bolhas de privilégio das elites contemporâneas anunciam revoluções imprevisíveis, também já passámos pelas consequências da divisão da humanidade em sub-raças que podiam ser exterminadas ou pelo desemprego em massa das sucessivas vagas de industrialização. Estamos a rever estes processos, mas em escalas cada vez maiores. Parece insustentável e talvez seja. A humanidade é melhor do que isto, mas no passado só vivemos uma transformação de cada vez, agora está tudo a acontecer em simultâneo.
As pessoas querem paz, mas são manipuladas para aceitarem estados de conflito que levam a terríveis tragédias. Os cidadãos não ambicionam apenas viver em sociedades pacíficas, mas desejam que haja equilíbrio e justiça, que sejam mantidos os sistemas de proteção social, o acesso à cultura e a qualidade de vida. A política está a falhar nas vontades básicas da população. Os eleitos não cumprem promessas, vencem eleições com dinheiro das oligarquias e ficam presos a dependências inconfessáveis. Geralmente não sabemos se uma decisão foi tomada em nome de interesses ocultos ou se pretendia o bem geral. A democracia começa a ruir quando a vontade dos eleitores deixa de contar, transformando-se numa teia de traições: este é o terreno fértil da mentira, da corrupção e do medo. A fraqueza resulta da mediatização em excesso e da erosão das instituições, leva ao cinismo e à paralisia. Para se manter, um poder fraco exerce enormes doses de manipulação, exibe uma força que não tem, entra em guerras de alto risco. As sociedades dissolvem-se em agressão e as pessoas deixam de ter qualquer valor, são peões, são dispensáveis.
Dia de incrível preguiça. Não apetece escrever, não apetece pensar. Não há explicação: é como se entrasse em férias e tivesse necessidade de desligar das tarefas do trabalho e recarregar as baterias. Os seres humanos não são viaturas elétricas, não há nenhum dispositivo no cérebro que se possa desligar durante um tempo. Nunca gostei da preguiça, mas talvez seja verdade que precisamos de parar por vezes, para refazermos a perspetiva do mundo. Nem sequer consigo ler, cheio de sono, no calor extremo. Escrever todos os dias parece mais fácil do que é. O corpo entra em rebelião e a cabeça não obedece, parece que se esvazia a alma, à maneira de alguém que abre as veias. Se for para repensar tudo o que faço, talvez mereça a pena travar o movimento. Tenho demasiada preocupação com a produtividade, tantas palavras por dia, o que é sem dúvida uma tolice. Melhor é pensar em fazer apenas o possível e dentro das minhas limitações, pois a maior parte da literatura foi produzida por criaturas mortais como eu, que andavam meio perdidas e cheias de dúvidas, a pensar constantemente se valia a pena o esforço.