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Espírito das redes sociais

por Luís Naves, em 07.08.14

Com inteligência e simplicidade, o escritor espanhol Enrique Vila-Matas coloca um problema importante das redes sociais contemporâneas. Estas tendem a afastar o pensamento original e promovem a normalização da opinião publicada. Ali prevalece um comportamento de tribo, de ‘nós contra eles‘, onde qualquer diferença é hostilizada verbalmente. De facto, perde-se demasiado tempo a explicar o que nos parecia ser claro, a desmentir o que não se escreveu, a repetir ideias evidentes, a ser ignorado ou atacado por outros autores. O pior é que este espírito das redes sociais alastrou ao jornalismo dito de referência e dá trabalho remar contra a maré das opiniões pré-fabricadas e dos freios intelectuais. Em Portugal, tornou-se quase impossível dizer que a situação do País não é tão desesperada como a pintam. Nas redes sociais, essa afirmação implica insultos imediatos, leituras enviesadas e a reputação destruída. Muitos autores não estão para isso e desistem, pelo que se agrava a tendência para certa limitação à liberdade de expressão, limitação essa que alguns parecem aceitar sem problemas.

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publicado às 10:02

Mónica

por Luís Naves, em 02.08.14

Num dos primeiros grandes filmes da nouvelle vague francesa, Les 400 Coups, dois rapazes roubam uma fotografia da actriz sueca Harriet Andersson, num cinema onde passa o filme de Ingmar Bergman Monica e o Desejo. A película de François Truffaut, de 1959, em português Os 400 Golpes, contava a história de um adolescente e da sua busca da liberdade, mas a narrativa semi-autobiográfica usava uma nova maneira de abordar as personagens, sem lhes atribuir motivações evidentes, ao contrário da norma nas produções de Hollywood. Em resumo, a nouvelle vague utilizava um realismo próximo da vida, onde a acção era menos previsível e a complexidade das personagens mais elaborada. A arte continuava a enganar os sentidos, mas de maneira subtil. Podemos tentar explicar o motivo do furto da fotografia, homenagem ao mestre sueco, a um filme brilhante, a uma actriz devastadoramente bela, piscar de olho ao cinema europeu, anúncio de ruptura estética, o que quisermos, pouco importa, é um roubo justificado. Truffaut consegue um pequeno momento transcendente e a ligação com todos os rapazes que também um dia sonharam em roubar a fotografia de Mónica e o Desejo. Foi esta magia que se perdeu no cinema contemporâneo. Agora, não há segredos nem minúsculas preciosidades praticamente ocultas, que cabe a cada um de nós encontrar e decifrar; não há poesia, apenas citação.

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publicado às 10:00

Não é falta de assunto

por Luís Naves, em 30.07.14

Evito escrever sobre questões internacionais, mas não é falta de assunto, é perplexidade. As revoluções árabes falharam quase todas, com particular estrondo no Egipto, e nasceu um califado no Iraque a na Síria (imagine-se, um recuo de mil anos). A civilização ocidental entrou numa fase estranha, incapaz de controlar os excessos ou de reduzir um sistema de consumo que ameaça a estabilidade do próprio clima do planeta. Alguns Estados caem fora do ninho e condenam-se à extinção; há milhões de pessoas sem qualquer futuro visível. E esta exclusão também ocorre dentro dos países chamados ricos, onde as desigualdades podem destruir democracias construídas com labor e sacrifício. Muitos pobres ficarão no exterior das classes consideradas humanas e, assim condenadas à pobreza e à incultura, deixarão simplesmente de existir, ignoradas por meios de comunicação obcecados apenas pelo espectáculo. O capitalismo é insaciável. Cada um fecha-se nas suas razões: estamos a construir um mundo de condomínios privados que bombardeiam faixas de gaza.

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publicado às 09:58

Incerteza

por Luís Naves, em 29.07.14

Na sociedade portuguesa instalou-se um mal-estar que está a levar os políticos a ensaiar a fuga para a frente feita de promessas. O País empobreceu e está crivado de dívidas. Os Portugueses adquiriram uma profunda noção de humilhação nacional e o pior é que a doença não passa, os sintomas não aliviam, gritam-se diagnósticos alucinados. O clima de incómodo insustentável não se limita a dividir a sociedade, mas cria na vida uma sensação de falta de soluções. Portugal tem hoje uma política mais crispada, crescente descrédito das instituições e da democracia. Já ninguém discute o futuro, pois ninguém acredita que ele exista. O declínio parece irreversível.
O País continua a enfrentar problemas recorrentes. As crises do último século estiveram ligadas a desequilíbrios orçamentais ou problemas financeiros com base em incerteza nas contas públicas. Foi o que nos afundou também desta vez e é o que ninguém deseja debater de forma séria. No actual regime democrático tem aumentado a estabilidade do sistema (os governos parecem sobreviver mais tempo), mas no passado, quando se deparou com crises difíceis, Portugal escolheu caos ou ditadura, matando à nascença qualquer ímpeto reformista.
Não teremos contas públicas equilibradas sem a reforma corajosa do Estado, mas se todos os nossos problemas forem encarados como enigmas insolúveis, não haverá saída. O mal-estar pode conduzir ao impasse, levar a escolhas erradas, ao populismo ou à revolução, ou seja, ao isolamento do País e a respectiva condenação à pobreza por décadas.

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publicado às 09:55

Cabazada de realidade

por Luís Naves, em 09.07.14

Os portugueses defendem partidos fortes, mas não estão dispostos a participar neles; querem uma sociedade civil pujante, mas ficam sentados à espera que ela apareça; queixam-se da política, mas não gostam de chatices, excepto no caso de subida rápida. As pessoas exigem serviços públicos impecáveis, mas têm dúvidas sobre a ideia de pagar impostos; querem a comunidade segura, mas não lhes importa a do vizinho; e o atendimento tem de ser perfeito, mesmo quando não se paga. A cultura será gratuita; os artistas são maus, sobretudo quando não são conhecidos lá fora; e os escritores não podem ser incómodos, pelo contrário, devem limitar-se a afirmações fofinhas e politicamente correctas.

A elite de pessimistas na imprensa e blogosfera pensa que os governantes e os partidos seriam perfeitos se fossem outros, mas nenhum destes autores se interroga como se faz uma democracia sem partidos. Quando aparece um novo, como aconteceu recentemente, os mesmos observadores escrevem, nos seus sofás, que estas iniciativas dividem e estão longe do ideal. Ainda não era bem isto.

Os políticos mais citados são os que estão nas alas, à espera de oportunidade, enquanto aproveitam para marcar posição sentada e fazer corajosas críticas à governação, típicas de quem nunca se chegou à frente. Quando alguém tenta ser líder, lá está uma nova divisão. E se o poder não é entregue de mão-beijada, ai, ai.

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publicado às 13:15

Metáforas e lendas

por Luís Naves, em 08.07.14

Nos últimos dias, ao vermos os jogos do Campeonato do Mundo de Futebol, temos aprendido sobre a importância do guarda-redes e a linha fina que separa a tragédia da glória. Os remates quase perfeitos, as defesas miraculosas, o pequeno receio que comprometeu o êxito, a hesitação interpretada como desistência, essa misteriosa componente da sorte, que alguns jogadores tentam atrair com rezas dirigidas aos deuses, os quais, pelo que consta, gostam deste desporto. O mais notável tem sido o voo dos guarda-redes, mas há quem prefira a lei do mais forte, as quedas fingidas ou os jogos mentais dos tácticos, todos eles peritos em xadrez e que transformam atletas em peças com funções, aquele limitado a bispo, outro a rainha imperial, o terceiro um esforçado peão. Tudo é também dissecado ao pormenor e, no final, ficaremos com novos mitos, todos eles recontados mil vezes, até já não recordarmos se aquela finta notável foi em certo jogo ou no anterior, se a defesa extraterrestre ocorreu no momento do triunfo ou antes. Anestesiados pelas emoções, poderemos concluir, como provavelmente chegou a pensar o narrador da Novela de Xadrez, que vimos aquele momento breve, de milagre, em que a ordem humana pairou sobre a opressão do mundo, tal como aconteceu naquela trégua lendária, em que o mal apesar de tudo acabou por triunfar de novo.

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publicado às 13:20

Publique-se a lenda

por Luís Naves, em 11.06.14

O consumidor de informação deve ter presente uma das melhores deixas do cinema, no final de O Homem que Matou Liberty Valance, de John Ford: segundo pensam os habitantes de uma pequena cidade do Oeste, um distinto senador interpretado por Jimmy Stewart matou anos antes, em duelo leal, um facínora chamado Liberty Valance. O filme começa quando este senador, já idoso, comparece no funeral de um homem praticamente anónimo cuja vida correu bastante mal. Este interesse desperta a curiosidade de um jornalista a quem a personagem de Jimmy Stewart decide contar a história autêntica, enquanto espera pelo comboio. No entanto, a história afasta-se de tal forma da narrativa conhecida, que o jornalista recusa publicar a verdade e esclarece:
“Isto é o Oeste, senador. Quando a lenda se transforma em facto, publique-se a lenda”.

Portugal está há três anos numa situação semelhante a esta. Os factos positivos são desvalorizados e os efeitos da pobreza crónica do País tendem a ser confundidos com a crise. Existe uma lenda conveniente que obriga à omissão das circunstâncias que nos levaram à falência e depois ao resgate. Essa lenda atribui todos os males a um governo incapaz, o actual, e não reconhece nenhum erro político anterior. O resultado desta incapacidade de contar a verdadeira história é a crispação invulgar da política e a vertigem de querer repetir os erros que nos condenam ao endividamento insustentável e à baixa competitividade.

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publicado às 13:30


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