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Cinismo dos eleitores

por Luís Naves, em 11.06.17

Eleições em França, primeira volta das legislativas. A maioria presidencial arrasou os partidos tradicionais, Emmanuel Macron está a ser muito elogiado por isso, mas a excitação parece imprudente: a abstenção foi superior a 50%, coisa nunca vista, e percebe-se que a maioria presidencial na primeira volta foi inferior à de François Hollande em 2012: 32%, em vez de 40% para um presidente que foi incapaz de fazer reformas. Há aqui sinais de cinismo dos eleitores, que deviam fazer pensar os analistas. Se o novo presidente rebentou com os partidos, é natural que muitos franceses sintam por enquanto que não vale a pena votar, pois é certa a vitória dos candidatos relativamente desconhecidos apresentados pela maioria (votar contra eles não é opção, pois garante o caos). Bem mais grave é a possibilidade concreta de não haver oposição em França: Macron está a engolir tudo à volta, formando um albergue espanhol para oportunistas, em vez de um projecto político coerente. Com a assembleia domesticada, os eleitores terão de ventilar a sua frustração por outros meios democráticos.

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publicado às 17:20

Ilusões

por Luís Naves, em 28.05.17

A Alemanha, tão confiante nos benefícios de uma integração mais acelerada, admite livrar-se da tutela americana que lhe garantiu a independência e a actual riqueza. Compreende-se a frustração de Donald Trump e de Vladimir Putin, herdeiros dos vencedores de Ialta, que obviamente não vão facilitar estas ambições. Com a saída do Reino Unido da UE, provavelmente uma separação litigiosa, a chanceler enfrenta o seguinte panorama inédito: os ingleses (e americanos) estão cada vez mais fora da equação continental e não interferem; os franceses precisam dos mercados alemães, a Itália precisa de ajuda financeira alemã de emergência; a Polónia (enfim, o antigo Império Habsburgo) é pobre e precisa do investimento alemão. Isto, no fundo, é a Europa alemã que Bismarck sonhou e não tem nada a ver com as comunidades europeias e NATO, que visavam a protecção e reconstrução da Europa, integrando os países derrotados num conjunto onde os vencedores dominavam.

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publicado às 15:36

E se acontecer o pior?

por Luís Naves, em 06.04.17

Faltam três semanas para a primeira volta das presidenciais francesas e, tendo em conta a elevada proporção de indecisos, as sondagens devem ser lidas com um grão de sal (no mínimo), mas o facto é que dizem todas mais ou menos o mesmo: o jogo não está decidido e há uma mudança na recta final. Os debates na televisão podem ter sido importantes, pelo menos no caso de Jean-Luc Mélenchon, candidato radical de esquerda, e de François Fillon, de centro-direita, que parecem ter beneficiado nos confrontos. Ambos estão a subir nas sondagens, embora ainda na zona de exclusão da segunda volta. Tudo indica que exista uma relação directa entre o voto em Mélenchon e o voto no candidato socialista, Benoit Hamon. Quando um sobe, o outro desce na proporção equivalente. Se olharmos para os inquéritos, verificamos facilmente que a soma dos dois é consistente, em torno dos 25 ou 26% das intenções de voto. Sendo assim, um socialista que considere o seu candidato derrotado, tenderá a votar útil, ou seja, no candidato mais semelhante ao seu. Mélenchon tem, assim, boas hipóteses de atingir 22-23%.

O mesmo raciocínio pode ser usado para François Fillon e Emmanuel Macron. O republicano e o centrista disputam a votação moderada, sobretudo na direita, já que Macron parece ter a preferência dos partidos centristas (que são pequenos) e dos socialistas moderados. Durante semanas, Macron atraiu o voto de republicanos desiludidos (por causa do escândalo dos empregos fictícios), mas o facto é que este eleitorado não ficou convencido e não haverá voto útil. A soma dos dois candidatos é consistente, em torno de 42-43%, sendo admissível que a coisa se divida irmãmente, o que daria a cada um algo como 21%, ou um pouco mais. O terceiro bloco de votos escolhe Marine Le Pen e desceu ligeiramente por causa dos debates, mas este eleitorado está mais do que convencido. A candidata terá, na pior das hipóteses, 22 ou 23%. Tendo em conta as margens de erro, a admitir a transferência de votos no eleitorado de esquerda e a recuperação por Fillon dos republicanos que Macron não convenceu, é fácil admitir que qualquer um destes quatro candidatos pode seguir para a segunda volta, incluindo-se aqui o cenário catástrofe de um eventual duelo entre Mélenchon e Le Pen, que daria à França a certeza absoluta de eleger um péssimo presidente.

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publicado às 16:17

Incógnitas francesas

por Luís Naves, em 06.03.17

A situação complica-se em França. O candidato republicano François Fillon continua em queda nas sondagens e parece mais longe de passar à segunda volta, quase garantindo que na corrida final estarão Marine Le Pen e Emmanuel Macron: a primeira é uma populista de extrema-direita, o segundo um político jovem e nunca antes testado, cuja maior glória é uma lei laboral que grande parte da esquerda contestou. A eventual vitória de Le Pen será o fim da União Europeia tal como a conhecemos; se Macron vencer, será preciso que ganhe também as legislativas de Junho, algo difícil para quem não dispõe de máquina partidária. Não estou a ver os eleitores comunistas ou da esquerda radical a votarem facilmente num candidato com discurso neoliberal puro e muita retórica à maneira de Obama, apoiado pelas elites financeiras do país e pelos meios de comunicação tradicionais. Le Pen não precisa de ser eleita para o Eliseu, basta-lhe ter mais de 40% na segunda volta para fazer tremer todo o sistema: depois, a líder da Frente Nacional tentará segurar esta votação para as legislativas, sabendo que dificilmente Macron terá o mesmo êxito, pois muitos dos seus eleitores votarão em candidatos republicanos ou socialistas, em muitos dos combates a três nos círculos uninominais. A partir de certo patamar, os cordões sanitários já não funcionam.

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publicado às 15:40

Em bicos de pés

por Luís Naves, em 14.11.16

Neste magnífico texto, António Barreto escreve sobre as reacções ao resultado das presidenciais americanas e como as discussões políticas são anuladas pela ideia que as esquerdas possuem da sua própria superioridade moral. Pedro Correia observa aqui, também justamente, como ao público português só chegou a informação anedótica relativa à campanha de Donald Trump, que mesmo depois da vitória continua a ser uma espécie de caricatura. Lendo os dois artigos, ninguém pode ficar surpreendido com o anti-americanismo primário que borbulha nas redes sociais.

Alguns dirigentes da União Europeia estão a contribuir para alimentar essa histeria, com a sua reacção de pânico à eleição de Trump, como se o resultado nos EUA fosse o início de um efeito dominó de partidos populistas a tomarem conta do asilo. As elites políticas e mediáticas estavam estranhamente convencidas de que a crise dos últimos oito anos não teria consequências, que nada mudava; elas pensavam que as transformações sociais da última década não teriam impacto em futuras eleições ou na confiança dos eleitores; acreditavam que a insegurança imposta pelo terrorismo não as afectava; julgavam que, para o eleitorado, o medo de perder emprego, casa, poupanças ou a pensão era absolutamente neutro.

O Brexit podia ter sido um momento de iluminação, podia ter mudado esta ideia abstrusa de que é possível continuar a apascentar rebanhos, mas após uns dias de aparente frenesim, a Europa voltou à tendência do marasmo. Agora, agita-se perante o presidente eleito dos Estados Unidos, mas Trump falou primeiro com o Reino Unido, depois com a China, os europeus serão talvez os últimos na fila, esquecidos de que quem grita em bicos de pés acaba por se desequilibrar.

As instituições da UE, lideradas pela Alemanha e França, cometeram graves erros nos últimos anos: na recuperação económica, na gestão dos resgates, no tratado orçamental camisa-de-varas, numa união bancária que não serve para todos, na crise das migrações, no desrespeito dos pequenos países, nas sanções à Rússia (é ridículo andar a proibir exportação de maçãs e depois comprar petróleo). Podia acrescentar-se a escolha de figuras menores para dirigir as instituições, como é o caso de Jean-Claude Juncker.

Esta elite incapaz, protegida por meios de comunicação que há muito emigraram para os territórios de fantasia das redes sociais, devia ser rapidamente substituída, mas os partidos tradicionais estão entrincheirados no discurso do passado, parecem inclusivamente incapazes de fazer modificações internas ou de apresentar políticas alternativas. Qualquer protesto é condenado como dissidência e silenciado com insultos ou colagem à extrema-direita. As opiniões contrárias são atacadas com a superioridade moral da esquerda, das indignações beatas e do politicamente correcto, mas não é desprezando eleitores descontentes que se trava a ascensão dos partidos populistas.

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publicado às 17:08

A surdez

por Luís Naves, em 15.09.16

Na campanha presidencial americana só se discute a expressão de Hillary Clinton ‘basket of deplorables’, o cesto dos deploráveis, que serviu para a candidata democrata arrumar metade dos eleitores de Donald Trump, como gente de duvidoso patriotismo e numerosos preconceitos, da xenofobia ao sexismo. A candidata democrata era acusada de elitismo, agora provou essa inclinação. O alheamento dos políticos não é um problema americano. Um pouco por todo o mundo ocidental, as elites tendem a desprezar o voto dos eleitores comuns, julgando que estes não escolhem correctamente ou não percebem a bondade das suas decisões. Na Europa, os federalistas contestam a legitimidade de posições nacionais contrárias ao grande plano e defendem expulsões de países, como se um suposto interesse europeu teórico fosse mais elevado do que a vontade soberana dos povos que formam esta união. Não aprenderam nada com o Brexit. Há um conluio entre as elites que povoam os meios de comunicação, os académicos que habitam nas torres de marfim, os políticos e gestores que se habituaram à bolha de isolamento. A conversa é toda entre eles e torna-se progressivamente mais incompreensível para os que estão fora dos arranjos do poder. Os eleitores andam perdidos neste labirinto, vulneráveis ao fascínio dos demagogos, sabendo perfeitamente que as suas elites andam surdas aos protestos e não entendem as raízes da insegurança contemporânea.    

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publicado às 10:26

Intolerância

por Luís Naves, em 26.08.16

A justiça francesa suspendeu a proibição do uso do burkini nas praias francesas, numa decisão que indignou a direita e que poderá ter consequências políticas na campanha presidencial que se aproxima. Os juízes cederam aos argumentos de que não havia perturbação da ordem pública, para grande satisfação dos activistas que consideravam estas proibições exemplos gritantes de ‘islamofobia’. A história não fica aqui, evidentemente: a direita quer uma lei que proíba o uso do burkini, a Frente Nacional ganhou um novo argumento para a sua campanha populista (e Nicolas Sarkozy também).

O debate é profundamente político e está contaminado pela demagogia. O burkini não é um símbolo da liberdade religiosa, mas do seu exacto contrário, de opressão religiosa, tratando-se neste caso de interditar às mulheres a exposição de um corpo que os fundamentalistas consideram de natureza impura. O burkini resulta da interpretação salafista do Corão, corrente que tem a singularidade de excluir todas as mais tolerantes. Os salafistas odeiam o Ocidente e os seus valores, querem mudar as sociedades ocidentais, restringindo as liberdades que a república laica julga estar a defender. O burkini é, infelizmente, um símbolo de totalitarismo e de intolerância. 

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publicado às 09:50

O verdadeiro impasse

por Luís Naves, em 19.08.16

Mariano Rajoy, líder do PP, aceitou negociar as condições de Albert Rivera, do Ciudadanos, e tentar a investidura, o que acontecerá no final da próxima semana. Os dois partidos, somados, estão a sete deputados da maioria. Rajoy terá duas oportunidades de formar um governo de minoria do PP: a primeira votação exige maioria absoluta, 176 votos; a segunda exige maioria simples, ou seja, as abstenções serão decisivas e basta que a soma de votos favoráveis seja superior à de votos negativos. Os cenários são complexos: o PP precisa de garantir a abstenção de alguém, e parece remota a possibilidade dos catalães da Convergência ou a abstenção do PSOE. Os socialistas prometem votar contra e arriscam-se a não conseguir formar governo alternativo, pois teriam de fazer um pacto com o Podemos, com exigências duras, o que não dispensava mesmo assim o apoio dos catalães, com mais cedências difíceis. Aliás, o PSOE teria poucas semanas para negociar e o resultado seria facilmente o fracasso. Sem governo possível, seguia-se a dissolução do parlamento e a terceira eleição consecutiva, com alta probabilidade de novo pântano político, acrescido do requinte da data limite das terceiras legislativas coincidir com o dia de Natal. A Espanha mergulhou assim numa esquizofrenia: o PP não tem aliados para uma maioria absoluta e os socialistas, tendo perdido as eleições, ponderam suicidar-se numa aliança improvável, que terá de incluir a esquerda radical e os independentistas.

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publicado às 19:16

O que está em jogo

por Luís Naves, em 29.07.16

Hillary Clinton é oficialmente a candidata democrata à Casa Branca. Foi aclamada na convenção do partido, mas é indisfarçável a dificuldade da sua eleição. Clinton é um dos melhores exemplos de operador dominante num sistema político onde mandam interesses especiais. Será uma presidente formidável, mas o caminho para a Casa Branca está cheio de obstáculos, nomeadamente a retórica agressiva dos republicanos (enfim, do que resta da fragmentada direita americana). A candidata democrata já conquistou o voto das minorias, assegurou igualmente o voto feminino, mas tem forte rejeição entre eleitores masculinos e brancos que se sentem vítimas da globalização, de Wall Street e das elites políticas em Washington. Hillary também sente dificuldade em convencer eleitores democratas que aderiram ao movimento de Bernie Sanders, cuja derrota se deve em parte ao campo inclinado no Partido Democrata. A candidata tem falta de carisma, não é boa oradora, mas o seu fracasso seria uma oportunidade perdida para a América. A sua derrota lançaria um processo de declínio acelerado e talvez irreversível: se Donald Trump vencer em Novembro, a América vai fechar-se e perderá a capacidade de absorver a diferença. Neste aspecto, os Estados Unidos imitaram genialmente a antiga Roma.

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publicado às 16:50

Terrorismo

por Luís Naves, em 23.07.16

Não é possível iludir o padrão emergente de jovens alucinados que matam gente comum em sítios banais e com extrema crueldade. O fenómeno tem mais a ver com realidades paralelas e paranóia desenfreada, incluindo no caso dos loucos que matam em nome da religião. A sensação de fragilidade e perigo é agora uma banalidade nas nossas sociedades e também começa a ser preocupante ouvir, nos meios de comunicação nacionais, tantos peritos a desenvolverem teorias de justificação das atrocidades e da relativização do terrorismo. Ontem, na televisão portuguesa, só se falava dos perigos da extrema-direita; e, no entanto, nas últimas semanas, houve atentados islâmicos com dezenas de mortos ou feridos na Florida, na Bélgica, no Bangladeche, no Iraque, na Turquia e em França. Centenas de vítimas da loucura e da desumanização.

 

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publicado às 11:18


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