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O que está a acontecer

por Luís Naves, em 17.04.17

Não há memória de uma ocasião em que, no espaço de apenas seis meses, tenham mudado radicalmente as lideranças de três potências do G-7, mas é o que está a acontecer. Depois da substituição do primeiro-ministro britânico, na sequência do referendo sobre Brexit, e da eleição de Donald Trump, as eleições francesas resultarão na terceira mudança consecutiva nas chefias das grandes potências ocidentais. Se passarem à segunda volta das presidenciais francesas, os candidatos François Fillon e Emmanuel Macron deverão ser eleitos (ou um deles, na hipótese mais improvável de ambos passarem à segunda volta) com a promessa de fazerem reformas, mas existe a possibilidade palpável de ocorrer uma viragem mais radical: a passagem à segunda volta de um de dois candidatos (Jean-Luc Mélenchon ou Marine Le Pen) é uma possibilidade evidente, sendo ainda possível um duelo entre ambos. Se um deles fosse eleito presidente, a União Europeia, tal como a conhecemos, seria posta em causa e acordaríamos, dia 8 de Maio, num mundo ainda mais diferente daquele em que já vivemos.

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publicado às 19:38

E se acontecer o pior?

por Luís Naves, em 06.04.17

Faltam três semanas para a primeira volta das presidenciais francesas e, tendo em conta a elevada proporção de indecisos, as sondagens devem ser lidas com um grão de sal (no mínimo), mas o facto é que dizem todas mais ou menos o mesmo: o jogo não está decidido e há uma mudança na recta final. Os debates na televisão podem ter sido importantes, pelo menos no caso de Jean-Luc Mélenchon, candidato radical de esquerda, e de François Fillon, de centro-direita, que parecem ter beneficiado nos confrontos. Ambos estão a subir nas sondagens, embora ainda na zona de exclusão da segunda volta. Tudo indica que exista uma relação directa entre o voto em Mélenchon e o voto no candidato socialista, Benoit Hamon. Quando um sobe, o outro desce na proporção equivalente. Se olharmos para os inquéritos, verificamos facilmente que a soma dos dois é consistente, em torno dos 25 ou 26% das intenções de voto. Sendo assim, um socialista que considere o seu candidato derrotado, tenderá a votar útil, ou seja, no candidato mais semelhante ao seu. Mélenchon tem, assim, boas hipóteses de atingir 22-23%.

O mesmo raciocínio pode ser usado para François Fillon e Emmanuel Macron. O republicano e o centrista disputam a votação moderada, sobretudo na direita, já que Macron parece ter a preferência dos partidos centristas (que são pequenos) e dos socialistas moderados. Durante semanas, Macron atraiu o voto de republicanos desiludidos (por causa do escândalo dos empregos fictícios), mas o facto é que este eleitorado não ficou convencido e não haverá voto útil. A soma dos dois candidatos é consistente, em torno de 42-43%, sendo admissível que a coisa se divida irmãmente, o que daria a cada um algo como 21%, ou um pouco mais. O terceiro bloco de votos escolhe Marine Le Pen e desceu ligeiramente por causa dos debates, mas este eleitorado está mais do que convencido. A candidata terá, na pior das hipóteses, 22 ou 23%. Tendo em conta as margens de erro, a admitir a transferência de votos no eleitorado de esquerda e a recuperação por Fillon dos republicanos que Macron não convenceu, é fácil admitir que qualquer um destes quatro candidatos pode seguir para a segunda volta, incluindo-se aqui o cenário catástrofe de um eventual duelo entre Mélenchon e Le Pen, que daria à França a certeza absoluta de eleger um péssimo presidente.

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publicado às 16:17

Incógnitas francesas

por Luís Naves, em 06.03.17

A situação complica-se em França. O candidato republicano François Fillon continua em queda nas sondagens e parece mais longe de passar à segunda volta, quase garantindo que na corrida final estarão Marine Le Pen e Emmanuel Macron: a primeira é uma populista de extrema-direita, o segundo um político jovem e nunca antes testado, cuja maior glória é uma lei laboral que grande parte da esquerda contestou. A eventual vitória de Le Pen será o fim da União Europeia tal como a conhecemos; se Macron vencer, será preciso que ganhe também as legislativas de Junho, algo difícil para quem não dispõe de máquina partidária. Não estou a ver os eleitores comunistas ou da esquerda radical a votarem facilmente num candidato com discurso neoliberal puro e muita retórica à maneira de Obama, apoiado pelas elites financeiras do país e pelos meios de comunicação tradicionais. Le Pen não precisa de ser eleita para o Eliseu, basta-lhe ter mais de 40% na segunda volta para fazer tremer todo o sistema: depois, a líder da Frente Nacional tentará segurar esta votação para as legislativas, sabendo que dificilmente Macron terá o mesmo êxito, pois muitos dos seus eleitores votarão em candidatos republicanos ou socialistas, em muitos dos combates a três nos círculos uninominais. A partir de certo patamar, os cordões sanitários já não funcionam.

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publicado às 15:40

Europa, Europa

por Luís Naves, em 04.03.17

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, publicou esta semana um documento de reflexão sobre o futuro da Europa a 27, o chamado Livro Branco, que pretende balizar a discussão sobre o formato da UE em 2025. Tem cinco cenários de futuro: continuidade; recuo para o mercado único; Europa a várias velocidades; reforço da integração num núcleo central de problemas; e fuga para uma organização federal, prevendo, entre outras inovações, a união europeia de defesa, expansão significativa do orçamento comunitário e coordenação em questões sociais.

O que se pode criticar no documento não é a definição de cinco cenários, mas o que a Comissão decidiu escrever sobre cada um deles. Leia-se com atenção o texto, sobretudo a tabela da página 29, e percebemos com clareza o que Bruxelas pretende defender, ou seja, o cenário cinco, o que lhe dá mais poder, de onde se recuará para o quatro, e deste para o três, se for impossível convencer a opinião pública.

Na hipótese federal, com título inócuo de ‘fazer muito mais todos juntos’, é tudo fantástico ou, na pior das hipóteses, idêntico ao cenário 4, à excepção da capacidade de realização, que é afinal uma função da vontade política. Se caminhar para o cenário 5 ou 4, a UE fará acordos comerciais em nome dos 27 e normas europeias para políticas onde estas ainda não existem (energia, trabalho, serviços); haverá uma agência para gerir os pedidos de asilo e um fundo monetário europeu controlado pelo parlamento europeu; a união económica e monetária será concluída (acabando de vez com a autonomia orçamental dos países), o orçamento será reforçado; enfim, teremos uma só voz na política externa, guardas de fronteira europeus, até talvez defesa comum.

Não sei em que bolha habitam estes políticos, mas não devem estar atentos às eleições francesas. Considerando as sondagens sobre a primeira volta, 40% do eleitorado prepara-se para votar em candidatos (Le Pen e Mélenchon) que defendem a saída do euro; na Holanda, a proporção não é muito inferior.

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publicado às 18:54

Quem conduz o processo?

por Luís Naves, em 20.09.16

Este texto de Wolfgang Munchau no Financial Times, traduzido para português no DN, tem muita matéria para reflexão. Quando o autor menciona os países mais atingidos pela redução de rendimentos na crise, esquece-se de Portugal, quando fala do crédito malparado esquece-se de Portugal, quando escreve sobre as más lideranças esquece-se de Portugal. Esta é uma visão alemã da Europa, uma visão crítica, é certo, mas sobretudo alemã, pois exclui tudo o que é pequeno e menor.

“O grau de integração já não é determinado por aquilo em que se acredita, mas por aquilo de que se precisa”, escreve o autor. Os líderes fracassaram em toda a linha e é feito um elenco impressionante de erros que mais não foram do que reacções atrasadas a eventos que deviam ter tido outra resposta; e, no entanto, apesar de reconhecer o fracasso, Munchau olha para a discussão de Bratislava sobre o futuro da Europa como mera distracção do essencial, não como ciclópica confirmação do alheamento e cegueira que atingiu estas velhas lideranças europeias, todas em transição e de mãos atadas.

O artigo é pessimista e o autor considera que os protestos dos eleitores europeus têm origem nas dificuldades económicas, o que está longe de ser evidente. A propósito do Brexit, e como consequência, referindo-se ao futuro da Europa, Munchau conclui que “agora, são os eleitores que conduzem o processo”, quando o Brexit pode ser interpretado como manifestação do inverso: os eleitores não andam a conduzir coisa alguma, muito menos o processo de integração, por isso votaram contra algo que julgavam não controlar, esta forma de integração europeia.

Para onde vai a Europa? Este inteligente artigo sugere que a UE vai na direcção de novas crises financeiras, com os bancos alemães carregados de produtos tóxicos, os italianos de crédito malparado, alguns países sem crescimento suficiente, outros afectados pelas taxas de juro negativas. A zona euro desmorona-se, mas não há partidos de poder a dizerem o que pode ser feito, que nos expliquem o que é isso de mais integração e que consequências terá para os trabalhadores comuns e, sobretudo, para a autonomia dos pequenos países. Haverá mais integração? É o mais certo, mas está longe de ser claro o que é que isso implica para eleitores que, sendo afectados pelas decisões da Alemanha, não participam nas respectivas escolhas políticas. O mesmo é válido em sentido contrário: acham que algum contribuinte alemão aceitará pagar, por intermédio de eurobonds, dívidas contraídas por um governo português refém de infantilidades trotskistas? Tirem o cavalinho da chuva. As crises implicam menos liberdade para governos nacionais e os seus arranjos internos. Um dia, acordamos com governos tecnocráticos, sem margem de manobra, seremos uma simples região pobre de uma Europa rica.

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publicado às 11:45

Os eurocratas

por Luís Naves, em 17.09.16

No final da Cimeira de Bratislava foram ditas as habituais palavras de circunstância, naquela língua de pau que se tornou típica da eurocracia. A única ideia da cimeira foi a de reforçar a segurança e a defesa, pelo menos ideia transmitida em público, pois a transparência nunca foi o ponto forte destes encontros. A discussão sobre o futuro da Europa pós-Brexit ainda agora começou e certamente não será finalizada pelos mesmos protagonistas que a iniciaram. A Europa confronta-se com o fracasso da sua gestão da crise das dívidas soberanas, que criou um fosso entre Norte e Sul, e com o falhanço clamoroso na crise das migrações, que causou uma divisão entre Leste e Ocidente. A isto junta-se um conflito antigo entre federalistas e soberanistas, além da mais recente subida dos partidos populistas, que ameaça o equilíbrio tradicional entre liberais, social-democratas e conservadores. A União Europeia terá provavelmente de fazer um recuo temporário nas suas ambições e esperar o aparecimento de uma nova elite, de outra geração, com ideias frescas. Afinal, este é um mercado gigantesco, com 500 milhões de consumidores, ao qual o Reino Unido continuará a pertencer. A Europa de hoje é também uma aliança de países democráticos como nunca houve outra, com os seus problemas, é certo, sobretudo a poderosa consciência de declínio irreversível, que é infelizmente a única ideia mobilizadora que persiste. As elites fracassaram? É evidente, e a sua substituição será natural e vantajosa.

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publicado às 10:21

A crise da liderança

por Luís Naves, em 16.09.16

A Europa iniciou oficialmente a discussão sobre o seu futuro, numa cimeira em Bratislava onde eram mais do que evidentes as divisões entre grandes blocos de países. Esta reunião não contou com a participação do Reino Unido e, pelo menos na agenda, destinou-se a discutir os efeitos do Brexit. O ambiente de crise na Europa começa nas próprias lideranças, pois os dirigentes dos maiores países da UE encontram-se todos em situação complicada: a chanceler alemã está a ser contestada no seu próprio partido e pelos aliados democratas-cristãos bávaros (CSU) por causa da política de imigração; o Presidente francês tem perspectivas duvidosas de reeleição em 2017, surgindo nas sondagens sem grandes hipóteses de passar à segunda volta; os chefes de governo italiano e espanhol podem não estar em funções no Natal. Há uma crise política na Áustria, a Grécia tem de negociar o terceiro resgate, Portugal tem de evitar o segundo, a Holanda vota na Primavera e os populistas avançam. O estendal de problemas parece sem fim e não há memória de uma liderança tão frágil ter de tomar decisões que podem ter repercussões por décadas.

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publicado às 10:23

Intolerância

por Luís Naves, em 26.08.16

A justiça francesa suspendeu a proibição do uso do burkini nas praias francesas, numa decisão que indignou a direita e que poderá ter consequências políticas na campanha presidencial que se aproxima. Os juízes cederam aos argumentos de que não havia perturbação da ordem pública, para grande satisfação dos activistas que consideravam estas proibições exemplos gritantes de ‘islamofobia’. A história não fica aqui, evidentemente: a direita quer uma lei que proíba o uso do burkini, a Frente Nacional ganhou um novo argumento para a sua campanha populista (e Nicolas Sarkozy também).

O debate é profundamente político e está contaminado pela demagogia. O burkini não é um símbolo da liberdade religiosa, mas do seu exacto contrário, de opressão religiosa, tratando-se neste caso de interditar às mulheres a exposição de um corpo que os fundamentalistas consideram de natureza impura. O burkini resulta da interpretação salafista do Corão, corrente que tem a singularidade de excluir todas as mais tolerantes. Os salafistas odeiam o Ocidente e os seus valores, querem mudar as sociedades ocidentais, restringindo as liberdades que a república laica julga estar a defender. O burkini é, infelizmente, um símbolo de totalitarismo e de intolerância. 

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publicado às 09:50

O verdadeiro impasse

por Luís Naves, em 19.08.16

Mariano Rajoy, líder do PP, aceitou negociar as condições de Albert Rivera, do Ciudadanos, e tentar a investidura, o que acontecerá no final da próxima semana. Os dois partidos, somados, estão a sete deputados da maioria. Rajoy terá duas oportunidades de formar um governo de minoria do PP: a primeira votação exige maioria absoluta, 176 votos; a segunda exige maioria simples, ou seja, as abstenções serão decisivas e basta que a soma de votos favoráveis seja superior à de votos negativos. Os cenários são complexos: o PP precisa de garantir a abstenção de alguém, e parece remota a possibilidade dos catalães da Convergência ou a abstenção do PSOE. Os socialistas prometem votar contra e arriscam-se a não conseguir formar governo alternativo, pois teriam de fazer um pacto com o Podemos, com exigências duras, o que não dispensava mesmo assim o apoio dos catalães, com mais cedências difíceis. Aliás, o PSOE teria poucas semanas para negociar e o resultado seria facilmente o fracasso. Sem governo possível, seguia-se a dissolução do parlamento e a terceira eleição consecutiva, com alta probabilidade de novo pântano político, acrescido do requinte da data limite das terceiras legislativas coincidir com o dia de Natal. A Espanha mergulhou assim numa esquizofrenia: o PP não tem aliados para uma maioria absoluta e os socialistas, tendo perdido as eleições, ponderam suicidar-se numa aliança improvável, que terá de incluir a esquerda radical e os independentistas.

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publicado às 19:16

Discussão francesa

por Luís Naves, em 18.08.16

A França discute o burkini, fatiota de praia que tapa inteiramente o corpo das mulheres. Alguns municípios proibiram esta moda muçulmana e impuseram multas, para grande escândalo dos que consideram tratar-se de ‘islamofobia’. O argumento de que as nossas avozinhas usavam roupa de praia semelhante é ligeiramente absurdo, pois a moda muda, na civilização ocidental o corpo feminino tornou-se uma banalidade, pelo que a imposição de um pudor extremo alheio à cultura dominante parece ser uma cedência ridícula das nossas liberdades. Alguma esquerda defende a ideia aparentemente liberal de cada um vestir o que lhe apetecer, mas a questão do burkini não é um fait divers, pelo contrário, é altamente política e não tem nada a ver com as liberdades, mas com a opressão da mulher. Esta moda está a ser imposta pelos salafistas, corrente extremista com uma interpretação da religião muçulmana que exclui todas as outras. A esquerda europeia tende a olhar para a minoria muçulmana nos seus países como um grupo discriminado e oprimido de trabalhadores, resultando num raciocínio perverso de que impor valores ocidentais apenas aumenta a alienação social destes emigrantes e filhos de emigrantes. O avanço das ideias salafistas, graças a dinheiro saudita que sustenta mesquitas radicalizadas, prejudica ainda mais estas populações pouco integradas, que já não apenas rejeitam mas combatem abertamente as ideias republicanas de Estado secular e liberdade individual. A tolerância da esquerda facilita a intolerância dos fundamentalistas, e as primeiras vítimas são as mulheres muçulmanas de França.

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publicado às 19:12


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