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Na política caseira

por Luís Naves, em 19.04.17

Na política caseira, não será possível manter por muito mais tempo a ficção de que se é contra a ortodoxia europeia, enquanto se elogia o rigor dos orçamentos e o cumprimento dessas regras. A narrativa de que vão lá bater o pé aos europeus é patética e a extrema-esquerda pode escolher o momento em que assumirá a sua oposição a uma política que considera ser a verdadeira calamidade. A táctica é efémera e muda conforme as oportunidades: se o governo de António Costa falhar como fracassou François Hollande, não terá desculpas, e o PS enfrentará uma ameaça existencial que pode ser semelhante à de um partido, o PS francês, que sempre imitou.

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publicado às 14:08

E se as noivas saírem todas ao mesmo tempo?

por Luís Naves, em 04.08.16

Parece cada vez mais provável que a geringonça se rompa por um motivo exterior. O deslize orçamental ameaça as taxas de juro da dívida e pode resultar em exigências de Bruxelas de cortes na despesa, que seriam intoleráveis para os partidos da esquerda. O Governo continua a dizer que não cumprirá a recomendação da comissão feita na semana anterior, de aplicar medidas adicionais, fingindo ignorar que existe uma ameaça de suspensão dos fundos comunitários em 2017. Provavelmente, os socialistas não contam estar no Governo nessa altura. Para os comentadores políticos, o acordo entre os quatro partidos está sólido e quem romper perde imensos votos. A explicação, segundo estas versões: as sondagens indicam que o povo quer estabilidade e a penalização será dura para quem protagonizar a ruptura. Talvez tenham razão, mas as sondagens indicam a tendência de voto neste momento e só haverá eleições se o Governo cair ou no fim da legislatura, este último um cenário improvável. As sondagens serão muito diferentes após a queda, portanto, estamos a elaborar cenários sobre situações que ainda não existem. Convinha olhar para as sondagens de outra forma: nenhum dos partidos tem um motivo forte para derrubar o Governo. A situação muda quando chegar a factura dos erros anteriores, por exemplo um pacote de cortes na despesa imposto de fora. Para a esquerda do PS, será então difícil manter o acordo que suporta o Governo. Se todas as noivas saírem ao mesmo tempo, a compreensão dos convidados irá apenas para elas; quem fica ridículo é o noivo deixado no altar.

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publicado às 09:45

Bater o pé

por Luís Naves, em 12.07.16

Portugal está sob ameaça de sanções da União Europeia. Negando o óbvio, entre nós prossegue a operação de mistificação da opinião pública. O actual Governo tenta culpar o anterior por não ter cumprido o défice de 2015 e afirma que não fará alterações de política, mas as autoridades europeias exigem medidas. A coligação PSD-CDS desbaratou a oportunidade de sairmos do procedimento por défice excessivo, onde nos encontramos por nunca termos cumprido o objectivo de 3% do PIB no défice orçamental, mas as sanções não resultam de duas décimas de PIB (seriam pouco mais de 300 milhões de euros), mas do afastamento continuado da trajectória de redução do défice orçamental. O Governo de António Costa adiou pagamentos, subestimou o abrandamento económico e aumentou a despesa. Portugal financia-se nos mercados e estes estão a reagir com crescente desconfiança à reversão das reformas. Perante a ameaça de sanções, Costa terá de escolher entre austeridade e bancarrota; os partidos que o apoiam podem aceitar medidas duras ou avançar para uma ruptura que cortará o PS em pedaços. Isto seria o dilema racional, mas há sempre a hipótese de querer bater o pé à Europa, que deu tão bons resultados na Grécia.

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publicado às 19:38

Parecia o fim do mundo

por Luís Naves, em 25.06.16

Nas televisões nacionais, o resultado do referendo britânico parecia o fim do mundo. Os jornais e redes sociais transbordam de catastrofismo ou de indignação. Lemos comentários a celebrar o fim inevitável da UE, essa coisa horrível que acabou com as nossas vidas e encontramos toneladas de textos sobre uma Europa que nunca existiu nem vai existir. Em Portugal, à esquerda, cresce um discurso que retrata a UE como a tropa de choque do capitalismo e do poder financeiro, tendo promovido a destruição económica, o empobrecimento geral e a imposição de políticas que os povos rejeitam. Esta tese delirante sustenta que o voto britânico representou a recusa do neo-liberalismo ou das barreiras à imigração. Após o Brexit, a Europa será obrigada a reformar-se num sentido que a fará mais solidária, terminando todos os muros e a asfixia da austeridade. Há outra versão, que tem feito o seu caminho: a União Europeia é um pesadelo burocrático que não serve para nada. Quem não obedecer, leva. Os países deixaram de mandar na máquina. O criador perdeu o controlo do monstro e ele anda pelas aldeias a assustar criancinhas.

Estas duas versões ignoram os benefícios que o País obteve ao longo dos últimos 30 anos. Portugal nunca na sua História enriqueceu tão depressa, nunca se modernizou tão depressa. Recebemos uma montanha de dinheiro, transformámos a economia, a sociedade mudou em todos os sentidos, nunca fomos tão livres. Hoje, exportamos facilmente para um mercado de 500 milhões de consumidores, circulamos sem limitações por um espaço geográfico gigantesco, temos investimento externo como nunca antes vimos, para não falar na adopção de leis modernas e da necessidade fundamental da estabilidade política e da segurança. Sem Europa, o País seria muito mais pobre. O fim da UE representaria a destruição de centenas de milhares de empregos, a falência de milhares de empresas, o regresso ao caos político e ao endividamento crónico. E, apesar de tudo isto ser tão evidente, parece que uma parte do País deseja regressar aos tempos da Primeira República, outra parte aos tempos do orgulhosamente sós.

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publicado às 19:10

A iminência do Brexit (3)

por Luís Naves, em 18.06.16

A Europa é hoje uma rede de interesses nacionais comuns cujo não cumprimento num caso implica a ruptura em todos os outros. Um país que resista a uma determinada política europeia condena-se ao isolamento e à perda de muitos outros interesses não contestados. Portugal ilustra bem o dilema: não quer fazer as reformas exigidas pelo princípio de contas externas e orçamentais equilibradas, previsto do Tratado Orçamental, e será obrigado a fazer essas reformas, com mais ou menos sacrifícios. Portugal não pode sequer sonhar numa saída da UE, pois perderia os fundos comunitários e o acesso ao mercado único, além de qualquer influência no seu destino. No fundo, só países ricos podem sair da UE, mas qualquer movimento nesse sentido será sempre pouco convicto. A saída do Reino Unido da UE até pode ter menos consequências do que se espera, mas a verdadeira crise existencial para os europeus será a eventual vitória de Marine Le Pen nas presidenciais francesas da próxima primavera, algo que provavelmente conduzia à ruptura do eixo franco-alemão. As sondagens sobre o referendo britânico sugerem a profunda divisão do eleitorado, pelo que o resultado final será tangencial e insatisfatório. Uma pequena vitória do Brexit iniciará uma negociação de saída em que um dos lados está em posição de fragilidade; o cenário oposto dará origem a um novo referendo dentro de alguns anos. Em ambos os casos, a dúvida obrigará a União Europeia a fortalecer a sua coesão e a tomar decisões difíceis que têm sido adiadas por falta de vontade política.

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publicado às 11:39

A iminência do Brexit (2)

por Luís Naves, em 17.06.16

No caso do eleitorado britânico optar pelo Brexit, é provável que o Reino Unido tenha graves problemas: a Escócia poderá separar-se, os ingleses que vivem na UE ficam menos protegidos, a médio prazo as exportações vão sofrer, haverá turbulência financeira imediata e quebra no investimento. As dificuldades podem até ser maiores, mas ninguém sabe ao certo. A pouco e pouco, os ingleses perderão o acesso total ao mercado único europeu e terão de renegociar acordos comerciais com países terceiros. Pode não ser uma calamidade, mas não será um piquenique. O Brexit tem razões de emoção e de cálculo político, pois muitos eleitores estão a ser convencidos por argumentações pouco sólidas (queremos o nosso país de volta) e as ambições políticas de Boris Johnson foram um factor crucial da campanha. A crispação política mostra divisões sociais preocupantes.

E o que muda na Europa? Muda muita coisa. O eixo franco-alemão fica mais forte e os europeus terão de avançar com mais integração, acelerando a construção do mercado único, tentando resolver a questão migratória, reequilibrando os poderes nacionais e resolvendo de vez a crise das dívidas soberanas e os problemas da banca. A Alemanha será indiscutivelmente mais forte e até se pode admitir que a UE restante pode enfrentar de outra forma o desafio colocado pela Rússia, pois haverá menos entusiasmo pelas sanções a Moscovo. Algumas mudanças serão imediatas, outra exigem tempo, pois o Brexit, a confirmar-se, será um longo processo político, repleto de negociações delicadas.

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publicado às 11:23

A iminência do Brexit (1)

por Luís Naves, em 13.06.16

Do ponto de vista político, o Brexit tem, para já, uma consequência: a Alemanha e a França serão mais fortes no contexto da UE sem o Reino Unido (Berlim já está a fortalecer-se antes do Brexit, com os investidores a pagarem para comprar dívida alemã). E o erro dos europeus não foi criar uma moeda única, teoricamente necessária para sustentar um mercado interno, mas a pressa com que se criou o euro, sem instituições, englobando países sem preparação, o que levou ao não cumprimento das regras que tinham sido definidas. Durante a crise das dívidas soberanas, a cláusula de excepção de que beneficiava o Reino Unido afastou Londres das decisões cruciais da União Europeia sobre zona euro, e era uma questão de tempo até que a corda rebentasse. Simplesmente, não era possível manter uma situação em que, chegados aos assuntos quentes, os líderes europeus convidavam o líder britânico a sair da sala. Ele queria manter-se na discussão, dizia que Londres era a praça financeira onde tudo se passava, mas era ilógico que participasse em decisões sobre a moeda única dos outros. Parece contra-intuitivo, mas se o 'sim' vencer o referendo e o Reino Unido quiser ficar na UE terá de ponderar a sua futura adesão ao euro. Enfim, o Brexit pode acabar com a União Europeia, mas não é inevitável que isso aconteça. Pelo contrário, o processo de reforma torna-se inevitável, o que termina de vez com as hesitações. No final, pode até resultar uma entidade mais integrada e coesa.

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publicado às 18:04

Incompreensão

por Luís Naves, em 02.06.16

Em Portugal, o jornalismo continua a não compreender que Polónia e Hungria são governadas por conservadores que já antes estiveram no poder. O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán (lidera o Fidesz) não tem nada a ver com a extrema-direita, representada por um partido chamado Jobbik, que está na oposição e que Orbán mantém fora do alcance de qualquer influência. Felizes por não compreenderem isto, os meios de comunicação portugueses estão agora a alimentar um curioso mito paralelo sobre a Polónia, fazendo a amálgama entre os conservadores-católicos do partido no poder (que já governou em meados da década de 2000) e a extrema-direita europeia. A Polónia e a Hungria contestam ruidosamente as quotas obrigatórias de refugiados, mas invocam a lei (a regra não existe nos Tratados europeus). Os dois países são apoiados pela Eslováquia e República Checa, cujos governos de esquerda nunca foram diabolizados entre nós, embora sejam semelhantes aos seus vizinhos. O partido no poder na Hungria é pró-europeu e integra a família de partidos democrata-cristãos do PPE, os polacos são eurocépticos e, no parlamento europeu, estão ao lado dos conservadores  britânicos. Estes governos podem ser definidos como nacionalistas, conservadores, próximos da Igreja, demagógicos, populistas, iliberais, como quiserem, mas nunca como extrema-direita. 

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publicado às 11:14

Isto vai correr mal (2)

por Luís Naves, em 15.05.16

Isto vai correr mal, só não sabemos exactamente quando. O PS formou um governo minoritário que tem de fazer reformas difíceis e tomar decisões inevitáveis, mais apropriadas a um bloco central. António Costa deseja eleições, para formar um Executivo estável com o PSD, que possa ser ele a liderar, aposta que prejudica os partidos da esquerda que o apoiam. Aliás, no futuro (e tal como aconteceu em Espanha com Podemos e IU), comunistas e bloquistas terão de se entender. Enfim, não há acordo que resista à contradição dos interesses do PS e dos outros dois partidos, mas sobretudo não há acordo que resista à necessidade de cortes na despesa pública. Basta ler os comentários revolucionários que se multiplicam nas redes sociais para perceber como tudo isto criou uma crispação lírica na sociedade portuguesa, que lembra (em escala menor) a radicalização do PREC. As sondagens, neste caso, são inúteis, pois referem-se a um cenário que não existirá em eleições: as intenções de voto mudam, após a queda do Governo e os seus motivos.

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publicado às 11:17

Isto vai correr mal (1)

por Luís Naves, em 14.05.16

Os números começam a ser alarmantes e não vão melhorar, pois a balança externa piorou, as exportações estão em queda e o investimento diminuiu, O crescimento do primeiro trimestre foi inferior ao esperado, apenas 0,8%, o que indica abrandamento. É só um trimestre, mas o conjunto mostra uma tendência preocupante. Perderam-se 48 mil empregos em três meses, mais de 500 por dia, e se o indicador subiu em termos homólogos, os números sugerem um severo efeito social, pois estão a ser destruídos empregos de trabalhadores por conta própria e pouco qualificados, que terão dificuldade em regressar ao mercado laboral.

Portugal parece um sonâmbulo que se junta a outra hipnotizado, a Grécia, e as taxas de juro mostram que está por um fio a frágil credibilidade que levou anos a construir. Preso a compromissos que não pode cumprir sem entrar em conflito com os credores europeus, o Governo aumenta a despesa pública e tenta cobrir essas verbas com aumentos de impostos. A almofada que herdou já se esvaiu e o debate político continua a ignorar os problemas na base desta crise, que dura desde 2009. Os credores vão exigir cortes na despesa e, nesse contexto, o acordo entre partidos de esquerda não tem viabilidade. A crise rebentará provavelmente na altura em que for discutido o próximo orçamento, quando o País não pode ir para eleições, pois ficaria paralisado durante meses. E como é que será aprovado um orçamento com cortes na despesa impostos pelo Eurogrupo?

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publicado às 11:14


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