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Mudança de modelo

por Luís Naves, em 16.09.17

A maior consequência da saída do Reino Unido da União Europeia não será um colapso do comércio ou uma recessão. Londres estava fora da moeda única e, por isso, já estava fora da união, pois a única maneira de manter a prazo a estabilidade da moeda comum europeia será aprofundar as instituições políticas que a regulam (quem paga as contas tem de ter uma maneira de controlar as decisões). O orçamento comunitário vai crescer a prazo, pelo que haverá impostos europeus; existirá um poder transnacional com capacidade para forçar um país a fazer reformas estruturais impopulares; um acordo entre franceses e alemães será imparável; um país que não cumpra as regras terá de ser afastado do euro e lançado para o patamar de comércio livre dominado por Londres (a EFTA reanimada), embora neste ponto exista um problema, pois se a saída for demasiado fácil não fica ninguém na moeda comum. Enfim, acabou a fase de bom senso, que visava criar uma aliança de nações e um mercado único, e começa a erguer-se uma federação burocrática, que pela sua natureza terá de reprimir todos os nacionalismos, menos o francês e o alemão.

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publicado às 20:18

Camponês

por Luís Naves, em 31.08.17

Enfim, isto não tem saída, só me resta continuar, fazer das tripas-coração e escrever, sem olhar para trás. Escrever como trabalhador rural, não como um burguês. Sou da picareta, abro valas junto à estrada, trabalho à sachola, sem tempo para olhar a paisagem, sem enfeites nem ornamentação; não me sinto mais jardineiro, sou camponês sem terra e, para extrair o pão, tem de ser à força, com suor e o mínimo de ilusões. A partir pedra.

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publicado às 11:15

Escrever para os amigos

por Luís Naves, em 30.08.17

Uma parte substancial da literatura será porventura resultado das cautelas, pois os autores preocupam-se, e muito, com o que dizem deles; por isso escrevem para os membros das tertúlias, para os amigos, para o seu círculo de críticos particulares, não faças isto, não faças aquilo, faz antes isto e devias era tentar aquilo, o que se calhar explica a longevidade daqueles raros escritores que não tinham círculo a quem prestar contas, os que tinham poucos amigos, sobretudo daquele género cuja amizade tem este preço elevado de um certo conformismo.

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publicado às 11:12

No bairro judeu

por Luís Naves, em 21.08.17

Depois de uma larga avenida, estende-se por vários quarteirões o bairro onde viviam os judeus e onde está a Sinagoga, o grande edifício em fase final de renovação e que será em breve uma atracção turística internacional. As ruas, com as suas filas de álamos, formam um rendilhado de casinhas baixas e pequenos palácios em trabalhos de reabilitação. Imagino que ali viviam muitas das famílias exterminadas no Holocausto. Sete mil pessoas, só em Szeged. Restam agora as casas silenciosas, com fachadas simples, onde a vida prosseguiu com outra gente. Em certos pontos também há traços da ditadura seguinte, um prédio proletário com baixo-relevo de operários, mas hoje o bairro está tranquilo, como se nada tivesse ali acontecido e nos fosse possível ignorar os sinais das sombras sem sentirmos leves ondas de angústia, no meio de toda a serenidade.

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publicado às 23:46

Os paraísos celestiais

por Luís Naves, em 18.08.17

Vi as notícias nacionais e pareceu-me que a realidade portuguesa é basicamente irreal. O que vemos não coincide com o que pensávamos que existia, o que somos não é exactamente o que julgávamos ser e a nossa memória não foi inteiramente vivida. Há uma crescente mistura entre real e irreal, entre o autêntico e o ficcionado, e foi isso o que li hoje na imprensa, a bolha jornalística dentro da bolha política das classes iluminadas, o lirismo utópico, o país que não se enxerga, as freiras beatas a darem lições de moral à saída da missa onde se falou exclusivamente dos paraísos celestiais.

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publicado às 23:42

O que não queremos

por Luís Naves, em 16.08.17

O que não queremos é que penses profundamente sobre a sociedade em que vives, sobre as questões autênticas das pessoas que conheces ou sobre os problemas do teu tempo. Escreve antes sobre o umbigo, de forma suave e doce; faz explorações de linguagem que dentro de dez anos estarão obsoletas, mas que agora são giras; procura obscurecer as tuas ideias e não levantes problemas concretos; dificulta a leitura, para pareceres poeta; dispara em todas as direcções e sem foco, para que digam que escreveste um fresco de largas dimensões; evita incluir personagens próximas da realidade ou do que conheces; e nada de excessos de imaginação; sê filosófico, mas sem filosofia; sobretudo não sejas legível, pois isso não parece sofisticado paras  leitores ávidos de complexidade; enfim, segue as tendências da moda, já que é isso que vende.

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publicado às 23:36

A opção

por Luís Naves, em 15.08.17

Aqui, na Hungria, muitos pensionistas vivem mal, com problemas de saúde e pobreza. Por raiva genuína ou dose de nostalgia, parte desta camada vota contra o governo conservador, que por sua vez terá o voto entusiástico da classe média, a que mais tem beneficiado com a melhoria da situação económica. No final, se não houver até lá um escândalo inesperado, as eleições de Abril estão definidas: será uma opção entre um governo que melhorou a situação da população e a oposição de esquerda, por enquanto dividida, onde se inclui o autor da bancarrota e os descendentes do regime totalitário; ao centro, há uns teóricos liberais que não se conseguem juntar numa simples coligação e, depois temos a extrema-direita, uma das mais tóxicas da Europa. Alguém se pode admirar se Viktor Orbán vencer as eleições de 2018? Se houvesse um verdadeiro problema de democracia, como dizem certos analistas, juntavam-se os partidos todos numa frente cívica para salvar o regime, mas não há sinais de que isto possa acontecer, pelo contrário, demonstrando que cada um está a lutar apenas pelos interesses partidários de curto prazo.

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publicado às 23:29

Difícil de explicar

por Luís Naves, em 13.08.17

Muitas pessoas que falam de cor sobre a Europa Central não compreendem elementos fundamentais destas sociedades. Em primeiro lugar, que a geração mais influente (entre 50 e 60 anos) atravessou toda a transição e interpreta os últimos 25 anos como um período em que as ambições da mudança foram parcialmente traídas; o Ocidente é em grande parte o culpado da sua desilusão e descontentamento. A transição beneficiou gente com boas ligações ao antigo regime e prejudicou muitos dos intelectuais que tinham sonhado com a liberdade e lutado por ela. O que os nossos observadores de bancada também não compreendem é que existe hoje nestes países um evidente conflito de gerações entre os mais velhos, que têm uma memória terrível dos anos do comunismo, e os mais novos, que querem seguir em frente. Esta memória de um regime totalitário não se apaga por magia. A Hungria, em particular, viveu os últimos 250 anos a lutar pela sua identidade, no âmbito de conflitos por vezes existenciais. A sua política segue hoje esta matriz, vive entre compromisso e resistência. O compromisso com a Europa envolve riscos de perda de identidade e a resistência pode levar à criação de uma bolha nacionalista. Não deve ser fácil explicar isto a um luxemburguês ou a um belga.

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publicado às 23:26

Outono

por Luís Naves, em 10.08.17

Chamemos-lhe Outono. Tenho 56 anos, com entradas no cabelo e um ventre substancial. Ao envelhecer, não sinto qualquer tipo de sabedoria, apenas um cepticismo algo cínico, e começo a esquecer-me de muitas coisas importantes, de frases de amigos, de pequenas histórias lidas algures, de paisagens ou ambientes. Anteontem, numa livraria, aqui em Szeged, vi que estavam a publicar os diários de Sándor Márai e julgo que aquilo começa em 46 ou 47, no Outono da vida dele, numa altura em que assistiu aos terríveis acontecimentos do pós-guerra; os diários incluem volumes grossos no exílio do escritor e, se bem percebi, Márai escrevia para a gaveta, para não se esquecer, não propriamente para leitores, que os perdera para sempre. E tem um certo horror e um pequeno conforto, isto de escrever para a gaveta. Ao folhear os volumes encontrei uma entrada de 61 com as notícias do dia sobre o paquete Santa Maria e os quixotes portugueses que lutavam pela liberdade. Aliás, o navio foi baptizado Santa Liberdade pelos rebeldes.

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publicado às 23:18


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