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O novo mundo

por Luís Naves, em 16.05.15

O mundo do futuro pertencerá às máquinas e estaremos agora a assistir aos primeiros vislumbres de uma mudança que ameaça criar uma nova civilização e talvez uma nova humanidade. Na imprensa, lemos artigos sobre carros e comboios automáticos, aviões de guerra não tripulados, algoritmos que permitem escrever artigos, traduzir textos ou fazer complexas transacções financeiras. Segundo alguns autores, nenhuma actividade que envolva ecrãs de computador poderá escapar à ascensão das máquinas, que parece inevitável nos próximos 30 anos. As tarefas rotineiras serão executadas por robôs incansáveis, mas não é difícil imaginar com saberes sofisticados. Os transportes, a limpeza, a vigilância, as finanças e a indústria podem ser mecanizados. Dizem também que poderemos em breve retirar da equação do trabalho todo o erro humano, enfim, o nosso lado irracional e contraditório, a nossa incompetência e fadiga, a falha da memória e a distracção, a intuição errada e as imprecisões do movimento. No final, será impossível evitar a tentação de colocar um bocado de máquinas nos seres humanos, para melhorar certas características naturais, a começar pela longevidade, sempre insuficiente.

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publicado às 18:55

O fim de uma época

por Luís Naves, em 04.05.15

O liberalismo económico que entrou na moda nos anos 80 está agora a conhecer os seus dias do fim. Nos 30 anos em que foi dominante, esta versão do capitalismo ajudou a vencer a Guerra Fria, mas sendo inerentemente instável, também originou a Grande Crise do final da primeira década do século XXI. Reduzir o Estado é hoje uma ideia contestada, sobretudo na Europa, onde as clivagens políticas tradicionais entre direita e esquerda se jogam crescentemente em torno de outros temas mais culturais, como família ou imigração. A obsessão por ‘menos Estado‘ tornou-se uma receita para perder eleições, o que dará origem a novos alinhamentos de alternativas políticas. Nacionalistas e socialistas vão ambos defender poderes centralizados e fortes, com sistemas de Estado providência bem financiados. A direita dará grande importância à segurança dos cidadãos, aos campeões nacionais e à soberania; a esquerda quererá maior distribuição de riqueza e o reforço de instituições reguladoras, mas ambos vão defender a disciplina dos mercados e intervenção dos governos na economia. Os conservadores vão acentuar a obsessão soberanista e tentarão defender a ordem e os valores tradicionais da sociedade. A esquerda, que acredita na engenharia social, terá facções mais radicais a defender rupturas que permitam reconstruir a sociedade. O próximo ciclo será populista e menos liberal, terá abundante retórica anti-capitalista e exigirá a defesa intransigente do ‘pequeno cidadão‘ perante as ‘grandes corporações’. Desmantelar o Estado? Essa é uma ideia que os eleitores vão rejeitar, sem pensarem duas vezes. Os mercados liberalizados, a agitação financeira e o comércio livre são ideias em recuo.

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publicado às 13:04

A banalidade democrática nem é coisa má

por Luís Naves, em 27.04.15

Sendo recente, a dívida que nos levou ao resgate e agravou de maneira dramática a nossa passagem pela crise não parece resultar do carácter do regime. Os erros políticos que a causaram têm proprietários. As responsabilidades não são difusas e não podem ser atribuídas a um sistema que, englobando toda a gente, desculpa toda a gente. O regime político que resulta do 25 de Abril é normal no quadro europeu e esse é o melhor elogio que se lhe pode fazer. Os objectivos de 74 foram cumpridos: banalidade democrática e problemas suportáveis. As clivagens parecem irrelevantes (nem a crise causou insurreições), o que explica a falta de debate político: lembro que na campanha eleitoral britânica também não há discussões por aí além e os candidatos se entregam a uma estranha obsessão com as selfies; há ainda exemplo de países menos felizes onde o debate político é sintoma de profundas divisões sociais, religiosas ou étnicas, mas não é esse o modelo que queremos.

Excerto de um post mais comprido, em Delito de Opinião

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publicado às 18:37

A propósito da revolução

por Luís Naves, em 25.04.15

O 25 de Abril acabou com uma guerra colonial que Portugal não podia vencer, proporcionou a existência de opiniões livres, permitiu a adesão às comunidades europeias. Sem liberdade e democracia, não estaríamos na UE e a evolução do país teria sido diferente, para pior, pois recebemos anualmente subsídios europeus equivalentes a uma média de 3% do PIB, isto durante 30 anos. Em apenas quatro décadas, Portugal conseguiu aquilo que outros países europeus fizeram num século. Em 1974, a proporção de analfabetos era de uma em cada quatro pessoas, agora é de 5%; o número de alunos no ensino secundário passou de pouco mais de 60 mil para quase meio milhão. Em 1974, metade das residências tinha água canalizada, agora é quase a totalidade. A esperança de vida à nascença aumentou dez anos e a mortalidade infantil era dez vezes mais elevada do que agora. Em 1974, um terço da população activa trabalhava na agricultura; agora, a proporção é inferior a 10%. No mesmo período, o PIB per capita duplicou em termos reais. O Portugal de hoje (mesmo a sair de uma crise) não tem nenhuma semelhança com o país tristonho e pobre de 1974. A sociedade sofreu uma alteração radical, o império é uma memória, as pessoas gozam de amplas liberdades e a democracia é indiscutível. Alguns dizem que não há debate político e que Portugal se desenvolveu à custa da dívida, quando é evidente que as razões do desenvolvimento são outras, que a dívida é recente e que não há dissidentes ou presos por delito de opinião.

No fundo, a direita e a esquerda têm discursos parecidos em relação à Revolução de 1974: ambos consideram que se tratou de um fracasso. A esquerda acha que as ideias iniciais foram atraiçoadas, que a utopia nunca se cumpriu. A direita pensa que as promessas não estão concretizadas, que o novo regime devia ser mais liberal, embora os portugueses tenham escolhido assim.

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publicado às 20:09

Como se viesse aí uma grande trovoada

por Luís Naves, em 13.04.15

Como se viesse aí uma grande trovoada, acumula-se na atmosfera do País uma excitação eléctrica em torno do ano eleitoral. Os comentários sobre os candidatos mencionam sempre os eventuais apoios partidários, como se essa contagem de espingardas fosse linear, ou seja, como se os partidos fossem donos dos votos e o apoio das direcções resultasse no automático entusiasmo popular. Quando as pessoas votam num candidato fazem duas perguntas: a primeira é simples e tem a ver com interesse, o que fará este candidato por mim? A segunda está relacionada com a confiança (posso confiar nele?) e, a partir daqui, a pergunta pode tornar-se mais complexa e mais variada: posso confiar nele para mudar o País? Para defender os meus interesses? Para acabar com a austeridade? Para nos tirar do buraco? Os Estados-maiores dos partidos ou os jornalistas de política têm dificuldade em perceber que os eleitores possuem motivações próprias, de interesse e de confiança. Torna-se penoso assistir à extraordinária preferência do pequeno mundo partidário e mediático pelas manobras de intriga, a retórica balofa e o curto prazo.

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publicado às 14:07

Falar da crise

por Luís Naves, em 11.04.15

As pessoas já não suportam ouvir falar de crise e já não toleram a fulanização da política e as notícias enviesadas. Estão fartas de corruptos e das elites que se apoderaram do Estado e que nos levaram à pré-bancarrota e ao resgate. Muitos portugueses estão desempregados ou temem pelos seus empregos, ninguém pode ignorar o tsunami da emergência social e já não há pachorra para a conversa marciana e para aqueles que tentam sacudir a água do capote. As pessoas fazem contas de cabeça e percebem que nem em cinco ou seis anos terão o nível de salários anterior à crise, com a respectiva reposição de cortes ou redução de impostos. Sobretudo, não entendem para que serviram tantos sacrifícios.

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publicado às 14:09

Injustiça

por Luís Naves, em 29.03.15

Quando tentamos imaginar o passado, percebemos as nossas vidas invejáveis e como é injusto o olhar que por vezes lançamos sobre o mundo actual. Os miseráveis têm vidas duras e curtas, mas são tratados e alimentados de forma gratuita e já não morrem como moscas ao longo da infância. A classe média dos trabalhadores é agora o pilar das sociedades contemporâneas: estas pessoas podem ir à escola e já não se matam a trabalhar, têm mobilidade e acesso à cultura, uma panóplia de confortos, até votam e escolhem os governos. Os ricos são parecidos com os de antigamente, mas nunca foram tão ricos e a sua vida causaria inveja aos nababos dos velhos tempos. Só podem lamentar certas limitações ao exercício do seu poder, pois deixou de haver impunidade.

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publicado às 15:12

Fantasmas adormecidos

por Luís Naves, em 14.03.15

Na fase final do império austro-húngaro, grande parte da opinião pública da época detestava aquela construção e queria a independência das nações oprimidas. Estas opiniões eram bem intencionadas e ninguém imaginava o que aí vinha de horrores. As experiências democráticas na Europa Central dos anos 20 foram de curta duração, substituídas por governos fascistas. Na década seguinte, as ditaduras dominavam quase toda a região e tinham apoio popular. Nos anos 90, quando caíram as ditaduras comunistas, ainda estavam vivos muitos idosos que se lembravam com nostalgia do tempo dourado do império. Eles desconfiavam das mudanças, pois tinham sobrevivido à II Guerra Mundial, às limpezas étnicas e ao Holocausto, tinham testemunhado os efeitos do nacionalismo histérico, que entretanto regressava em força.

Lembro-me dos velhos nostálgicos do império sempre que leio sobre o avanço dos actuais partidos nacionalistas de direita. Há vários exemplos de retórica anti-União Europeia, mas os discursos são idênticos em todos os países: critica-se o capitalismo, o livre comércio e a decadência nacional provocada pela contaminação estrangeira. A pior situação ocorre em França, onde a Frente Nacional pode vencer a primeira volta das eleições regionais, criando uma base de votos que permitirá a Marine Le Pen disputar as presidenciais de 2017 com hipóteses de vencer ou, no mínimo, de forçar o vencedor a uma postura menos favorável à Europa. Esta retórica alimenta-se do descontentamento dos eleitores em relação a instituições supra-nacionais que muitos não entendem. Há razões para protestar, pois a Europa perdeu 6 milhões de empregos durante a crise, mas o desmantelamento progressivo de uma construção política que proporciona segurança e bem-estar pode resultar numa vaga de violência. Não é preciso ir longe, à Ucrânia, para perceber como é fácil manipular as paixões nacionalistas. Em toda a Europa se escondem fantasmas e esqueletos. Só estão adormecidos.

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publicado às 19:56

Ninguém pega no exemplo irlandês

por Luís Naves, em 13.03.15

Em Atenas há duas hipóteses: avançam as reformas que a esquerda radical sempre recusou ou a alternativa será o abandono da moeda única, calamidade que implica um recuo de 30 anos. Ministros cheios de estilo, que entraram a matar, já enfiaram a viola no saco, mas os analistas nacionais continuam a detectar vitórias esmagadoras em todas as patéticas provocações que ajudam a empurrar aquele país para a porta de saída da zona euro. Aqui, os comentadores andam obcecados com a beleza e a dignidade do exemplo grego, mas nenhum deles explica que Portugal tem apenas de imitar a Irlanda. Quem não aceite as regras do Tratado Orçamental terá financiamento mais caro, não conseguindo pagar as suas dívidas. Todas as fantasias conduzem ao cenário grego da dependência externa. Pelo contrário, quem optar pelo rigor poderá recuperar a riqueza perdida durante a crise. Irlanda, Espanha e Portugal já desmentem as previsões económicas e, com substancial ajuda externa, inverteram a tendência de queda, obtendo crescimento e criação de emprego.

No entanto, em jornais e televisões, os comentadores que diziam que isto era impossível não alteraram um milímetro do seu discurso. A Imprensa esteve três anos a evitar a discussão central, confundindo desejos com realidade e sintomas com causas. Agora, sem leitores (os jornais perderam 40% da circulação em dez anos), a comunicação social não permitirá uma discussão política exigente, pois isso tornaria irrelevantes todas as análises nunca concretizadas: o País enfrentava a insurreição, a ruptura violenta, depois a espiral recessiva, mais tarde a necessidade de reestruturar a dívida e até a conveniência de sair do euro, a impossibilidade de terminar o programa de ajustamento, o horror social e a miséria eterna. A conversa mantém-se imperturbável, insistindo que os parceiros europeus erraram em toda a linha e que o nosso problema nunca foi causado por ilusões de megalomania, mas pela intransigência da Alemanha.

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publicado às 11:22

Causas do atraso

por Luís Naves, em 12.03.15

Entre 1960 e a actualidade, o rendimento per capita nacional aumentou cinco vezes (em valores constantes). Os indicadores de alfabetização, longevidade ou mortalidade infantil são típicos de países europeus avançados. Durante a crise de 2009-2014, o País empobreceu, perdendo 6% da riqueza, mas isso não contradiz a tendência dos últimos 60 anos, de enriquecimento progressivo, embora mais lento no início da primeira década do século. Ao contrário do mito, a integração europeia tornou a sociedade portuguesa menos desigual e menos corrupta e essa tendência, que deve ser entendida a médio prazo, vai prosseguir. A ligação profunda que existia entre interesses económicos, partidos políticos e comunicação social nunca mais será a mesma após a falência de grupos poderosos que dependiam da sua proximidade em relação ao Estado e à política paroquial. Além disso, a opinião pública tenderá a ser mais exigente em relação a promessas partidárias que resultem em nova despesa pública, impostos mais elevados ou endividamento. O País que sai desta crise é diferente do anterior, mais integrado na Europa, menos complacente e também mais pessimista, mas falta perceber o que acontecerá com a elite: como vão mudar os partidos tradicionais e que grupos económicos triumfam? Circula nas redes sociais uma interpretação da crise nacional que atribui às políticas de austeridade toda a pobreza, desigualdade, corrupção e envelhecimento que nos rodeia, mas longe de serem consequências da crise estes fenómenos são as causas do nosso atraso.

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publicado às 10:49


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