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Doze cavalos

por Luís Naves, em 06.06.17

A Economist é uma revista extraordinária, cuja leitura só dispenso quando estou falido. Encontram-se ali muitas pequenas jóias, como esta história tirada da recensão de um livro sobre cavalos: após seis mil anos de ligação à humanidade, desfeitos em pouco mais de um século, estes animais são agora desnecessários, como eram os doze cavalos da cavalaria britânica que tinham participado na batalha de Waterloo e que um cirurgião da época salvou por razões sentimentais. Os animais andavam em liberdade e segurança, à solta num grande prado da propriedade, onde pastavam tranquilamente; e certo dia, o médico reparou que, sem aviso ou padrão, se juntavam os doze numa linha rigorosamente direita e, sem que houvesse ordem ou ruído indicativo, avançavam de repente a galope, todos juntos, sem nenhum desfazer a formação até um ponto qualquer que só eles sabiam. Depois, recuavam, mantendo sempre a linha direita. E, regressados da carga imaginária, voltavam à sua pastagem, à tranquila reforma que lhes tinham arranjado os humanos, talvez ruminando reminiscências confusas de velhos soldados sobre um grande acontecimento que não podiam compreender e que, mais do que assustador, era para eles bastante memorável.

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publicado às 00:46

Escândalo na TV

por Luís Naves, em 05.06.17

Network, Escândalo na TV, filme de Sidney Lumet (1976) é provavelmente uma das obras-primas do cinema americano dos anos 70. Quando vi este filme pela primeira vez, há uns trinta anos, interpretei a história como uma crítica à televisão e à comunicação de massas, mas ao revê-lo ontem percebi que está ali uma premonição mais escura, uma espécie de profecia política. A transformação das notícias em entretenimento por uma estação em dificuldades financeiras acaba em tragédia, quando dirigentes irresponsáveis decidem utilizar um apresentador louco para aumentar as audiências. Parece uma crítica de Hollywood aos poderes infantis da TV, no entanto, se fizermos uma leitura política, vemos ali uma representação da ascensão do populismo contemporâneo: muitas das coisas que o apresentador Howard Beale afirma em directo parecem uma antecipação do discurso dos populistas mais desenfreados da Era de Donald Trump. A fama de Beale (espantosa interpretação de Peter Finch) surge quando ele pede às pessoas para gritarem à janela que estão zangadas e ‘não aguentam mais’. E as pessoas fazem isso, embora o filme não nos esclareça o motivo da adesão. Vendo em Network a metáfora política, é impossível não pensar na circunstância deste populismo de Beale começar como loucura, ter uma fase intermédia de descontrolo e uma fase final em que se torna objecto de manipulação dos poderes supremos. Sendo assim, o populismo a que assistimos será igualmente um fenómeno conveniente, que começa como anomalia, parece às tantas correr em pista própria e acaba no redil dos interesses. A política como espectáculo e como reality show afasta todas as outras formas de praticar a política e é uma simplificação que legitima novos poderes e outras simplificações. É fantástica a cena de manipulação do capitalista: ‘As nações não existem, senhor Beale, só existe a IBM, a ITT, o sistema holístico das corporações e dos fluxos financeiros’. Hoje, a única diferença seria Google, Goldman Sachs ou Amazon.

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publicado às 14:23

Os dominadores

por Luís Naves, em 27.05.17

O fascínio de Os Dominadores, de John Ford, não parece ter explicação. Mistura de história de índios e cowboys, de filme de guerra e sentimental, tem em si qualquer coisa de transcendente e poético. A obra é também, numa leitura mais profunda, uma reflexão despretensiosa sobre a inexorável passagem do tempo, com um pedaço de nostalgia e outro de contemplação dos largos espaços da Terra. Ao rever este filme de 1949 numa cópia com cores baças, pareceu-me mais antigo e precioso: o avanço da coluna de cavalaria no meio da tempestade não era um truque e sentia-se a pequenez do homem na imensidão da paisagem. Aliás, as pequenas coisas humanas da continuidade da vida são envolvidas por uma camada de inocência, mas isto não basta para explicar o fascínio. Estamos num território imaginário, mas não o sentimos como tal. O tempo decorre no intervalo de uma patrulha, mas o filme está impregnado de eternidade. Tudo se ajusta, os actores, os diálogos, a acção, e somos transportados sem resistência para aquele universo inventado onde tudo flui e é movimento tranquilo. Uns filmes envelhecem e outros, mais raros, preservam a autenticidade e a pureza originais. E destes tempos clássicos julgo que saiu uma magia que já não se repete.

Existe igualmente neste filme uma interessante visão de um mundo desaparecido: a ordem ameaçada num território dominado por guarnições, de onde saem colunas em patrulha; os índios armados por empresários sem escrúpulos; a difícil negociação com nativos cujos problemas estão para além do interesse da história; a pax americana benevolente, mas se necessário impondo pela força os valores da civilização; um poder militar ao serviço do progresso, num país com divisões ainda visíveis. Esta foi a América do pós-guerra, hoje não consensual, pois cresce a tendência para estabelecer uma nova estratégia, com menos fortes e guarnições, menos interferência nos assuntos dos nativos, menos patrulhas e domínio.

Assim, este mundo de John Wayne já nem sequer existe, excepto na nossa imaginação, pois acabou depois de Ronald Reagan. 

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publicado às 11:22

O Leopardo

por Luís Naves, em 18.05.17

Revisão de O Leopardo, de Luchino Visconti, que passou na versão original italiana (tinha visto apenas a dobrada em inglês, com a voz de Burt Lancaster). O filme de 1963 narra um período da vida de um aristocrata de meados do século XIX, o Príncipe Salina, que enfrenta o aparecimento de uma nova ordem política, liderada por indivíduos que acumularam riqueza de forma que não está bem explicada, mas que o príncipe parece desprezar. A sociedade de O Leopardo é parecida com a descrita nos livros de Camilo Castelo Branco: também temos ali a pobreza extrema (que não importa ao narrador), camponeses de chapéu na mão saudando aristocratas falidos que vivem de rendas cada vez mais curtas; estes ricos empobrecidos mantêm um estilo de vida faustoso que não podem sustentar, observando com horror a ascensão dos arrivistas sociais, que no fundo pertencem ao mesmo povo que essa classe dominante continuará a pastorear, julgando dispor de um direito divino ao exercício do poder. A revolução é uma mudança controlada, uma tempestade quase cómica que não altera o essencial, embora marque a passagem das gerações e represente uma transição em que se perde afinal algum do esplendor antigo.

Às tantas, dei-me conta de que a história é hoje bem mais certeira do que na década de 50, quando Tomasi di Lampedusa escreveu o livro original (recusado por vários editores durante a sua vida, sendo publicado por um editor comunista). Também hoje vivemos num período de mudança cínica, onde as velhas estruturas se adaptam a movimentos telúricos populistas. Uma parte substancial da população sente que empobrece e mostra descontentamento em relação à distribuição da riqueza, que beneficia de forma desproporcionada a metade superior da sociedade. No fundo, isto também acontecia no mundo do Príncipe Salina: só vemos no filme a dinâmica das classes ricas, mas a revolução traída tinha talvez na sua base o empobrecimento dos camponeses e a acumulação da riqueza pela burguesia emergente. E a ideologia do poder que vemos no filme parece actual: a ordem política dominante triunfa em oposição à desordem caótica dos derrotados, que queriam verdadeiras mudanças.

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publicado às 09:40

Conversa

por Luís Naves, em 08.03.17

Na TV, ouvi o comentador Miguel Sousa Tavares fazer um duro ataque à Hungria de Viktor Orbán. O jornalista falava sobre a discussão do futuro da Europa e, sem motivo óbvio, começou a desancar nos húngaros, misturando alhos com bugalhos. A ideia era mais ou menos esta: a Hungria não cumpre os valores europeus, logo, coloca-se a questão: o que é que estamos a fazer numa Europa que mantém gente desta? Ainda não ouvi um único membro das elites intelectuais portuguesas a dizer com clareza o que deve Portugal defender na discussão sobre o futuro da Europa. Acho que vou esperar sentado. Miguel Sousa Tavares também parece não ter uma única ideia sobre isso, limitando-se a repetir a beatice nunca definida dos “valores europeus”. Afinal, o que são estes valores europeus? O que distingue a Europa do resto? Bem, a Europa não seria o que é se não tivesse cristianismo, capitalismo, a ideia do primado da lei, a diversidade, o racionalismo, separação de poderes e resistência militante à unificação política ou à tirania. Em que ponto é que a Hungria deixou de cumprir esta lista? Palavras, palavras, não há pachorra, quando queremos ir ao ponto, é só conversa.

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publicado às 14:11

Excerto de um texto

por Luís Naves, em 02.03.17

(...)


Vivemos numa época em que é cada vez mais difícil interpretar a realidade. O poder está fragmentado, as sociedades perderam coesão cultural; já não aceitamos de forma complacente todos os pontos de vista dos nossos intelectuais, das elites e dos meios de comunicação. Hoje fala-se em fake news, notícias falsas, mas a questão não é nova. A manipulação da verdade é uma circunstância do mundo contemporâneo que existiu em outras épocas. Podemos distorcer o que contamos, exagerar, omitir. É possível alterar a percepção que as pessoas têm dos conflitos, manipulando as emoções. O ponto de vista nunca foi inocente. Mas os leitores de hoje, ao contrário do que acontecia no passado, desconfiam das notícias que lhes chegam pelos canais tradicionais. Os meios de comunicação atravessam uma crise de credibilidade; está a ser contestado o cartel dos mediadores que interpretam a realidade: as fontes de informação são múltiplas e produz-se uma quantidade imensa de notícias e de opiniões. Os leitores contemporâneos tendem a rejeitar todos os meios de comunicação que não alinhem na sua definição de verdade. É como se vivêssemos nas bolhas de uma garrafa de champanhe, que coexistem separadas. Só aceitamos discussões onde se diz aquilo que queremos ouvir. As próprias palavras já não significam o mesmo em cada um dos lados da barricada. Este debate é paradoxal: não conheço ninguém que não procure informar-se melhor. No mundo em que habitamos, nunca houve tal proporção de indivíduos cultos; pode parecer contraditório com o que disse antes, mas hoje é impossível esconder uma informação essencial; sabe-se tudo; a opinião pública reage de imediato a qualquer abuso de poder e o eleitorado penaliza qualquer governante que cometa erros demasiado grosseiros. Como é que se manipula neste contexto? Escondendo a informação sensível numa montanha de abundância. Não é preciso censura, existe apenas uma autêntica enxurrada de factos, o que torna difícil a selecção daquilo que possa ser relevante. Este contexto parece ser ideal para operações de manipulação. Estamos porventura a assistir a esse fenómeno em várias notícias da actualidade. Em França, por exemplo, o candidato François Fillon estaria em excelentes condições para vencer as presidenciais se não tivesse aparecido uma notícia num momento cirúrgico. Ela é verdadeira, muito embaraçosa, mas por que razão surgiu exactamente agora, em vez de aparecer quando ele era primeiro-ministro ou nas primárias dos republicanos? Escândalos em vésperas de eleições? Temos de desconfiar, naturalmente.

(...)

Excerto de um texto lido na apresentação do livro Manipulação da Verdade, de Eric Frattini, editado pela Bertrand.

Fiquei também a conhecer o autor, uma pessoa fascinante. 

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publicado às 18:48

Westworld

por Luís Naves, em 06.12.16

A série de televisão Westworld é uma das mais perturbadoras obras de ficção que tenho visto. Atingiu-se ali um novo patamar na qualidade do argumento e na profundidade das personagens, na complexidade das ideias, na mistura de narrativas e de camadas temporais. Tal como acontece aos turistas humanos que percorrem aquele mundo, o espectador é confrontado com uma imensa teia de possibilidades e julga descobrir elementos que só ele está a ver. A série levantou questões sobre liberdade, memória e consciência, inteligência artificial, limites do humano e da tecnologia, a moderna indiferença, mas sobretudo sobre a impiedade perversa e a manipulação da realidade, dois aspectos da sociedade contemporânea que certamente farão parte do nosso futuro.

Para mim, o mais difícil foi perceber que a nudez e a violência, quando aplicadas a máquinas, não tinham a mesma capacidade de me incomodar do que na circunstância dessas mesmas cenas envolverem personagens que eu considerasse pessoas. Explico melhor: os autores mostraram que os seres que estavam a ser torturados, maltratados ou mortos, de forma cruel, eram máquinas que, no dia seguinte, estariam de novo na sua tarefa de cumprir uma narrativa pré-programada e inflexível, sem memória da dor sentida nas violações, torturas ou homicídios; o destino trágico repetia-se todos os dias, com pequenas alterações resultantes da interacção com os turistas, mas sem livre arbítrio. Nós, espectadores indefesos, ao entrarmos neste conceito, passamos a funcionar como os turistas, estamos a ver o que acontece a máquinas programadas, e não temos a mesma sensação de horror pela violência que lhes cai em cima. A nudez dos robôs nunca é erotismo, mas vulnerabilidade.

Na prática, os autores conseguiram manipular os espectadores, criando um efeito de desumanização dos robôs, que do nosso ponto de vista formam um grupo separado, cuja rebelião, porventura justa, tem os limites da manipulação da realidade que lhes é imposta. Por este mecanismo, aderimos à falta de compaixão que os turistas demonstram. A morte de personagens-pessoas, nesta série, perturbou-nos sempre mais do que a morte (ridícula, grotesca ou gratuita) das personagens-máquinas.

Para onde irá a segunda temporada? Aparentemente (tal como acontecia no filme original) há outros parques temáticos. As máquinas estão a evoluir e tornam-se progressivamente conscientes; vamos talvez estar mais do seu lado, mas os deuses (que somos nós) continuarão a dominar o mundo deles; tudo o que vimos é provavelmente engano, como aconteceu na genial cena pirosa da morte de Dolores, a máquina que resume a ideia da busca da beleza e da liberdade (que define o humano), a robô que possui a centelha da consciência e da vida e que, segundo parece, vai liderar a rebelião. Enfim, seremos turistas neste explosivo e contraditório Westworld, que não é um mundo a preto e branco, daqueles que a televisão nos deu até hoje, onde a gente sabia exactamente onde arrumar o bem e o mal.

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publicado às 20:03

Da supremacia ocidental, apesar de tudo

por Luís Naves, em 10.09.16

O primeiro episódio de Star Trek foi emitido a 8 de Setembro de 1966, o que motivou esta semana uma vaga nostálgica de evocações dos 50 anos da mítica série de televisão. Esta semana foi também lembrada a revolução cultural chinesa, igualmente por motivos de calendário: Mao Zedong morreu a 9 de Setembro de 1976, dez anos depois de ter desencadeado uma das mais estranhas purgas políticas da História contemporânea.

A revolução cultural foi lançada em meados de Maio de 1966, mas ganhou força entre Junho e Agosto, quando Mao conseguiu enviar milhões de jovens pelo país, numa orgia de destruição de símbolos do passado. O seu objectivo era recuperar a pureza ideológica do partido comunista e reforçar o poder sobre a hierarquia chinesa, mas a natureza caótica do movimento sacrificou uma geração inteira, a loucura matou mais de 1,5 milhões de pessoas, o fanatismo teve um efeito devastador na sociedade chinesa e a ignorância destruiu património impossível de substituir.

O caso de Star Trek é totalmente diferente. As aventuras de uma nave espacial e da sua tripulação começaram por não ter grande popularidade: os cenários eram rudimentares, as personagens algo esquemáticas, as histórias relativamente superficiais. E, no entanto, ao longo das décadas seguintes, surgiu um culto popular, com os seus fanatismos e excessos, objectos, imagens imediatamente identificadas. A série deu origem a filmes e é hoje um produto da indústria cultural de Hollywood, com alcance em todo o mundo, incluindo na China.

A série é contemporânea da revolução cultural. As duas surgiram nas mesmas semanas. O território da imaginação, num caso, a ideia da destruição do passado, no outro. Star Trek é sobre a liberdade, a Revolução Cultural mostra como a liberdade, mesmo a do pensamento, pode ser frágil, pois os guardas da revolução atacavam desvios de comportamento, tentavam sobretudo destruir quem procurasse o recolhimento individual. Pensar era um crime. Esta brutal crónica de Ferreira Fernandes explica um pouco do fenómeno: no exílio em Paris, o autor militou em partidos da esquerda radical e foi expulso de uma organização maoísta por ter na sua estante livros trotskystas.

Talvez a revolução cultural tenha sido mais humana do que nos parece: o fanatismo ideológico está ao alcance da pessoa mais inteligente. Na nossa realidade, Star Trek pode ser frívolo, mas diverte e existe, é um produto cultural aparentemente inócuo que não tenta convencer ninguém das suas ‘verdades intrínsecas’. Curiosamente, já não há lugar para as revoluções culturais dos anos 60, cheias de certezas, que tentaram apagar o próprio pensamento e onde se considerava que as pessoas são o que lêem. Estas ideias foram por enquanto derrotadas. Haverá melhor símbolo do triunfo esmagador do Ocidente?

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publicado às 13:41

Insurreição

por Luís Naves, em 17.07.16

Excelente artigo no jornal El Pais sobre o crescente movimento de partidos insurgentes na Europa. Não concordo com todas as escolhas (a inclusão do Fidesz húngaro, como se vê na tabela; e, no caso português, falta o PCP), mas é mesmo assim o trabalho mais completo que já vi sobre este tema. A análise tem aspectos interessantes, por exemplo a constante do anti-americanismo ou o número surpreendentemente elevado de formações que contestam a participação dos respectivos países na Aliança Atlântica. Em relação a Portugal, segundo sugere o gráfico, os partidos que cabem neste conceito de rebelião anti-sistema não estão abaixo de 10% da votação, mas na realidade eles rondam 20%, que é provavelmente a média europeia (temos de somar os comunistas e os bloquistas). A média está talvez a subir, não apenas em Portugal, mas nos outros países analisados. Não parece tão acertada a contabilização no caso dos países de leste, onde a insurreição terá a dimensão típica, em redor de um quinto do eleitorado. Independentemente dos exageros ou erros, tudo indica que as próximas eleições europeias vão criar um Parlamento Europeu pouco interessado na fórmula actual. Já este ano veremos cenas dos próximos capítulos na Áustria e no referendo constitucional italiano. Em 2017, teremos novos episódios, com a Frente Nacional, Geert Wilders e a Alternativa para a Alemanha. Serão os grandes testes desta insurreição e já veremos até onde ela irá.

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publicado às 11:31

Coisas que não mudam

por Luís Naves, em 07.07.16

A leitura de jornais antigos mostra que há coisas em Portugal que mudaram pouco, sobretudo a forma como olhamos para nós próprios. Nos anos 70, o que se escrevia nos jornais era pomposo e pouco sólido, com frases maiores do que o significado que continham. Nos momentos de maior crise, enfrentavam-se duas teses: a derrotada, que pretendia moderação; e a vencedora, dos que sonhavam com rupturas mirabolantes e revoluções imaginárias capazes de desafiar as leis da física. Ganharam sempre os que gritavam mais alto e, no fim, veio também a pesada factura que os culpados nunca aceitaram.

Os meios de comunicação de hoje repetem temas que deviam ter desaparecido. Não se extinguiram o impulso lírico e a tendência para cairmos numa espécie de regressão infantil, sempre que enfrentamos um obstáculo aparentemente intransponível. As elites continuam a olhar para o povo como uma amálgama incompreensível e analfabeta que ainda anda de carroça puxada por mulas. De maneira teimosa, os dirigentes tendem a não perceber que a sociedade mudou em todas as suas vertentes e que já não se revê nesta pequena mentalidade sentimental que tenta tapar o Sol com a peneira provinciana. Distribuem-se afectos e governa-se com optimismo, empurra-se com a barriga, ignoram-se as sombras, adia-se o inevitável. Foi assim em todas as crises anteriores dos últimos 40 anos, quando os que acreditaram na própria ilusão nos conduziram a desastres maiores, que a simples prudência podia ter evitado.

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publicado às 12:35


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