Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Deixem-nos votar

por Luís Naves, em 02.10.17

Na Catalunha, ontem, houve uma espécie de pequena revolução, com as emoções independentistas a tomarem conta da rua. O referendo não teve boletins, listas, policiamento ou debate: foi uma chapelada venezuelana com contagem controlada pelos separatistas, mas os incidentes policiais foram transformados pelos demagogos em protestos legítimos e queixas antigas. Em certa medida, os separatistas já venceram. A democracia espanhola tem má imprensa e é oficial, existe o bom e o mau nacionalismo; o catalão é do bom, o espanhol é mau. Em resumo, um grupo de populistas mobilizado e manipulando raivas difusas pode vencer facilmente uma democracia madura que tente aplicar a lei. É tudo uma questão de imagem. O modelo vai propagar-se pela Europa. A teoria do ‘deixem-nos votar’ permitirá acordar todos os ressentimentos adormecidos, os rancores velhos e as feridas mal cicatrizadas dos tratados punitivos do final da Grande Guerra. A doutrina ‘deixem-nos votar’ convoca o baile dos fantasmas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:45

A dúvida faz sentido?

por Luís Naves, em 27.09.17

A vingança das nações é uma reacção quixotesca a mudanças mais profundas a que assistimos com espanto e receio. Em todo o mundo avançado decorrem discussões sobre a identidade da nação, mas poucos se interrogam sobre se estas polémicas fazem sentido: ser hoje nacionalista é embrulhar-se numa bandeira ou ajoelhar em protesto quando toca o hino? ter uma nostalgia gastronómica? falar certa língua ou emocionar-se com uma vitória desportiva? Serei eu, então, bom português? Enfim, detesto cozido à portuguesa, acho a bandeira feia e há milhões de pessoas que falam a minha língua e dizem pertencer a outras nações. A Revolução Francesa abriu caminho ao florescimento de patriotas que, em certos casos, deram origem a impérios e a Estados totalitários, todos mantendo a ideia central de que um determinado povo, nação ou classe controlava o seu destino. A política a que assistimos já não tem nada a ver com esse passado, somos quase todos burgueses, veneramos o capitalismo, aceitamos sem incómodo o poder do Estado, mas sabemos que isto anda tudo ligado e interdependente. Pátria, povo e comunidade são palavras que enchem a boca dos políticos, mas tendo perdido o velho significado que tinham. O que é hoje ser patriota? Pagar impostos? ter uma visão mítica da história? citar clássicos da literatura e achar parvamente que os nossos autores são os melhores?

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:48

Mudança de modelo

por Luís Naves, em 16.09.17

A maior consequência da saída do Reino Unido da União Europeia não será um colapso do comércio ou uma recessão. Londres estava fora da moeda única e, por isso, já estava fora da união, pois a única maneira de manter a prazo a estabilidade da moeda comum europeia será aprofundar as instituições políticas que a regulam (quem paga as contas tem de ter uma maneira de controlar as decisões). O orçamento comunitário vai crescer a prazo, pelo que haverá impostos europeus; existirá um poder transnacional com capacidade para forçar um país a fazer reformas estruturais impopulares; um acordo entre franceses e alemães será imparável; um país que não cumpra as regras terá de ser afastado do euro e lançado para o patamar de comércio livre dominado por Londres (a EFTA reanimada), embora neste ponto exista um problema, pois se a saída for demasiado fácil não fica ninguém na moeda comum. Enfim, acabou a fase de bom senso, que visava criar uma aliança de nações e um mercado único, e começa a erguer-se uma federação burocrática, que pela sua natureza terá de reprimir todos os nacionalismos, menos o francês e o alemão.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:18

A frivolidade

por Luís Naves, em 08.09.17

A frivolidade está a matar o jornalismo e as artes. Quando um tema é demasiado complexo, os animadores sentem-se na obrigação de o desmontar, apresentando somente os seus aspectos comezinhos e giros, que não fazem pensar nem incomodam. As notícias, essas, são reduzidas às vacuidades, ordinarices, exibições de mau gosto ou ainda ao espectáculo da demagogia e das ideias truncadas. As pessoas adoram frases vazias que pareçam grandiosas, querem líderes que lhes contem histórias da carochinha, o que reduz a política a um enredo em papel couché com imagens glamorosas. A frivolidade mata a arte porque ninguém quer o pensamento simples sobre o real; as massas preferem claramente tudo aquilo que, prescindindo de um olhar sobre a alma dos seres humanos, não vá além da flor da pele e da aparência de inovação estética; quanto mais rebuscada, melhor.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:21

Camponês

por Luís Naves, em 31.08.17

Enfim, isto não tem saída, só me resta continuar, fazer das tripas-coração e escrever, sem olhar para trás. Escrever como trabalhador rural, não como um burguês. Sou da picareta, abro valas junto à estrada, trabalho à sachola, sem tempo para olhar a paisagem, sem enfeites nem ornamentação; não me sinto mais jardineiro, sou camponês sem terra e, para extrair o pão, tem de ser à força, com suor e o mínimo de ilusões. A partir pedra.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:15

Escrever para os amigos

por Luís Naves, em 30.08.17

Uma parte substancial da literatura será porventura resultado das cautelas, pois os autores preocupam-se, e muito, com o que dizem deles; por isso escrevem para os membros das tertúlias, para os amigos, para o seu círculo de críticos particulares, não faças isto, não faças aquilo, faz antes isto e devias era tentar aquilo, o que se calhar explica a longevidade daqueles raros escritores que não tinham círculo a quem prestar contas, os que tinham poucos amigos, sobretudo daquele género cuja amizade tem este preço elevado de um certo conformismo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:12

No bairro judeu

por Luís Naves, em 21.08.17

Depois de uma larga avenida, estende-se por vários quarteirões o bairro onde viviam os judeus e onde está a Sinagoga, o grande edifício em fase final de renovação e que será em breve uma atracção turística internacional. As ruas, com as suas filas de álamos, formam um rendilhado de casinhas baixas e pequenos palácios em trabalhos de reabilitação. Imagino que ali viviam muitas das famílias exterminadas no Holocausto. Sete mil pessoas, só em Szeged. Restam agora as casas silenciosas, com fachadas simples, onde a vida prosseguiu com outra gente. Em certos pontos também há traços da ditadura seguinte, um prédio proletário com baixo-relevo de operários, mas hoje o bairro está tranquilo, como se nada tivesse ali acontecido e nos fosse possível ignorar os sinais das sombras sem sentirmos leves ondas de angústia, no meio de toda a serenidade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:46

Os paraísos celestiais

por Luís Naves, em 18.08.17

Vi as notícias nacionais e pareceu-me que a realidade portuguesa é basicamente irreal. O que vemos não coincide com o que pensávamos que existia, o que somos não é exactamente o que julgávamos ser e a nossa memória não foi inteiramente vivida. Há uma crescente mistura entre real e irreal, entre o autêntico e o ficcionado, e foi isso o que li hoje na imprensa, a bolha jornalística dentro da bolha política das classes iluminadas, o lirismo utópico, o país que não se enxerga, as freiras beatas a darem lições de moral à saída da missa onde se falou exclusivamente dos paraísos celestiais.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:42

O que não queremos

por Luís Naves, em 16.08.17

O que não queremos é que penses profundamente sobre a sociedade em que vives, sobre as questões autênticas das pessoas que conheces ou sobre os problemas do teu tempo. Escreve antes sobre o umbigo, de forma suave e doce; faz explorações de linguagem que dentro de dez anos estarão obsoletas, mas que agora são giras; procura obscurecer as tuas ideias e não levantes problemas concretos; dificulta a leitura, para pareceres poeta; dispara em todas as direcções e sem foco, para que digam que escreveste um fresco de largas dimensões; evita incluir personagens próximas da realidade ou do que conheces; e nada de excessos de imaginação; sê filosófico, mas sem filosofia; sobretudo não sejas legível, pois isso não parece sofisticado paras  leitores ávidos de complexidade; enfim, segue as tendências da moda, já que é isso que vende.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:36

A opção

por Luís Naves, em 15.08.17

Aqui, na Hungria, muitos pensionistas vivem mal, com problemas de saúde e pobreza. Por raiva genuína ou dose de nostalgia, parte desta camada vota contra o governo conservador, que por sua vez terá o voto entusiástico da classe média, a que mais tem beneficiado com a melhoria da situação económica. No final, se não houver até lá um escândalo inesperado, as eleições de Abril estão definidas: será uma opção entre um governo que melhorou a situação da população e a oposição de esquerda, por enquanto dividida, onde se inclui o autor da bancarrota e os descendentes do regime totalitário; ao centro, há uns teóricos liberais que não se conseguem juntar numa simples coligação e, depois temos a extrema-direita, uma das mais tóxicas da Europa. Alguém se pode admirar se Viktor Orbán vencer as eleições de 2018? Se houvesse um verdadeiro problema de democracia, como dizem certos analistas, juntavam-se os partidos todos numa frente cívica para salvar o regime, mas não há sinais de que isto possa acontecer, pelo contrário, demonstrando que cada um está a lutar apenas pelos interesses partidários de curto prazo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:29


Mais sobre mim


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Links

Alguns blogues anteriores

Locais Familiares

Boas Leituras