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Camilo e a mesa

por Luís Naves, em 26.05.17

Dos quase 200 títulos de Camilo não se extraem muitos elementos sobre as funções básicas da natureza humana. É difícil, por exemplo, perceber como é que as pessoas se lavavam ou o valor relativo de um objecto, em comparação ao salário de um camponês. Esse tipo de informação pode extrair-se da obra de Balzac, mas no caso de Camilo é difícil, pois sabemos a renda das quintas sem sabermos coisas menores, por exemplo o custo de uma galinha ou o preço de um fato.

Há referências a gastronomia, mas têm geralmente uma função narrativa. Estou a lembrar-me de uns pastéis em A Brasileira de Prazins ou das opíparas refeições do falso D. Miguel no mesmo romance: aquilo serve como comédia. Há referências a glutões e a banquetes, um piquenique em Coisas Espantosas, ocasionais autênticos petiscos nas miscelâneas, mas na maioria dos livros de Camilo não encontramos qualquer referência a refeições; quando estas existem, as cozinheiras são trabalhadoras do povo mais interessadas em sexo (Anátema).

O provinciano Camilo desconfiava das novidades da culinária francesa, veja-se esta passagem de O Sangue: “Quem come francêsmente cria alma; corpo é que não. Aquele magro molho em que bóiam cascas farináceas não entulha os ductos da intelectualidade. A víscera vital por excelência não escoiceia o vizinho de cima, como sucede nos casos em que o esófago arfa sacudido pelo estômago repleto de fibrina. O coração agita-se docemente quando o novo quilo se está elaborando”. Enfim, o escritor não acreditava nas subtilezas dos sabores, mas apenas no coice intelectual da proteína, nas virtudes substantivas do colesterol e, acima de tudo, na luxúria da linguagem e do estilo.

Em O Santo da Montanha, há duas cenas à mesa, mas a primeira serve para o encontro entre as personagens, a segunda para a tragédia, com uma descrição alimentar pouco abonatória. Neste romance, a comida que surge na primeira refeição parece antecipar a desgraça futura das personagens, quando os leitores ainda não sabem que se trata de uma história de ciúmes assassinos: “Abancados à tosca mesa, cuja toalha tresandava ao fartum do azeite e bacalhau, apareceu a travessa fumegante com duas galinhas, sobre as quais se levantava uma pirâmide de três salpicões, assentes num grosso lardo de toucinho”. A descrição tem um elemento substancial, doentio, e uma intenção repugnante (não quero exagerar, mas talvez isto seja uma alusão inconsciente ao horror do sexo), como se houvesse aqui um aviso do escritor para as personagens se afastarem umas das outras, pois nesta altura ainda vão a tempo de o fazer.

Podia referir outros exemplos onde a comida tem função narrativa, caracteriza a classe social das personagens, introduz um momento de humor ou é mera decoração de uma cena burguesa. Camilo está longe de se interessar por gastronomia ou culinária. O que explica a aparente abundância de referências a comida é sobretudo a dimensão invulgar da obra, sobretudo dedicada à violência, ao amor, à maldade, hipocrisia, enfim, às paixões e ao destino.

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publicado às 15:40

Antigamente

por Luís Naves, em 22.04.17

Antigamente, era fácil para um romancista colocar duas personagens a conversar uma com a outra. Os estranhos encontravam-se em viagens longas, por exemplo, de comboio, ou melhor, de navio, forçados ao convívio inevitável numa paisagem calma (o convés, os camarotes ou a estalagem onde se pernoitava), tornando-se credível que alguém ali contasse uma história ou desvendasse a sua intimidade a outro que não voltaria a ver. Na vida contemporânea, não se imagina que dois estranhos conversem numa simples viagem de avião, onde estamos a ser constantemente interrompidos pelos anúncios dos tripulantes, muito menos numa viagem de comboio (essas ficaram tão curtas) ou num aeroporto, com a confusão impessoal destes lugares e a desconfiança obrigatória. Sim, passamos o tempo todo naquelas barreiras de segurança, num stress horrível; seria estranho e suspeito que dois desconhecidos conversassem longamente, o suficiente para se contar uma história: desculpe, tenho de atender este telefonema, o meu voo já está a ser anunciado, não tenho tempo a perder, o portão é longe, adeuzinho, tive prazer em conhecê-lo, sei que jamais o verei na minha vida e podia contar-lhe tudo o que preciso de desabafar, mas nem sequer fixei o nome do país de onde vem, ainda bem que conversámos estes dez minutinhos, a ponto de já não me lembrar de alguma coisa que tenha dito, afinal, não se diz muito nos primeiros dez minutos de uma conversa, não é assim? Como colocar dois desconhecidos a contar histórias um ao outro? Dois bêbados num bar de uma cidade exótica? Duas pessoas à espera do metropolitano, na plataforma cheia de outros passageiros exasperados com as dificuldades na circulação? Dois estranhos que acabaram de assistir à mesma extraordinária partida de xadrez? Uma mulher que tenta ganhar tempo, encantando um serial killer com histórias fabulosas?

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publicado às 15:53

Liberdade

por Luís Naves, em 20.04.17

Na novela Um Cavalo em Fuga, do escritor alemão Martin Walser, encontrei esta extraordinária frase: “Que grotesca é a pequenez do presente, confrontada com o passado”. Walser é um escritor famoso na Alemanha e relativamente desconhecido em Portugal (escapa-nos tanta coisa). Deste autor, foi traduzido este Cavalo em Fuga, livro sobre o conformismo e a aceitação da banalidade, a tal “pequenez do presente” que vemos instalada na nova medianocracia ou tirania da classe média, caracterizada pela passividade e a condescendência. Walser baseia-se na ideia de que temos medo da contestação e da diferença, do desvio e da pequena liberdade quotidiana; temos inveja do espectáculo da felicidade nos outros e simulamos o nosso próprio contentamento, mas com raiva e ódio. Junto a anotação de outra leitura sobre a liberdade, Nós, de Ievgueni Zamiatine, escritor soviético que deixou de ser publicado na URSS em 1929, e que conseguiu emigrar para o Ocidente em 1932, com ajuda de Maxim Gorki. Este livro foi um êxito em Inglaterra em 1924 e tornou-se a semente literária de outras distopias famosas, como 1984, de George Orwell. Muito imaginativo, Nós era uma devastadora crítica à utopia comunista, nomeadamente à noção de fazer tábua-rasa da decadente cultura burguesa: na sociedade futura imaginada por Zamiatine, o maior monumento sobrevivente da antiga literatura era O Horário de Todos os Caminhos de Ferro.

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publicado às 12:28

O mérito é o movimento

por Luís Naves, em 08.01.17

Nos Cadernos de Albert Camus há uma frase sobre literatura cuja ideia (ou o que interpreto da ideia) não me sai da cabeça: “O escritor só é comprometido quando quer. O seu mérito é o movimento”. A frase surge numa entrada destes cadernos que julgo ser uma reflexão sobre a intervenção política dos escritores. Será isso um dever ou, pelo contrário, um equívoco? Camus não nos dá uma resposta clara, nem sequer algumas pistas. A explicação estava certamente na cabeça dele.

Os Cadernos reúnem reflexões não destinadas a publicação, com pequenas anotações sobre o trabalho do romancista, sobre os ensaios filosóficos, incluindo entradas com observações da realidade que poderiam ser mais tarde utilizadas em artigos ou obras de ficção. Não é um diário, mas a pequena oficina do autor, para registo das suas ideias. “O escritor só é comprometido quando quer”. Parece evidente, isto vem de uma frase anterior: “Gosto mais dos homens que tomam partido do que das literaturas que tomam partido”. Enfim, parece óbvio, as escolhas políticas do escritor partem da sua consciência e são matéria exclusiva de escolhas individuais.

A segunda frase é o bom enigma: “o seu mérito é o movimento”. Será que significa ‘o que o escritor faz melhor é criar movimento’? Sendo essa a interpretação correcta, julgo que é uma óptima definição de literatura, porque se o texto não se move na imaginação do leitor, estará inanimado. Ou regressando a uma frase mais antiga dos Cadernos: “Os maus escritores: aqueles que escrevem de acordo com um contexto interior que o leitor desconhece”.

O que será então a má escrita? A que não consegue produzir movimento na mente do leitor.

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publicado às 15:51

Algumas reflexões

por Luís Naves, em 06.01.17

Não há escritas inocentes. É um fracasso não conseguir abordar temas tabu. Nenhum escritor está fora do seu tempo, excepto quando imita outro. É uma ilusão julgar que o passado tem mais acontecimentos do que o presente.

Estas são algumas ideias de George Orwell, que fui reunindo, de forma avulsa e sem aspas, da leitura dos seus ensaios. Usei palavras minhas, mas as ideias são dele. Dito de outra forma: toda a escrita é política; o verdadeiro fracasso do escritor é não ter a coragem para falar do que lhe parece ser essencial; nenhuma prosa sincera está fora do seu tempo; conhecemos melhor o presente e devemos escrever sobre aquilo que conhecemos.

Adiciono a estas reflexões uma curta definição de Giacomo Casanova, esse grande escritor europeu, a justificar a escrita das suas memórias: “Digna ou indigna, a minha vida é a minha matéria; a minha matéria é a minha vida”. E, já agora, a primeira anotação de Albert Camus para O Estrangeiro, incluída nos Cadernos. O mecanismo inicial do romance, a faísca, não é mais do que esta frase curta: “Até que ponto foi estranho à sua vida”.

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publicado às 15:47

Estranha Forma de Vida, de Enrique Vila-Matas

por Luís Naves, em 27.08.16

O narrador desta novela, um escritor a quem chamam Cyrano por ter o nariz comprido, está a escrever um tríptico realista sobre os deserdados da vida e vai observando os vizinhos da sua rua de Barcelona, enquanto imagina os detalhes de uma conferência sobre a ‘estrutura mítica do herói’, cujo tema, por razões amorosas, pondera alterar para ‘a condição do espião inerente à do escritor’. Em estilo fragmentado e pós-moderno, Vila-Matas constrói um fio de pequenas histórias cheias de imaginação, com personagens divertidas ou inquietantes. O narrador não parece levar demasiado a sério as suas divagações. Há sempre referências a outros livros ou a filmes: Graham Greene surge numa passagem que mais parece retirada de um sonho; em outro caso, a personagem é Salvador Dali, naquilo que parece ser uma história verídica ouvida pelo autor e ‘aproveitada’ naquele contexto; há ainda um episódio que lembra um filme de Alfred Hitchcock e outro talvez inspirado num conto de Nabokov, sobre um barbeiro empunhando a navalha, que passa pela garganta de alguém à sua mercê; há ainda a ideia bem conseguida de uma interferência telefónica que dá origem a certa conversa absurda.

Os malabarismos pós-modernos podem parecer por vezes artificiais, mas dão um tom irónico ao texto e facilitam o fluxo narrativo. O autor é um mestre do disfarce, escondendo ideias elaboradas num quotidiano de aspecto banal: “Uma vez que Deus não existe, uma vez que não acreditamos que alguém nos observa, a nossa vida carece de finalidade”, admite o narrador, numa reflexão bem mais profunda do que parece. No fundo, o escritor observa, como faz o astrónomo, como faz o espião.

Quem assim vigia tem de ser discreto, invisível, Vila-Matas consegue criar um microcosmos de personagens variadas, sobretudo trágicas, que Cyrano decide abandonar num momento de chuva, a favor das personagens da imaginação: “Senti-me absolutamente infeliz, um cobarde, um moderno, um homem sem guarda-chuva, o triste herói do nosso tempo”. O título poético adoptado a Portugal sugere que este universo novelesco e vagamente humorístico obedece a uma espécie de fado, com as personagens presas ao destino, condenadas a interpretar-se nos seus papéis fixos, permitindo-se apenas devaneios, pequenas rebeliões onde, apesar de tudo, ficam reduzidas à anónima espionagem do real. Por tudo isto, é pena que as referências a Portugal nesta novela sejam decepcionantes e folclóricas, servindo apenas para justificar o título, Estranha Forma de Vida, que o autor encontrou num disco de Amália Rodrigues.

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publicado às 09:54

Arco do Triunfo, de Erich Maria Remarque

por Luís Naves, em 22.08.16

O autor deste romance foi ele próprio refugiado em fuga da Alemanha nazi. Remarque era uma celebridade internacional, autor do clássico A Oeste Nada de Novo. A fama permitiu-lhe fugir para os Estados Unidos e publicar ali este Arco do Triunfo, que garantiu vendas astronómicas e outra adaptação ao cinema: o filme, de 1948, foi interpretado por Ingrid Bergman. O romance, cuja história decorre em 1939, ajuda-nos a ver com outros olhos o tratamento dos refugiados que tentam hoje em dia chegar à Europa: o nosso tempo, com todas as suas limitações, é bem mais generoso do que aquela época brutal.

Arco do Triunfo tem alguma repetição de ideias, há por ali personagens secundárias dispensáveis. Remarque procurou escrever um romance sobre a experiência dos refugiados, mas exagerou na dose da história romântica que atravessa o livro. O autor alemão fora bem mais eficaz numa obra de 1939, Desenraizados, sobre os apátridas que percorriam a Europa em fuga das perseguições raciais e políticas do regime nazi. O anti-semitismo, o oportunismo e a indiferença das populações são ali descritos de forma muito crua. Também serviu para o cinema (nunca vi), com o título So Ends Our Night, de 1942.

Arco do Triunfo tem certa dispersão da intriga, concentrada no amor entre o herói, um médico alemão refugiado em Paris, que usa nome falso, e uma mulher misteriosa cujo suicídio ele impede na cena inicial. Essa paixão ocupa dois terços das páginas, mas resulta em excesso de sentimentalismo e diálogos que insistem no mesmo tom. Provavelmente, Remarque cedeu um pouco ao gosto da época, por isso o romance vale muito mais pelos detalhes, as pequenas histórias dentro da história, os minúsculos golpes de asa que surgem nas reflexões da personagem principal, refugiado não judeu que foi também soldado alemão na Primeira Guerra, tal como aconteceu com o autor.

O melhor vem no fim, numa história secundária (concentrada no terço final) sobre uma vingança. São páginas brutais, no duplo sentido de violência e precisão. Na realidade, trata-se de um homicídio perfeito, executado sem remorsos. A grande literatura está provavelmente ligada à sinceridade de quem escreve, sobretudo quando este, sem querer, nos transmite o mais profundo das suas raivas, dos seus ódios e medos. Por isso, a parte deste romance que mais nos perturba é a que tem menos fantasia: diz respeito ao desespero dos refugiados que se arrastam no limbo legal, à espera da prisão e deportação ou da passagem para um paraíso terrestre inacessível. Poucos deles têm esperança em escapar (as situações de injustiça são ainda mais poderosas em Desenraizados). À medida que se aproxima a guerra com os nazis, os ‘sales étrangers’ transformam-se progressivamente em ‘sales boches’. (‘Mas somos judeus’, diz uma senhora que ainda não compreendeu).

“Nada retoma a forma antiga”, afirma outra personagem, para sublinhar que o passado nunca voltará: os refugiados são enganados nas contas, são roubados e explorados, não podem trabalhar nem podem ter vidas normais. Arranjam biscates, são fantasmas, vendem quadros da família. O médico, por exemplo, é preso quando tenta salvar a vítima de um acidente. E estas não são pessoas de uma cultura estranha, pelo contrário, são europeus privilegiados, podiam ser aceites na sociedade francesa, mas só recebem desprezo. Na sua obra desta fase do exílio, Remarque fala-nos do verniz fino da civilização, da frágil estabilidade de cada existência, de como uma vida confortável e feliz se pode tornar de súbito numa situação precária, infernal, repleta de regras incompreensíveis e de perseguições sem saída. O livro é um triunfo de pequenas histórias de duas linhas: muitas destas observações curtas foram certamente tiradas da realidade, narrando o labirinto sem escapatória dos que caminhavam como cordeiros para o extermínio. 

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publicado às 19:41

A morte do romance burguês

por Luís Naves, em 14.08.16

Nos romances burgueses do século XX era frequente surgir um tom convencional de boas famílias e de uma existência segura. Nestes livros, as personagens masculinas são geralmente fortes e confiantes, as mulheres nunca conseguem ser ridículas, são sempre enigmáticas, etéreas, mas nunca palermas; os homens dizem coisas profundas, jamais com sentido de humor; elas são trágicas e belas, desprovidas de grandes ideias, mas sem qualquer defeito da verdadeira humanidade, nem sequer uma pestana torta. As mulheres dos romances da época têm outra característica: generosa tendência para a devassidão moral. A burguesia do século XXI é muito diferente, confunde-se com a classe trabalhadora e foi proletarizada. As mulheres emanciparam-se, mas são infelizes e solitárias. Os homens têm angústias profundas e vivem existências sem sentido. O romance burguês está morto, pois já não há personagens em casamentos convencionais, com empregos rotineiros e situação financeira estabilizada, já não há pequenos empresários nem pequenas ambições, já não há pequenos adultérios nem pequenos sonhos burgueses.. 

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publicado às 12:25

Mocidade, de Joseph Conrad

por Luís Naves, em 13.08.16

Muitos exemplos de grande literatura são textos curtos sobre temas simples, mas que escondem uma profunda complexidade. É o caso deste conto de Joseph Conrad. Mocidade terá sido um esboço para a obra-prima do autor britânico de origem polaca, O Coração das Trevas, publicado um ano depois, em 1899. O narrador é o mesmo nos dois textos, Marlow, também o narrador de Lord Jim. O escritor usa no conto e na novela o mesmo esquema narrativo, de alguém que conta uma história antiga aos amigos. Mocidade é uma história de homens fracassados, que executam com valentia uma viagem cheia de obstáculos. O texto está repleto de pequenas observações certeiras sobre as personagens, por exemplo, “um homem que tivera, tinha ou esperava ter desgostos”, e descreve em tom nostálgico os perigos que mudam uma vida. Conrad fez aos 21 anos uma viagem parecida com a que descreve, num velho navio fustigado por tempestades, vítima da combustão espontânea da sua carga de carvão, incluindo a explosão quase catastrófica e a propagação imparável do incêndio, culminando no abandono do navio perdido.

Num plano mais simbólico, há neste texto uma metáfora do mal que nos acompanha, que se esconde no porão da sociedade e cuja superação é o verdadeiro triunfo. É pelo menos assim que Marlow olha para aquele episódio: “Para mim era o esforço, a prova, o julgamento da vida” o mais importante, ou, como escreve mais à frente, “a convicção triunfante de termos força, o calor da vida numa mão cheia de pó, aquela chama do coração que ano após ano esmorece, esfria, encolhe até se apagar de todo...e se apaga cedo, muito cedo... antes da própria vida”. Em Mocidade, temos a prova da vida, a superação da juventude, o combate contra o fogo escondido que arde no interior do navio condenado. Os homens revelam-se na adversidade, na coragem sem glória, na suave crença do humano, nas marcas do tempo que vão apagando a chama do coração.

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publicado às 12:35

Biblioteca do Neversink

por Luís Naves, em 09.08.16

À colecção de uma editora americana foi dado o nome de ‘Biblioteca do Neversink’, referência extraída de Herman Melville, sobre a biblioteca de um navio de ficção. A ideia é a seguinte: os livros mais agradáveis que lemos são geralmente os que encontramos por acaso. Li vários livros desses, brilhantes, esquecidos, menos famosos do que tantos outros, mas igualmente fascinantes. Encontrei por acaso um romance em que penso muitas vezes, Apepe, de Ferenc Karinthy, que não existe em português, mas podia citar outros: Coming Up for Air, de George Orwell, que julgo não estar editado em Portugal; Enviado Especial, de Evelyn Waugh, uma divertidíssima sátira sobre jornalismo; ou ainda Jogo da Cabra Cega, de José Régio, obra-prima infelizmente esquecida e que também encontrei por acidente.

A minha biblioteca do Neversink tem volumes de Laszlo Krasznahorkai, Dino Buzzati, Joseph Roth, Raul Brandão, Paul Bowles, Vergílio Ferreira, Romulo Gallegos, tem um Dostoievsky dos menos citados, ganhou agora este Definitely Maybe, a história de um cientista soviético que, à beira de uma grande descoberta, e por qualquer razão misteriosa, é interrompido por toda a espécie de peripécias parvas, ruídos insistentes e personagens ambíguas.

Os dois autores são famosos na ficção científica, mas esta sua obra supera o género. Os irmãos Strugatsky usam todos os mecanismos populares, com referências de cultura e diálogos de qualidade acima da média. O ritmo e o suspense obrigam a continuar a leitura, encontramos personagens cómicas e cínicas, subtis críticas políticas e também é usado o mecanismo das histórias de espionagem, com pistas falsas e cambalhotas lógicas que enganam o leitor à maneira do grande John Le Carré, que é expressamente citado.

Em Portugal, o livro foi publicado nos anos 90, com título Até ao Fim do Mundo, numa colecção de ficção científica da Europa-América. Teve, por isso, dificuldade em encontrar os seus leitores. Para os fanáticos do género, será demasiado intelectual e de alguma forma decepcionante, pois dispensa os lugares-comuns habituais da ficção científica, que geralmente é uma forma de fantasia onde a realidade está cuidadosamente disfarçada. Para quem não aprecia este tipo de literatura, Até ao Fim do Mundo tem tudo: inteligência, ideias, modernidade, simplicidade na estrutura e no estilo, com o brinde inesperado de colocar um sorriso permanente na cara do leitor agradecido. O romance é também um bocadinho mais subversivo do que parece. Questiona o domínio do politicamente correcto, especula em torno do tema das conspirações, dos poderes ocultos e do respectivo controlo do pensamento. Coloca o problema da resistência fútil e explica como a desistência pode ser uma tentação. Estará mesmo uma super-civilização a interferir no desenvolvimento científico da humanidade? Tudo indica que sim, mas nas certezas convém colocar um talvez. O facto é que se tornou difícil pensar: somos constantemente interrompidos por minúsculas preocupações da vida contemporânea. Este livro, escrito numa sociedade onde havia o peso do sistema político totalitário, é hoje compreensível para todos os contemporâneos da pouco poética era da internet e dos telemóveis.

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publicado às 09:37


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