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O hotel

por Luís Naves, em 26.07.15

 

Uma história parva, escrita em 2006, inspirada numa notícia sobre um hotel alemão exclusivo para uma clientela que detestava o mundial de futebol

 

Não dei pelo erro, porque o hotel estava numa parte fresca e agradável da cidade, rodeado de florestas. Achei quase estranho que me fizessem assinar tanta papelada no check-in, mas a viagem cansara-me e não reparei nos detalhes. O quarto era fantástico e fiquei contente por o preço ser tão acessível. Larguei o casaco sobre uma cadeira; o bagageiro colocou as malas com cuidado no chão e despediu-se com um sorriso. Antes de me lançar sobre a cama e dormir, ainda tive um baque no coração, uma súbita ansiedade. Corri para o casaco e descansei. Lá estava o bilhete, o precioso bilhete dos oitavos de final. Tinha um dos melhores lugares do estádio para ver o Portugal-Argentina. Enfim, adormeci a imaginar as jogadas do Deco e do Figo, o magnífico golo do Pauleta. A vitória portuguesa e a magia do melhor jogo...
Na manhã seguinte, ao acordar, estranhei o silêncio no hotel e, sobretudo, que não houvesse uma televisão no quarto. Em pleno mundial de futebol, um quarto sem televisão! Era peculiar!
Quando desci para o pequeno-almoço, esqueci o assunto. A sala de refeições estava vazia, excepto o casal de velhos e uma loura espampanante. A comida era magnífica. Regressei ao quarto e descansei. Sentia-me já em estágio para o grande jogo dessa noite, poupando energias.

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publicado às 19:05

Ninguém tem tudo (conto)

por Luís Naves, em 30.08.14

Ao tomar um banho de chuveiro pela manhã, o tipo escorregou e estatelou-se na banheira de forma catastrófica. No meio do pânico, transido de dores, pensou que já não iria sair à tarde e não poderia cumprir o compromisso que tinha marcado uma semana antes. A perna estava maltratada e foi um sarilho dos diabos levá-lo às urgências, onde ficou à espera umas horas, durante as quais se lembrou, por mero acaso, de telefonar a desmarcar o compromisso que exigiria tirar o carro da garagem e fazer-se à estrada; depois recebeu tratamento e após sofrer e gritar de forma patética, até as enfermeiras acharam exagerado, acabou por ter alta do hospital, sem precisar de internamento. Não tinha fracturas, mas as dores eram intensas e queixou-se durante uns dias da sua má sorte, que não fora toda má, mas ele não podia saber e vocês só sabem porque eu estou a dizer antes de tempo, na minha qualidade de narrador impaciente, daqueles que conhecem todos os pormenores da situação mas não são capazes de manter o interesse do leitor naquela interessante tensão entre o saber pouco e o querer saber mais.

 

 

 

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publicado às 19:39

O frio

por Luís Naves, em 30.03.14

O genocídio no Ruanda foi há vinte anos. Este conto tem talvez dez anos. A minha escrita mudou muito, mas julgo que a publicação deste texto pode ser oportuna:

 

 

A aproximação da noite ia formando em torno da cidade um halo protector que, reflectido na neve do chão, tornava quase fantasmagórica a luminosidade dos candeeiros públicos. Juvenal Ngeze sentia frio e, por isso, embrulhou-se ainda mais no sobretudo velho, repetindo o mesmo pensamento, como se fosse uma ladainha de hipnotismo que servia para o acalmar: Bruxelas é uma cidade rica e todos os seus habitantes são ricos. Avançou para a porta e ela tilintou. Ao entrar na pizaria, recapitulava mentalmente como eram ricos os habitantes. Passou pela porta dupla, depois pela cortina, que afastou com as costas das mãos, revelando-se à luz do interior. Pressentiu os odores do pão, mas acima de tudo o delicioso conforto de uma onda de calor, que o envolveu como se fosse o tranquilo sono de uma grande árvore perto de algum curso de água. Teve um arrepio, mas era de agrado. Depois, enquanto a temperatura da pele estabilizava, o africano ouviu todos os ruídos ao mesmo tempo e observou, com pormenorizada atenção, tudo aquilo que se espreguiçava à volta.

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publicado às 17:24

A testemunha (conto da semana)

por Luís Naves, em 18.12.13

Pouco depois, começou a falar. O agricultor Fonseca ouvia, mas distraído. O velho estava a lamentar-se com amargura, mas quem é que, por estes dias, não possui razões de queixa?
   − Tenho muito medo do que aí vem − disse o velho.
   Por um instante, o vizinho Fonseca saiu da sua distracção, lamentando não ter fixado na memória o que ele dissera antes daquela frase. As palavras finais tinham surgido de uma maneira um pouco diferente, como uma dor de alma que era apelo, aviso ou ameaça. Perguntou ao velho que era isso de ter medo, mas recebeu em troca um olhar de desprezo, quase de ódio. Insistiu, queria uma explicação, isto não anda fácil para ninguém, mas a resposta foi o silêncio e, por isso, ficou a matutar que o tom de voz usado tinha sido preocupante, não houvesse ali uma história mais complicada.
   Pelo menos foi isto o que o agricultor contou mais tarde ao comandante dos bombeiros; com aquele aparato todo na aldeia, parecia-lhe importante a frase que ouvira do velho e que fizera tocar as sinetas de alarme, embora sabendo que àquela conversa faltava o início, pelo que nunca as palavras ditas o tinham levado a algum sítio concreto, como aliás acontece com a maioria das conversas em cafés à hora de fecho. Que era isso de ter medo do que aí vinha, tio Jerónimo? Mas o velho ficara calado, a olhar para ele, talvez zangado, ao perceber que falara para uma parede e que essa parede não compreendera nada. E, de súbito, levando o copo à altura dos olhos, o velho dissera “à nossa” e bebera o último bagaço de uma só vez.
   − Mas ele andava preocupado com alguma coisa? − Perguntou o bombeiro.
   − Que eu saiba, não.
   − E o senhor contou a alguém o que ouviu?
   Fonseca respondeu que não e o bombeiro encolheu os ombros, subitamente desinteressado. Deu umas ordens: para que ninguém passasse uma linha imaginária que tentou desenhar com as mãos, pois tinham de esperar pela polícia. E assim se fez, esperaram pela polícia, que chegou quase uma hora depois. O corpo ficou todo esse tempo ali torcido, grotesco, à vista dos curiosos, a cara desfeita pelo tiro, de tal forma que já não se reconhecia o velho, senão pelas roupas.

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publicado às 19:41

Conto da semana: Nas vilas pequenas

por Luís Naves, em 13.12.13

 

Fazia tudo para que os outros o vissem como pessoa de grandes qualidades pois, no fundo, tinha medo que pensassem mal dele. Em certa ocasião, metera-se na política, mas se procurou ali o conforto do respeito, enganou-se redondamente. Escolhera mal o partido e isso valeu-lhe dissabores, quando se viu na oposição e, sobretudo, com menos clientela. A mulher, Leonete, convenceu-o a deixar-se dessas parvoíces, mas ele ficara com o bichinho da ambição, ideia que lhe fazia constante comichão na cabeça e que não conseguia de todo afastar do núcleo dos pensamentos íntimos: Figueiró era demasiado pequena para ele.
   Como é que eu sei disso? Sei porque fui seu confidente. Um dia, contou-me tudo sobre os fantasmas que o atormentavam. Tínhamos bebido em demasia; ele tinha, certamente, eu estaria mais sóbrio. Nessa noite, revelou-me o coração frustrado, mas só nessa ocasião. Em Joel, era como se houvesse uma mágoa mais profunda a dirigir as coisas.
   − Falhei em tudo, − disse-me ele.
   Embora a nossa amizade tenha sobrevivido àquela confissão, Joel nunca mais falou comigo com a mesma franqueza. Não podia ser de outra forma. É assim nos lugares mais pequenos: convém guardar tudo bem aferrolhado na alma ou um dia o mundo saberá das nossas mazelas.
   Quem venha de fora e passeie um bocado por Figueiró, ao fim de dez minutos estará a repetir ruas. A vila tem um jardim, a escola secundária nova e sem alunos, os correios, uma igreja com torre de sino e a câmara municipal. As casas são baixas, no máximo com dois andares, algumas com loja. As ruas mais compridas são as que acompanham as estradas de saída; uma delas desce para o vale e as casas andam coladas à estrada. Em Figueiró não há muito para fazer, excepto a missa de domingo, as horas passadas no café a ver a bola, a feira às sextas, os passeios no jardim.
   Joel fazia esta vida, arrependido de ter ficado na terra onde nascera. Havia meses em que ninguém aparecia no escritório de advocacia. Felizmente, não pagava renda e tinha as propriedades para gerir. Ao todo, oito nas redondezas, mais as quintas em outras duas aldeias, o que lhe dava rendimento suficiente. Embora se considerasse advogado, era na realidade um agricultor. Chegara a pensar lançar-se no comércio, mas desistira. Aliás, desistira de muitos entusiasmos anteriores.
   Algumas pessoas viam nele apenas o tipo fracassado, que prometera muito e fizera pouco. Quando não estava presente, aproveitavam para o desdenhar, pois havia também alguma inveja, ou antes, satisfação, pois a promessa esfumara-se e agora parecia mais um igual aos outros, a voar baixinho. Adivinhava-se esta sentença também na maneira como o calavam quando se lançava numa explicação qualquer. No passado, sobretudo na universidade, em Coimbra, ofendia-se facilmente com estas interrupções: ainda não tinha acabado a frase e já ouvia a objecção do interlocutor. Mal abria a boca, mal explicava a sua ideia, e já o contradiziam, quase sempre antes de poder explanar completamente o seu ponto.
   Na famosa confissão, com uns copos a mais, queixou-se muito disso: antes de casar com Leonete nunca se apercebera que a rapariga o interrompesse nas conversas. Talvez fosse cegueira temporária ou má avaliação, algo assim, mas o que verificou depois de casarem foi a incapacidade de terminar uma frase. Não houve transformação súbita, nada disso, apenas um daqueles processos lentos que ocorrem por vezes nos casamentos e que mudam as pessoas sem que elas possam sequer aperceber-se da mudança. No seu caso, Leonete perdeu devagarinho a beleza fulgurante que tivera antes da boda e ficou faladora e petulante. Joel tornou-se ensimesmado e deixou de se ofender quando alguém, desvalorizando a sua opinião, o interrompia.
   Agora, que tinha dois filhos, um rapaz de oito anos e uma menina de seis, a sua vida era tranquila e passava devagar. E, no entanto, Joel nunca deixou de se preocupar com aquilo que os outros pensavam dele. Era a sua principal fraqueza, ao lado da solidão pachorrenta e da insatisfação nas tardes frouxas, entre os muros limitados de Figueiró. Ele sentia ali o tempo desperdiçado em pequenos nadas e sonhos vagarosos, como se fosse água a correr na fonte.


 

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publicado às 18:58

Indignação

por Luís Naves, em 06.12.13

 

Ao sair de casa, logo de manhã, já a conspiração contra ele assumia contornos preocupantes. Três operários estavam a abrir uma vala no caminho, o que obrigava os habitantes do prédio a saltar quase um metro, o que não foi fácil no seu caso, mas lá conseguiu manobrar as muletas sem dar um malho no passeio. Um dos cavadores olhou na sua direcção com interesse e, pelo sorriso que lhe adivinhou no ar de gozo, o tipo estava mesmo à espera de ver um cidadão a estatelar-se. Parecia dizer: “É para isto que abrimos as valas no teu caminho”.
   Quando desatou a chover e o autocarro não chegava, foi crescendo no peito de Arlindo uma indignação poderosa. Era de propósito. Os motoristas faziam o caminho a pisar ovos, os outros passageiros colocavam-se na paragem em lugares estratégicos, para entrarem primeiro do que ele. E ninguém parecia notar as muletas que o sustentavam, o pé enfaixado, as mazelas que ainda tinha na cabeça, da sova da semana anterior. Pois, viam bem que ele estava inválido e, mesmo assim, ignoravam a triste realidade e tentavam meter-se à sua frente.
   Ainda pensou que era dia de greve, mas não era: o autocarro vinha uma lata de sardinhas. Lá apareceu na esquina o amarelinho pimpão, em câmara lenta, cheio de tempo e num vagar sorna. Os passageiros já colavam a cara ao vidro da frente, não cabia ali nem mais uma agulha. Mesmo assim, houve uns afoitos que se espremeram lá para dentro, mas Arlindo, sustentado nas duas muletas, só conseguia ver as costas dos heróis e, depois, pumba, fechou-se a porta.


 

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publicado às 19:10


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