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Os radicais

por Luís Naves, em 27.08.17

Muito do que lemos na Imprensa reflecte o crescente conflito em torno da criação de uma nova identidade nacional desenraizada, repleta de culpa do homem branco, de leituras alternativas da História e de simplificações ideológicas alheias à vivência normal das pessoas comuns. Após a queda do Muro de Berlim, a esquerda entrou em crise, fragmentou-se, e a sua franja mais radical começou a negar a própria herança. Após lutar durante décadas contra as discriminações a grupos maioritários, como trabalhadores ou mulheres, a esquerda abandonou o passado e adoptou novas lutas ligadas a questões de minorias. Os movimentos que saíram desta fragmentação começaram a olhar para a sociedade como uma manta de retalhos de pequenos grupos, tentando federar o maior número possível numa agenda política que procura acomodar os problemas de cada um e de todos ao mesmo tempo. Esta abordagem precisa por outro lado de combater e até de negar tudo aquilo que possa parecer maioritário: contesta-se a religião da maioria, os grandes partidos e empresas, a língua (onde houver mais que uma), todos os costumes enraizados, incluindo o casamento tradicional, a ideia da nação e os respectivos símbolos. Terá isto futuro? É possível, mas para já está a criar forte reacção dos conservadores radicais, que começam a defender cada pedaço de território ameaçado como se fosse o último. Uns querem substituir tudo e criar o homem novo, os outros não admitem mexer uma vírgula, como se a identidade fosse algo imutável. E, no meio disto tudo, está um público perplexo, por vezes divertido, a assistir a gritarias ridículas sobre assuntos que, do seu ponto de vista, são de lana-caprina e do mundo irreal.

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publicado às 19:19

Uns com bilhete e os outros...

por Luís Naves, em 11.07.17

Foi na grande crise que começou a queda lenta em que vivemos. Chamem-lhe essa espécie de fim do mundo, quando começámos a perceber que estávamos sufocados e presos à servidão, enquanto crescia o fosso entre os que tinham direito a bilhete e aqueles que não tinham esse direito, como observou o intelectual húngaro Támas Gaspár Miklós, num texto que escreveu sobre a crise migratória, inspirado naquilo que vira numa gare de comboios paralisada, apinhada de refugiados e de passageiros sem transporte, uns mostrando o bilhete, os outros de mão vazia, mas todos a meio da viagem e aparentemente sem destino. O nosso tempo estabeleceu uma divisão entre os que beneficiam das liberdades e os que não lhes têm acesso; entre os que vivem na abundância crescente e aqueles que se afundam na estagnação; entre os que passam fronteiras e os que ficam à porta; entre os que são escutados e os outros, cuja voz é ignorada, com desprezo ou indiferença. A liberdade, a saúde, a justiça e o conhecimento são mais desiguais do que eram. O mundo radicaliza-se. Os mais fortes triunfaram sobre os fracos e as palavras passaram a ter significados restritos, que impedem as discussões. Cresce a intolerância e as discussões são submetidas a um duplo critério que não permite compromissos.

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publicado às 19:01

Fomos compreendendo a pouco e pouco

por Luís Naves, em 27.06.17

Na grande crise houve vencedores e vencidos, como acontece em todos os grandes acontecimentos. Nos últimos cem anos deram-se quatro grandes transformações e, em três delas, toda a gente percebeu que o mundo tinha mudado de um dia para o outro. Foi assim no final da Primeira Guerra Mundial, depois de novo no final da Segunda Guerra Mundial, ao explodir a primeira bomba atómica, depois quando caiu o Muro de Berlim. Na crise financeira de 2008, a quarta grande transformação consecutiva, ninguém percebeu que o mundo tinha mudado de forma radical; fomos compreendendo isso apenas a pouco e pouco.

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publicado às 18:58

Pureza e razão

por Luís Naves, em 13.06.17

De um lado, estão os que têm sempre razão; do outro, os que não têm razão em coisa alguma. A análise dos conflitos humanos é cada vez mais uma interpretação que divide o mundo entre bons e maus, entre puros e impuros, entre aqueles que estão a favor do desenvolvimento da humanidade e aqueles que defendem apenas o retrocesso. Os meios de comunicação aderiram com entusiasmo a esta visão simplista, talvez por imposição das redes sociais, e vemos estender-se a qualquer assunto, por banal que seja, a tese redutora que avalia toda a política a preto e branco, sem visualizar sombras ou subtilezas. Esta equação de soma zero esquece um facto evidente: se todas as coisas humanas fossem um simples combate entre luz e escuridão, teríamos apenas clarão e trevas, ou seja, duas situações sem forma. Em Portugal, as coisas complicam-se, pois nunca há polémicas, apenas gritaria. Se alguém argumenta com dureza, logo isso é interpretado como agressividade e ataque pessoal. Quando lemos as polémicas antigas, encontramos reacções indignadas a argumentos civilizados, a que se seguem berrarias indescritíveis sobre as qualidades físicas do oponente ou, em desespero, a má leitura de alguma coisa que ele escreveu em 1830, com as devidas alterações, para que pareça pertencer exclusivamente ao campo dos maus, dos impuros e dos reaccionários.

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publicado às 15:25

Supremacia

por Luís Naves, em 02.06.17

Donald Trump decidiu retirar os Estados Unidos do acordo de Paris sobre alterações climáticas e segundo uma das críticas mais comuns, o presidente americano está a abdicar da hegemonia da superpotência e a dar de barato à China a supremacia mundial. As pessoas estiveram mesmo muito distraídas durante a campanha: Trump cumpriu uma das promessas centrais que fez aos americanos e esta administração será isolacionista, ou seja, o presidente quer mesmo reduzir a exposição do seu país aos assuntos globais, escolhendo apenas as lutas que lhe interessam e não entrando em todas. Isto é uma estratégia, não é um efeito secundário. Um dos maiores problemas dos impérios do passado foi a sobre-extensão, ou seja, o envolvimento em demasiados conflitos ao mesmo tempo, com a respectiva dispersão de recursos e constante aumento dos custos imperiais.

Provavelmente, Trump ponderou uma divisão de tarefas com a Rússia, mas este prolongamento de Ialta é hoje politicamente impossível, pois os democratas no Congresso entram em histeria em tudo o que envolva Moscovo, o que certamente terá efeitos para além desta administração. É preciso reler O Choque de Civilizações, de Samuel Huntington. A China não está interessada em ter um papel global e os europeus parecem ter entrado em pânico com os primeiros sinais do novo isolacionismo, que foi uma das tendências da política americana, embora raramente dominante na Casa Branca. A saída do acordo de Paris é um erro e deve ser criticada pelo efeito desastroso que pode ter nas alterações climáticas e na segurança de centenas de milhões de pessoas vítimas de secas e tempestades. A América arrisca-se a perder a liderança no abandono da economia do carbono, mas isso não é inevitável. As promessas de Trump foram no sentido de aumentar o isolamento dos EUA, reduzir a extensão imperial e manter alianças suficientes para garantir a supremacia. É por isso que, ao mesmo tempo que abandona acordos multilaterais, a Casa Branca reforça o investimento nas forças armadas.

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publicado às 13:16

Uma crise sistémica é isto...

por Luís Naves, em 29.04.17

A aparente falência do sistema após a crise de 2008 está a deixar marcas na política e criou no eleitorado um sentimento de profunda desilusão, até de cinismo, em relação à qualidade das suas elites. O fenómeno é visível em vários países e não tardará a chegar a Portugal. O facto é que, nos últimos vinte anos, os poderosos mentiram de várias maneiras: os banqueiros assaltaram os bancos, os partidos dedicaram-se à intriga, o bom empresário era aquele que despedia, os intelectuais escreveram sempre as mesmas coisas inócuas e prudentes, as leis não foram iguais para todos e a opinião do povo foi ignorada ou desprezada, conforme fosse conveniente para os rituais democráticos das consultas regulares. A vaga de populismo que resulta deste vapor acumulado começa agora a alarmar as oligarquias. É em cada dia mais óbvio que estamos a viver uma mudança sem paralelo, pelo menos no tempo de uma geração: vemos o apagamento dos partidos tradicionais, a contestação radical do modelo económico triunfante nos anos 80 e do multiculturalismo que há 40 anos domina todo o pensamento, a ponto de se ter tornado uma ideologia fraca, mesmo assim quase indiscutível, que criou a sua própria linguagem repleta de reticências e de eufemismo.

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publicado às 13:54

Conflito

por Luís Naves, em 01.04.17

As mudanças eleitorais reflectem uma transformação social que os intelectuais tardam em compreender: há uma camada de vencedores e outra de derrotados. Os vencedores da nova economia são globais, mas habitam numa bolha de alheamento; os perdedores não têm perspectivas de futuro, esmagados pela desindustrialização e pela automatização dos seus empregos. Os que se encontram em condições de beneficiar das vantagens da economia global recusam-se a aceitar os problemas de identidade que atingem aqueles que se sentem prejudicados pelo mesmo globalismo. Este é o conflito crucial do nosso tempo e está presente nas pequenas violências aparentemente incompreensíveis (as claques fanatizadas, as diversões jovens sem responsabilidade), mas também na interpretação dominante da realidade, que descreve um mundo em extinção e em que as pessoas já não se revêem.

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publicado às 19:43

Enfrentar os índios

por Luís Naves, em 22.02.17

Não é fácil entender o mundo contemporâneo e a vaga de mudança política nos países mais ricos do mundo sem considerar que há duas ideias incompatíveis em confronto. Um dos lados da barricada pensa que a civilização ocidental é um fracasso e deve reconhecer os seus erros históricos e mudar de práticas; a outra olha para os conflitos mundiais como parte de um choque de civilizações, onde culturas bárbaras ameaçam suplantar as avançadas. No fundo, ambos pensam que não existe lei do progresso e ambos consideram que somos testemunhas de um declínio da modernidade. A esquerda acredita que o cristianismo é totalitário e que o capitalismo leva os países para a escravatura e o império. A direita acredita que o Ocidente se encontra em perigo iminente e defende o reforço da identidade como única saída para travar os processos de decadência. A fronteira é o primeiro campo de batalha desta guerra de culturas, pois define o espaço em que as pessoas se incluem. É por isso que as migrações são o grande tema das campanhas políticas, pois tocam no nervo das opções da sociedade. Os argumentos mais acesos, por exemplo, sobre as decisões da nova administração americana ou nas campanhas eleitorais europeias em 2017 e 2018, giram em torno do choque de civilizações ou da culpa do Ocidente e têm geralmente relação directa com a questão da identidade. As elites discordam dos seus compatriotas descontentes, os meios de comunicação recusam-se discutir o tema, as nações resistem, a globalização está a mudar de forma, reduzindo-se entre espaços que se consideram distintos, acelerando nos territórios que se reconhecem da mesma ordem. A parte mais irónica é que a ideia da dissolução do Ocidente criou uma resposta que nos conduz a futuros mecanismos de alianças de civilizações. Lembram-se do livro de Samuel Huntington que popularizou a noção de ‘choque de civilizações‘? É curioso, mas está lá tudo, os problemas de identidade, as migrações, as prováveis alianças, a ameaça do extremismo islâmico, o Ocidente no auge do seu poder e a enfrentar os índios.

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publicado às 19:17

Guerra de culturas

por Luís Naves, em 08.02.17

Desapareceu o confronto tradicional da política. Aquilo a que assistimos é um sismo na ordem global, sob a forma de guerra de culturas. A luta tem crescente violência a alastra a novos domínios da vida quotidiana. Os dois exércitos falam uma língua diferente e são irreconciliáveis. estão a conquistar todo o debate. Um dos lados diz que foi atraiçoado pelas elites, pelos dirigentes que não disseram a verdade, pelos banqueiros cínicos e pelos intelectuais acomodados. Estas pessoas não estão apenas desiludidas, mas enraivecidas: querem as suas vidas de volta, a segurança que tinham, as fábricas onde trabalhavam (agora, na melhor das hipóteses, andam a virar rodelas de carne moída); querem sair do empobrecimento e da precariedade em que caíram, querem que não vençam sempre os mesmos. Este grupo está convergir em protestos que mais parecem rupturas, contestando as migrações em massa, a insegurança crónica. Julgam estar a viver no declínio, numa sociedade em perda de memória, com sinais de senilidade. Por isso, procuram a mudança; para eles, está em perigo a preservação da identidade e ficam estupefactos quando o outro lado não consegue ver isso. Querem a pátria de volta e respeito pelas tradições; recusam os políticos do diálogo e do consenso; desprezam burocratas não eleitos e desconfiam das organizações não eleitas. Este exército de protesto enfrenta um grupo heterogéneo, dominante nas classes triunfantes da nova economia, nos debates televisivos, nas discussões académicas e até na arte contemporânea. Este segundo grupo, o que está instalado no poder, tem muitas opiniões, mas defende genericamente que a sociedade se caracteriza pela mestiçagem de ideias e que a diferença que vem de fora deve ser integrada com extrema tolerância, o que não se pode dizer sobre o pensamento antigo; esse, sendo fonte do mal, deve ser rejeitado.

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publicado às 19:19

Interpretação cansativa

por Luís Naves, em 25.01.17

Está a tornar-se cansativa a interpretação que olha para as democracias contemporâneas como tendo dois tipos de eleitores: os que sabem pensar e votam bem; e os misóginos, reaccionários, estúpidos, racistas, xenófobos e genericamente brancos pouco qualificados cujo voto não devia contar. Nunca vi tantas pessoas de esquerda escandalizadas com os ataques ao livre comércio e à globalização. O novo presidente americano, condenado por cumprir o que prometeu, é geralmente descrito como não tendo credibilidade, legitimidade, popularidade ou sequer qualquer género de humanidade. Vladimir Putin, o czar da Rússia, parece que venceu as eleições na América, depois de ter vencido o Brexit, mas também se prepara para ganhar as eleições na Holanda, em França e talvez na Itália, usando fantoches e a desinformação da poderosa estação de televisão RT, capaz de enganar eleitores notoriamente estúpidos. Esta história da carochinha é defendida pelos mesmos que se indignam com os ataques de Trump aos espiões da CIA, agora denominados ‘comunidade de inteligência’.

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publicado às 19:26


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