Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Um pedaço

por Luís Naves, em 04.05.17

Como se verifica nestas linhas confusas, é difícil para mim construir um retrato fiel de uma cidade que deixara de existir, ou antes, que existia de uma forma diferente: menos agreste, mas mais falsa; menos marcada, mas mais insípida. A doida varrida existira naquela minha vida anterior, perante a indiferença geral, e agora eu próprio tinha transitado para uma Lisboa mais agreste e mais culpada, onde a doida talvez existisse de outra forma ou talvez tivesse sido esquecida de outra forma. Não digo que houvesse vantagens na apatia e na indiferença, não posso afirmar isso sem parecer injusto, pois aquela ansiosa melancolia prendia toda a gente ao sentido trágico do seu futuro; era talvez indigno, mas nesta cidade nova pairava uma opressão difícil de definir: um medo pesado, nem sei dizer bem o que era, uma falsidade geral, talvez, a hipocrisia, a noção nítida de que ninguém podia dizer o que pensava. Ali não havia pessoas desiludidas. Sim, as desilusões só podem afectar quem se iluda.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:05



Mais sobre mim


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Links

Alguns blogues anteriores

Locais Familiares

Boas Leituras