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Um beijinho de avó

por João Villalobos, em 25.03.14

Morreu esta madrugada a avó materna dos meus filhos. Fui pai pela primeira vez aos 28 anos, numa idade em que me acreditava, ainda, imortal. Hoje já não tenho avós vivas, nem de um lado nem de outro. Mas recordei este pequeno conto que escrevi e agora recupero. Para as minhas crianças - uma já adulta e outra quase, quase -, para os seus irmãos e para quem quiser:

O Corredor

Era um corredor com muita luz depois de se acordar. Mas, à noite, era escuro e mais comprido. Comprido e estreito como um comboio, com portas para salas de onde vinham os estalidos de cadeiras onde ninguém se sentava.
Ouvia-se, como a voz de alguém zangado, o toc toc de um relógio alto, mais alto do que eu, que parecia gritar sempre que acordava e me levantava para fazer chichi.
Eu sabia que não era preciso ter medo e que não estava mais ninguém em casa, só os meus avós a dormir no quarto ao fundo do corredor comprido. Mas, mesmo assim, era escuro. E o toc toc do relógio mais alto do que eu assemelhava-se a passos, de alguém que caminhava ao meu lado sem que o conseguisse ver.
Às vezes, que eram muitas, apetecia-me fazer chichi ali mesmo, na cama, para não ter de levantar-me, de abrir a porta e enfrentar o corredor.
Mas depois lá ia. Toc toc, toc toc, primeiro devagarinho e depois corria para a casa de banho. A seguir saía, toc toc outra vez, primeiro num passo a passo para não fazer barulho e, depois, muito muito depressa corria e corria como se o quarto estivesse muito muito longe (e estava). Fechava a porta do quarto e enfiava-me na cama com os lençóis e cobertores por cima da cabeça.
De manhã, acordava. E o toc toc era uma música doce, como um bom dia e um beijinho de avó.

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publicado às 19:06
editado por Luís Naves a 14/6/17 às 16:51



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