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Tendências

por Luís Naves, em 19.11.17

O facto é que não sabemos para onde nos conduzem as tendências do século, só sabemos que todos os sistemas acabam em decadência, crise e estoiro, e esse pode ser o nosso destino. A inteligência artificial e a automatização do trabalho rotineiro vão destruir milhões de empregos, as liberdades e a moderação recuam nas sociedades avançadas e os excessos que levaram à crise de 2008 são já amplamente visíveis na nova euforia financeira, que pode muito bem ser uma bolha de ilusões em cima de uma gigantesca montanha de dívidas.

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publicado às 21:55

Dias de luto

por Luís Naves, em 02.07.17

A extraordinária hipocrisia da classe política portuguesa a que assistimos por este dias de luto não é muito diferente da profunda estupidez de uma elite mediática instalada no nevoeiro da sua ilusão de poder. Vivem ambos na mesma bolha que se afasta irremediavelmente do país, como se flutuasse numa jangada.

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publicado às 18:55

Sempre o mesmo

por Luís Naves, em 01.07.17

Há uma irrealidade em tudo isto: a negação das alterações climáticas e de uma floresta que está errada há 50 anos, desadaptada ao clima em mudança e à desertificação humana dos territórios. E em cada ano, o poder político comete os mesmos erros, refém de interesses obscuros ou na simples armadilha da estupidez humana, não sei ao certo, mas batemos com a cabeça na parede sempre da mesma forma, ignorando os conhecimentos da ciência, recusando as verdadeiras reformas da floresta, esquecendo o colapso evidente de um mundo rural que simplesmente já não existe. Desta vez, os erros foram acentuados por leis inúteis, pelos governantes mais preocupados com a imagem e ainda pela necessidade de praticar em larga escala as chamadas cativações orçamentais, única forma de emendar as ilusões que nos venderam de que a austeridade acabara. É assim em Portugal: estamos sempre a marrar com a cabeça nos mesmos problemas e as pessoas lúcidas são postas de lado pelos grandes medíocres.

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publicado às 18:44

A estupidez eleitoral

por Luís Naves, em 12.12.16

Os auto-denominados liberais tentam caricaturar as posições de Donald Trump sem perceberem que há nestas críticas um corolário inevitável: se o eleitorado é estúpido, então os sistemas políticos devem incorporar mecanismos que evitem o erro sistemático dos eleitores pouco informados ou que evitem a eleição de maus candidatos. Claro que as elites é que decidem o que é um erro ou um mau candidato e, aliás, controlam a informação. Ou seja, o liberalismo começa a defender o seu exacto oposto, não compreendendo que faixas substanciais da população pretendem desmantelar uma ordem liberal que consideram prejudicial para os seus interesses. A esquerda surge no debate com um argumento que lembra os tempos de 1974-75, quando o povo, marcado pelo fascismo e repleto de ingenuidade política, não podia usar o seu novo direito de voto (as organizações populares, os partidos progressistas e o Movimento das Forças Armadas eram considerados mais legítimos do que a Assembleia Constituinte eleita).

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publicado às 12:56

Fado crónico

por Luís Naves, em 07.08.16

Portugal tem vivido em sucessivos ciclos de expansão da despesa até ao estoiro, geralmente liderados pelos socialistas, com uma segunda fase de contracção sem reformas, sob condução da direita. A sustentabilidade das contas públicas tem sido o problema dos últimos quinze anos e deverá manter-se mais uma década: foi acumulada uma dívida brutal e, sem crescimento, o país não poderá suportar indefinidamente o peso dessa dívida; o crescimento depende em parte de reformas difíceis que permitam equilibrar os orçamentos. Os economistas andam a dizer isto desde o século passado e os políticos sabem que o problema nacional tem a ver com o excesso de despesa, mas o facto é que Portugal só muda por imposição externa. É o que acontecerá de novo. A geringonça não será mais do que um breve período de expansão orçamental e de aumento de impostos que vai rebentar um pouco à frente. O contexto do euro tornou o problema crónico mais difícil de gerir e os partidos parecem incapazes de organizar uma resposta que torne o país viável. A fragilidade do sistema partidário gera a paralisia institucional. Falta de coragem política para mudar a situação. Os partidos vivem da criação de intrigas artificiais e as discussões paupérrimas são de natureza ideológica, evitando-se sempre abordar a questão central. Os meios de comunicação tornaram-se cúmplices desta impossibilidade de fazer reformas e têm horror à ideia de renovação da classe política, pois alimentam algumas das personagens que criaram o próprio sistema em que vivemos: as televisões estão repletas de comentadores que nunca foram além de carreiras políticas medíocres. Falam como se tivessem sido grandes estadistas.

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publicado às 17:14

O sequestro da alegria

por Luís Naves, em 11.07.16

Portugal celebrou nas ruas, onde se acumularam multidões eufóricas. Buzinas, cânticos, danças, alegria, o esvoaçar de bandeiras, a explosão da cor no dia quente. Este povo, que as elites tanto subestimam, teve sempre nos momentos de adversidade a mesma coragem e resistência que a sua equipa de futebol mostrou em campo, quando tudo parecia perdido. Neste texto, o historiado Rui Ramos, notou com lucidez que assistimos ao “sequestro da selecção” pelos políticos, espectáculo embaraçoso que teve momentos de algum ridículo e mostrou o “desespero do regime”. Está a tornar-se um hábito: aquilo que a esquerda tanto criticou nos tempos do fascismo, os famosos três F (de fado, futebol e Fátima) são agora uma banalidade praticada pelos mandarins da nova ordem.

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publicado às 19:36

O mundo novo

por Luís Naves, em 19.01.16

As notícias deviam preocupar a classe política, mas julgo que a retórica vazia vai continuar mais ou menos na mesma. A economia mundial está em situação péssima e acumulam-se sinais de que a crise não acabou. Segundo a Oxfam, um grupo de apenas 62 pessoas tem rendimento semelhante a metade da riqueza mundial (em 2010, o número era de 338). Uma tal acumulação, acompanhada do empobrecimento efectivo de parte da população, terá necessariamente consequências políticas, por exemplo, tornam-se mais aliciantes todas as críticas ao processo de globalização. O facto é que os economistas já não conseguem explicar muito bem as razões da estagnação geral, como não conseguem explicar o nervosismo dos mercados, o petróleo barato, a falta de crédito, os problemas do sistema financeiro, as dificuldades da China e a irritação da classe média.

Em ambientes voláteis e de pânico, quem se põe a jeito torna-se alvo fácil e Portugal pode já estar a pagar a factura dos sinais que enviou de querer acabar com a estratégia de credibilidade e prudência que nos foi imposta durante o ajustamento. Vem aí nova vaga de colapsos financeiros e, com a crise migratória, a Europa entrou numa divisão interna, entre leste e ocidente, que pode ser pior do que o anterior conflito das dívidas soberanas (que, aliás, não está resolvido). O contexto em que Portugal se move ainda piora se tivermos em conta que a Espanha parece ingovernável. A nossa dependência é demasiado grande para nos tranquilizarem as cenas de delírio dos vizinhos. Em El-Rei Junot, um livro brutal sobre o falhanço das nossa elites, Raul Brandão escrevia que “a realidade é a força imensa que engendra o mundo novo”. Esta não era uma referência ao mundo novo das utopias lunares ou dos tempos imaginários de candidatos presidenciais com a boca cheia de palavras, era o mundo novo concreto em que teremos de viver, que pede às elites um juízo muito maior.

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publicado às 12:12

2016, a crise continua

por Luís Naves, em 31.12.15

Portugal não terá um ano fácil. No final de 2015, houve uma acumulação de tensões políticas como não se via desde os anos 80. Temos agora a bizarra situação de um partido de governo que perdeu as eleições de Outubro e que em certas votações cruciais para a credibilidade externa do país necessitará do apoio de um rival que tem mais deputados. O PS vai governar de forma precária, toureando à vez, à esquerda e à direita, conforme o tema. As trapalhadas serão constantes, as surpresas inevitáveis, e nem o apoio automático de uma comunicação social desligada da realidade poderá esconder as sucessivas crises.

As promessas da esquerda ameaçam inverter o que foi conseguido na redução da despesa pública e contas externas. As incertezas podem reflectir-se no crédito da república e esbanjar a rara oportunidade do petróleo barato e do financiamento a juros baixos. E, no entanto, é perfeitamente possível que a transição pantanosa dure mais de um ano, pois será punido nas urnas quem derrubar este governo minoritário antes que sejam visíveis os seus estragos.

As bolhas das elites políticas, empresariais, culturais e jornalísticas estão a rebentar, pondo fim às ilusões em que todos viveram. Os bancos serão comprados por bancos estrangeiros maiores e esse processo talvez já seja visível em 2016. Os jornais perdem leitores e triunfa uma cultura de banalização do superficial. A economia é pouco competitiva, as empresas precisam de capital, o desemprego tornou-se insustentável e a credibilidade externa depende de decisões que não controlamos, tomadas por burocratas da Comissão ou do BCE e por tecnocratas anónimos das agências de notação.

Dentro de semanas, nas eleições presidenciais, o país terá de fazer uma escolha entre estabilização e agravamento da instabilidade, sendo mais provável a primeira opção, com a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa à primeira volta. Marcelo é o candidato com mais probabilidades de conseguir introduzir um mínimo de bom senso neste disfuncional sistema político.

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publicado às 11:10

O pântano de Costa

por Luís Naves, em 25.10.15

António Costa criou um pântano e acha que o conseguirá gerir. Na realidade, este PREC light anunciado implica desenvolver um clima de crispação que nada tem a ver com o país. Utilizará agressividade retórica e postiça, tomará por reféns os eleitores e a economia, vai minar a autoridade das instituições democráticas e ameaça transformar o debate político numa gritaria tola, como já se vê nas redes sociais.

Vivemos num tempo de hipocrisia e adoração do efémero, onde os valores se esgotaram e já não passam de palavras esvaziadas, ao serviço de perdedores profissionais com sede de poder, que assim atraiçoam milhões de eleitores, devidamente aplaudidos pelos fracos de espírito e pelas claques devoradoras

O novo poder será precário, mas tentará usar a seu favor a reacção negativa dos credores europeus e dos mercados, levando a super-minoria do PS à segunda fase do plano: imitação do Syriza, com vitimização patriótica. Após seis meses de caos e de lusitânica bazófia, os socialistas tentarão culpar os outros pelo seu falhanço, fazendo-se eleger sobre ruínas. O plano parece perfeito, mas exige atirar borda fora a extrema-esquerda, algures num momento de maior drama, o que parece difícil, pois conta demasiado com a estupidez alheia.

Quatro anos de sacrifícios serão também malbaratados em poucos meses, o que revela irresponsabilidade e desejo infantil de vingança. Provavelmente, a corrida para o precipício terminará da pior maneira, com o PS irrelevante e cortado às postas, a economia de rastos, o país cansado da xaropada, talvez até com o segundo resgate à porta, o menu dos novos sacrifícios a ser lido, com ar severo, por uma troika qualquer. A ingenuidade de alguns, a cínica ambição de outros, a complacência e o espírito tribal conjugam-se desta forma perversa para lançar Portugal numa transição para nenhum futuro.

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publicado às 12:24

Tauromaquia política

por Luís Naves, em 14.10.15

Já não há paciência para esta tauromaquia política. Não sei se é teatro ou realidade, mas parece uma brincadeira irresponsável que tem por refém a vida dos outros. Quatro anos de sacrifícios podem ter servido para pouco e só apetece sair disto tudo, fugir da prisão dos factos, desta tristeza brutal em que vivemos, entre a impossibilidade e o tormento. O desrespeito pelo voto, o escárnio que merece o trabalho de décadas, o triunfo dos medíocres. A sociedade portuguesa, pelo menos na sua versão partidária, arrasta-se numa espécie de desesperança e vácuo, numa inaturável retórica de poder que repete com alegria os erros do passado e ignora parvamente as circunstâncias do presente. As negociações falhadas são manobras, dizem os peritos, mas as consequências batem à porta de cada um de nós. O juízo da classe política durou pouco tempo e regressam a instabilidade e a má liderança.

Se o líder socialista, António Costa, está a tourear a extrema-esquerda, dando falsas esperanças de querer formar um governo de ruptura com a austeridade imposta pela Europa, haverá no final do processo um milhão de eleitores com fortes razões de queixa. Se os socialistas estão a tourear a direita, o eleitorado do centro deixará de ter qualquer confiança num partido que foi crucial na construção da democracia portuguesa e que será irrelevante no futuro. Seja qual for o final da história, já perdemos, mas perderemos ainda mais com um hipotético governo de esquerda que pretende conciliar uma via europeia impossível, juntando na mesma equação a ruptura e a continuidade.

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publicado às 10:03


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