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Tempos de mudança

por Luís Naves, em 08.11.16

À hora a que escrevo, milhões de eleitores americanos estão a votar nas presidenciais mais dramáticas em 16 anos. Hillary Clinton, candidata democrata, representa os interesses das oligarquias, foi apoiada pelos meios de comunicação como nunca antes aconteceu em eleições americanas e dispôs de uma máquina política demolidora que gastou verbas sem precedentes. O seu rival, o demagogo e super-populista Donald Trump, assumiu as dores de Main Street, prometeu travar o século XXI e cavalgou a onda do medo da globalização, numa campanha inédita pela sua agressividade e por dispensar a aristocracia do partido e o dinheiro dos magnatas.

O que espanta nestas eleições é a dimensão do descontentamento na América. Os trabalhadores votam agora à direita e a burguesia está na esquerda. A direita tornou-se anti-comércio livre e a esquerda conta com o apoio entusiástico de Wall Street e da banca (estes estão num pânico, com a perspectiva de vitória de Trump). A imprensa tem tratado os eleitores como um rebanho de deploráveis, mas os deploráveis deixaram de ler o que se escreve sobre eles. Estamos a assistir a uma grande mudança, que não acontece apenas na América, mas um pouco por todo o mundo e à nossa volta. Não é fácil perceber para onde vamos.

Em Portugal, a direita betinha não compreende ainda este possível segundo momento Brexit e a esquerda caviar, apesar de sentir que lhe roubaram temas queridos, tem uma reacção pavloviana de quem vê outra vez o fascismo a chegar, ou pior. Os nossos meios de comunicação fizeram uma cobertura pobre, parecia que também votávamos, e só houve espuma, opiniões superficiais e frases fora de contexto. A eventual vitória de Trump, que ainda é possível, não terá qualquer explicação para quem tenha seguido apenas os meios de comunicação nacionais.

Se Trump vencer no Ohio, Carolina do Norte, Flórida e Arizona fica próximo de uma surpresa que pode mudar muita coisa na ordem política mundial, pois este candidato representa a tendência isolacionista na América. Clinton tem um caminho mais fácil, basta-lhe vencer um destes quatro estados para acabar com a corrida do adversário. Ohio e Pensilvânia podem ser decisivos, dois estados da cintura da ferrugem onde muitas pessoas perderam os seus empregos ou as suas casas durante a Grande Recessão, para verem depois os políticos a salvarem bancos e campeões da indústria, cujos resgates implicaram despedimentos em massa.

No fundo, é esta a questão: onde meter o descontentamento e como combater a sensação de declínio? Muitos eleitores não confiam nos políticos e partidos tradicionais, querem mudança a sério e votarão em quem pareça capaz de reconhecer as feridas da crise. As desilusões pagam-se caro e os vencidos da globalização pensam que estão a ser manipulados. Se, cumprindo o cenário mais provável, Clinton for eleita dentro de algumas horas, ela será uma presidente impopular e muito activa em intervenções externas, com imagem de corrupta e perseguida por escândalos. Não lhe será fácil insistir na mensagem das elites a favor das políticas de mais do mesmo.

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publicado às 16:47



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