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Os liberais

por Luís Naves, em 10.03.16

Se a esquerda parece surda à realidade, a direita não é pior a desviar o assunto. Alguns consideram que a solução seria um partido liberal, recusando a social-democracia, embora isso contrarie todas as recentes eleições, onde o tema nunca foi referido. É uma ideia ao lado. Na Europa não há nenhum país que dispense a social-democracia, nem sequer a Grécia, onde o Syriza ensaiou uma tentativa de governo da esquerda radical. Os padrões são claros: a social-democracia europeia é uma questão de dose e as privatizações dos serviços públicos são limitadas, mesmo em Inglaterra; nenhum político será eleito a dizer que vai acabar com pensões públicas, rendimento mínimo, serviço nacional de saúde, assistência aos pobres. Ninguém deseja isso. Nenhum partido ganhará eleições a dizer que pretende um Estado fraco e o fim da banca nacional ou dos campeões da economia. Há diferentes modelos de Estado social na Europa, mas todos têm órgãos públicos de comunicação, educação gratuita, hospitais estatais, blindagem do sistema de pensões. Há também limitações à liberdade aceites por toda a gente, por exemplo, na compra e porte de armas ou nas leis do trabalho. Os europeus não querem mais liberalismo económico, aliás atribuem a crise aos excessos do liberalismo; os europeus querem mais segurança no trabalho e ruas tranquilas, querem prosperidade sem excesso de desigualdade, querem ter comunidades fortes com boas oportunidades para todos. E é assim que votam em todo o lado.

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publicado às 18:49

Eleições americanas

por Luís Naves, em 02.02.16

As eleições americanas baseiam-se num mecanismo arcaico do século XIX que convive mal com a sociedade mediatizada do século XXI. Este paradoxo favorece um sistema oligárquico, dependente de quantidades impressionantes de dinheiro, e produz campanhas que afunilam os temas, discutidos com extrema demagogia. A política americana está a tornar-se mais populista e virada para dentro, incapaz de ter um olhar sobre o mundo. Os candidatos precisam de ter cuidado com temas tóxicos (imigração, armas, aborto) e nunca perdem tempo com assuntos complexos, que não interessem à televisão. A América é um império relutante, que ao longo da sua História manteve frequentes políticas isolacionistas, sobretudo após intervenções militares externas. Na pré-campanha, o partido republicano radicalizou-se e parece ter entrado numa fase de isolacionismo patológico. Do lado democrata, surge uma insurreição anti-sistema que pode produzir o mesmo efeito. Com a política externa submetida a discussões de política interna, a América tenderá a desinteressar-se pelos conflitos mundiais, o que implicará eventual abandono de aliados, acções a meio-gás, paralisação institucional, hesitação ou até incapacidade de agir.

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publicado às 12:20

O mundo novo

por Luís Naves, em 19.01.16

As notícias deviam preocupar a classe política, mas julgo que a retórica vazia vai continuar mais ou menos na mesma. A economia mundial está em situação péssima e acumulam-se sinais de que a crise não acabou. Segundo a Oxfam, um grupo de apenas 62 pessoas tem rendimento semelhante a metade da riqueza mundial (em 2010, o número era de 338). Uma tal acumulação, acompanhada do empobrecimento efectivo de parte da população, terá necessariamente consequências políticas, por exemplo, tornam-se mais aliciantes todas as críticas ao processo de globalização. O facto é que os economistas já não conseguem explicar muito bem as razões da estagnação geral, como não conseguem explicar o nervosismo dos mercados, o petróleo barato, a falta de crédito, os problemas do sistema financeiro, as dificuldades da China e a irritação da classe média.

Em ambientes voláteis e de pânico, quem se põe a jeito torna-se alvo fácil e Portugal pode já estar a pagar a factura dos sinais que enviou de querer acabar com a estratégia de credibilidade e prudência que nos foi imposta durante o ajustamento. Vem aí nova vaga de colapsos financeiros e, com a crise migratória, a Europa entrou numa divisão interna, entre leste e ocidente, que pode ser pior do que o anterior conflito das dívidas soberanas (que, aliás, não está resolvido). O contexto em que Portugal se move ainda piora se tivermos em conta que a Espanha parece ingovernável. A nossa dependência é demasiado grande para nos tranquilizarem as cenas de delírio dos vizinhos. Em El-Rei Junot, um livro brutal sobre o falhanço das nossa elites, Raul Brandão escrevia que “a realidade é a força imensa que engendra o mundo novo”. Esta não era uma referência ao mundo novo das utopias lunares ou dos tempos imaginários de candidatos presidenciais com a boca cheia de palavras, era o mundo novo concreto em que teremos de viver, que pede às elites um juízo muito maior.

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publicado às 12:12

2016, a crise continua

por Luís Naves, em 31.12.15

Portugal não terá um ano fácil. No final de 2015, houve uma acumulação de tensões políticas como não se via desde os anos 80. Temos agora a bizarra situação de um partido de governo que perdeu as eleições de Outubro e que em certas votações cruciais para a credibilidade externa do país necessitará do apoio de um rival que tem mais deputados. O PS vai governar de forma precária, toureando à vez, à esquerda e à direita, conforme o tema. As trapalhadas serão constantes, as surpresas inevitáveis, e nem o apoio automático de uma comunicação social desligada da realidade poderá esconder as sucessivas crises.

As promessas da esquerda ameaçam inverter o que foi conseguido na redução da despesa pública e contas externas. As incertezas podem reflectir-se no crédito da república e esbanjar a rara oportunidade do petróleo barato e do financiamento a juros baixos. E, no entanto, é perfeitamente possível que a transição pantanosa dure mais de um ano, pois será punido nas urnas quem derrubar este governo minoritário antes que sejam visíveis os seus estragos.

As bolhas das elites políticas, empresariais, culturais e jornalísticas estão a rebentar, pondo fim às ilusões em que todos viveram. Os bancos serão comprados por bancos estrangeiros maiores e esse processo talvez já seja visível em 2016. Os jornais perdem leitores e triunfa uma cultura de banalização do superficial. A economia é pouco competitiva, as empresas precisam de capital, o desemprego tornou-se insustentável e a credibilidade externa depende de decisões que não controlamos, tomadas por burocratas da Comissão ou do BCE e por tecnocratas anónimos das agências de notação.

Dentro de semanas, nas eleições presidenciais, o país terá de fazer uma escolha entre estabilização e agravamento da instabilidade, sendo mais provável a primeira opção, com a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa à primeira volta. Marcelo é o candidato com mais probabilidades de conseguir introduzir um mínimo de bom senso neste disfuncional sistema político.

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publicado às 11:10

2016, as crises europeias

por Luís Naves, em 30.12.15

A Europa viveu em 2015 um ano horrível e dizer que as coisas não podem piorar é talvez sinal de falta de imaginação. A estabilidade da zona euro não está garantida e os atentados de Paris mostraram a nossa vulnerabilidade à violência fanática. Uma crise migratória sem precedentes acentuou a ideia de insegurança, ameaça alterar a própria identidade europeia, alimentando o fogo brando de uma insurreição eleitoral que lentamente vai mudando a paisagem política: os partidos populistas de esquerda e direita tiveram grandes ganhos no ano passado e vão continuar a fazer estragos. A Europa assistirá ainda em 2016 ao teste do referendo britânico, onde existe o risco do debate ser desviado para argumentos irracionais.

Os países europeus estão hoje demasiado interligados para se separarem num divórcio que seria uma calamidade, mas os partidos tradicionais, responsáveis pela actual configuração da UE, assistem a uma erosão progressiva. Em 2016, começa a luta pelas presidenciais francesas da primavera de 2017 e os políticos alemães também estarão a posicionar-se para as legislativas, pelo que haverá ruidosas discussões sobre a integração de um número elevado de refugiados ou a continuação da ajuda financeira a países cansados de austeridade. Ou seja, não há condições para o avanço suave da ordem habitual, pois os problemas acumulam-se: a perspectiva de Brexit, a Espanha em impasse político (esquerda e direita empatados) e Portugal a viver um período de alta instabilidade, os países de leste relutantes em aceitar a liderança alemã e a França republicana a tentar travar a demagogia da Frente Nacional. O contexto é o mais adverso possível: a economia vai crescer de forma tímida, o desemprego estará em níveis elevados e os problemas do sistema financeiro não foram resolvidos.

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publicado às 11:06

2016, o contexto internacional

por Luís Naves, em 29.12.15

No plano externo, a Europa está rodeada de incertezas, nomeadamente a agressividade da Rússia e a possibilidade de ocorrer uma terceira vaga da crise financeira, desta vez em países emergentes, como Brasil, China ou Turquia. O Estado Islâmico, que se instalou em parte da Síria e Iraque, será a grande incógnita, pois nunca houve um grupo terrorista islâmico tão fanático e com tal capacidade militar e acesso a população e dinheiro. As alterações climáticas continuam o seu perigoso avanço e 2016 pode ser um ano de inundações catastróficas e secas devastadoras, com perda de colheitas e fome em países pobres. Nada disto impedirá o progresso, as rupturas tecnológicos e os avanços científicos, mas o mundo parece entrar numa transição para uma ordem global muito diferente, numa reacção à globalização que põe em causa o liberalismo triunfante das últimas três décadas.

Entretanto, os Estados Unidos tendem a retirar-se dos grandes assuntos do mundo. No futuro, talvez os historiadores olhem para 2001 como uma anomalia, pois a América reagiu a um ataque directo, exercendo a sua imensa força militar em Bagdade ou Cabul. Os efeitos não foram os esperados: a democratização do Médio Oriente não passou de uma miragem, as primaveras árabes falharam e a região teve ditaduras ferozes ou vazios de poder que deram origem a regimes altamente tóxicos. Apesar da sua força económica, a América tende agora para a contenção na política externa ou, numa interpretação mais preocupante, para subordinar a acção externa à política interna. Em resumo, em ano de eleições, até que ponto o populismo delirante de Donald Trump vai condicionar o partido republicano? E pode Hillary Clinton chegar à Casa Branca?

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publicado às 10:55

2015, fenómenos globais e reacções locais

por Luís Naves, em 28.12.15

Este ano houve na Europa uma crise de refugiados que foi também uma crise migratória em larga escala e que tem na sua raiz a guerra civil da Síria, cujos estilhaços se propagam por uma vasta área do Médio Oriente. Em 2015, a Europa recebeu mais de um milhão de migrantes e dividiu-se no acolhimento e na integração destas multidões, os dirigentes incapazes de conciliar o dilema entre a segurança de fronteiras e a emergência humanitária. Nas semanas mais difíceis do Verão passado, quando milhares de migrantes e refugiados se deslocavam diariamente entre fronteiras, criando um caos indescritível, agravou-se o sentimento de insegurança que na Europa tem alimentado a ascensão eleitoral dos partidos populistas e xenófobos.

Este fenómeno do radicalismo difere de país para país, mas parece instalar-se um padrão de descontentamento popular e de contestação aos partidos tradicionais. Os populistas de esquerda eleitos na Grécia tentaram em vão contrariar as políticas de estabilização da moeda única e pairou por algum tempo o espectro de uma ruptura na zona euro. Portugal e Espanha mergulharam na instabilidade e, na Polónia, triunfaram os conservadores eurocépticos. A aparência de unidade entre os países da UE nunca escondeu divisões tão profundas.

O descontentamento dos cidadãos europeus é alimentado também terrorismo e o preocupante fenómeno da violência radical islâmica, que tem um terreno fértil nos subúrbios pobres das grandes cidades, onde as minorias muçulmanas vivem numa bolha cultural. A fragmentação política do mundo muçulmano está por seu turno a dar origem à radicalização do Islão, com a emergência do perigoso Estado Islâmico do Iraque e do Levante, organização imprevisível, cuja erradicação parece ser difícil.

A sensação de insegurança económica foi a norma dos últimos anos, mas a crise migratória permitiu acelerar a revisão da identidade europeia, processo complexo envolvendo utopias de multiculturalismo, sentimentos de culpa pós-coloniais e uma retórica anti-nacionalista que, tendo sido importante no passado para a construção do projecto europeu, foi segundo alguns levada demasiado longe, o que provoca agora uma reacção nostálgica. Apoderando-se demagogicamente dos símbolos da pátria, os populistas estão também a lançar um forte desafio à globalização.

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publicado às 13:34

A Europa de hoje

por Luís Naves, em 17.12.15

Os populistas tendem a ignorar rótulos ideológicos e procuram simplificar as ideias simples do homem da rua. O populismo desconfia dos capitalistas, da banca e dos especuladores financeiros, detesta as instituições internacionais e as potências. No caso europeu, há forte retórica eurocéptica e críticas duras aos Estados Unidos e Alemanha, sobretudo quando a opinião pública fica com a percepção de que houve interferência nos assuntos internos. A resistência fictícia ou real a essas pressões garante ganhos imediatos de votos.

Os populistas esperneiam antes de aceitar o inevitável, mas acima de tudo seguem uma agenda nacional, são adversários da globalização, preocupam-se com os perdedores deste processo, querem reforçar as funções do estado e as companhias de bandeira, tentam interpretar a todo o momento a sensibilidade do povo, distanciam-se da opinião publicada. Os populistas da direita, por exemplo, erguem trincheiras contra a imigração em massa e o que isso implica de perigos (reais ou imaginários) para a identidade nacional ou para os salários futuros. Os populistas governam por sondagens e desconfiam das elites mediáticas e dos partidos tradicionais, embrulham-se na bandeira, gostam de feiras de enchidos, enchem a boca com as palavras valores e tradição, combatem os privilégios dos ricos e assumem-se como defensores dos mais fracos e como opositores dos piores aspectos das culturas forasteiras. O seu discurso iliberal entra facilmente na linguagem. Está a ser ultrapassado um ponto de não retorno neste processo de mudança que acabará por criar um mundo diferente.

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publicado às 12:32

As raízes do problema europeu

por Luís Naves, em 16.12.15

Os eleitores parecem cansados de duas décadas de mediocridade económica, a que se seguiram crises que abalaram os próprios fundamentos da UE. Quando o euro esteve à beira do colapso, os governos mostraram abundantes sinais de fraqueza. Entretanto, encolheram os serviços públicos, aumentou a ansiedade das pessoas em relação aos seus empregos e pensões, tremeram os fundamentos da relativa segurança que os europeus julgavam garantida. Há quem diga que a rebelião eleitoral a que se assiste na Europa tem a ver com a austeridade, mas isso não explica o avanço dos populistas em países que não foram afectados por medidas austeritárias.

Na verdade, a globalização falhou para muitos europeus. Ninguém pode dizer que não foi afectado pela deslocalização de empresas, pelo futuro duvidoso das pensões de reforma, pela degradação do Estado social, pelo desemprego ou ainda pelos aumentos de impostos que financiaram dívidas públicas. A globalização trouxe mais produtividade, mas a distribuição dos ganhos foi desigual ou, pelo menos, muitos eleitores acreditam nisso. Em países com grande proporção de imigrantes, existe uma sensação adicional de insegurança: o terrorismo floresceu em comunidades mal integradas. A imigração pode resolver problemas de competitividade e reduz o défice demográfico, mas também funciona como travão ao aumento dos salários mais baixos, sendo prejudicial para trabalhadores menos qualificados, exactamente aqueles que assistiram à degradação da convivência nos bairros populares e vivem na pele os choques culturais em torno de questões que deviam estar extintas, como falta de liberdade das mulheres ou intolerância religiosa.

Mais recentemente, os governos trataram como crise de refugiados o que tem todo o aspecto de ser uma crise de imigração em larga escala. As potências ganharam preponderância e as instituições comunitárias são duras com os países mais pequenos. A nova economia beneficia as maiores empresas, fechando os olhos à lei do mais forte e sufocando progressivamente as lojas de bairro. Parece que perdem sempre os mesmos, o que não impede o constante discurso da igualdade e da solidariedade. Nada disto joga com a vida real. As elites políticas e mediáticas ignoraram o descontentamento popular e sofrem agora uma rebelião de grandes proporções.

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publicado às 12:35

A propósito das recentes eleições francesas

por Luís Naves, em 15.12.15

As placas tectónicas da política europeia estão em movimento e haverá surpresas em cada nova eleição. A vitória dos conservadores eurocépticos polacos vai alterar a relação entre Berlim e Varsóvia. Em França, a Frente Nacional de extrema-direita venceu a primeira volta das regionais e rompeu o equilíbrio tradicional da república, que foi até agora um duopólio de socialistas e gaulistas. Na segunda volta, a FN assume-se como líder da oposição em todas as regiões. Em Espanha, deve terminar o bipartidarismo, obrigando a governos de coligação, o primeiro destes provavelmente entre conservadores do PP e liberais do C’s. Enfim, as rebeliões são como os cogumelos, surgem com a direita anti-imigração na Suécia, no governo grego, na liderança do maior partido de oposição no Reino Unido, na ascensão de um partido liberal anti-euro na Alemanha, surgem em Itália, na Holanda e Bélgica. Há exemplos para todos os gostos. Populistas de direita, centristas pró-europeus e radicais de esquerda serão provavelmente as três forças que vão moldar a Europa do futuro. O populismo agitou a bandeira do medo e avança em toda a Europa. A resposta dos partidos tradicionais, o cordão sanitário, funcionou durante décadas, mas agora parece um erro crasso, pois a franja de protesto passou de 15% para mais de 30% e não se pode excluir eternamente um terço do eleitorado. No passado, a exclusão só reforçou os partidos rejeitados.

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publicado às 12:38


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