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O melhor candidato

por Luís Naves, em 10.12.15

A crise nacional é mais funda do que parece e exige que na presidência esteja uma personalidade com indiscutível carisma e conhecimento do país. Marcelo Rebelo de Sousa é o único candidato presidencial com capacidade e autonomia para equilibrar o frágil sistema político, agora tornado ainda mais instável pela estratégia de poder do partido que perdeu as eleições. As reformas ainda não acabaram e os compromissos europeus não são algo de vago ou de retórico, mas um elemento central da nossa história dos próximos anos. Se falharmos na Europa, cairemos num patamar de menoridade, por isso estas eleições presidenciais são mais importantes do que tem sido tradicional. Marcelo é o único candidato que garante utilizar todas as ferramentas constitucionais ao seu dispor, mas também é um político reconhecidamente hábil e experiente, o que nos oferece garantias de uso inteligente desses poderes. Portugal precisa de um presidente capaz da moderação e da equidistância, precisa de alguém que dê garantias de confiança e firmeza, de um presidente colocado ao centro, capaz de negociar com as diferentes forças, proporcionando entendimentos entre elas. Portugal precisa de um presidente pragmático que conheça profundamente o sistema político e constitucional. Num período de crise, não se fazem experiências, elege-se alguém com experiência.

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publicado às 12:08

O intruso

por Luís Naves, em 29.11.15

Recusei um comentário de alguém que entrou neste espaço a gozar comigo e a exibir a sua incompreensão sobre aquilo que lera. Não tenho nada contra a incompreensão, mas quem não gostar, pode mudar de poiso. É a chamada liberdade, que exercito a escrever estas divagações e que cada um dos leitores deve exercitar também, lendo ou não lendo o que escrevo. Tenho opiniões e entro em polémicas, mas em outros locais; isto aqui é o meu quase-diário, o meu espaço, embora aberto à curiosidade alheia, o que impossibilita assuntos demasiado íntimos. Podem comentar à vontade, mas não aceito bullying.

O episódio do intruso mostra que para alguns cómicos as redes sociais se transformaram num espaço de traulitada, onde as pessoas com algo para dizer são achincalhadas. Não encontro outra explicação, mas deve haver nestes ódios alguma dose de estupidez nacional. Não me preocupa se um tontinho treslê o que escrevo, pois não escrevo para esses leitores, mas preocupa-me que a minha liberdade seja um incómodo para alguém. Preocupa-me que haja anónimos que se entretêm a tentar silenciar quem passa. Preocupam-me os fanatismos de trincheira. Preocupa-me também o crescente mau uso da ironia. Tudo o que é diferente está hoje ameaçado por estes puristas de tasca. Depois, há os beatos do politicamente correcto, que examinam cada texto com a lupa dos grandes inquisidores. Há ainda certos pedantes, que embora julguem saber muito mais que os outros, nunca aceitam réplicas inteligentes.

Enfim, a blogosfera degrada-se, como se degrada a sociedade portuguesa, a convivência, a civilidade, a cultura. Às tantas, as pessoas recuam para espaços restritos ou perdem de todo a paciência, como eu perdi no twitter, de onde fui escorraçado pela imbecilidade de um deputado da república. Como é que se respondia a um imbecil em 180 caracteres, instantaneamente e sem o mandar bardamerda? Não tive talento que chegasse e aquela não era a minha praia.

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publicado às 19:27

O mito do empobrecimento

por Luís Naves, em 14.06.15

Os últimos 45 anos foram de profunda mudança em Portugal: o PIB per capita passou de 6200 euros em 1970 para mais de 16000 no ano passado (a comparação é calculada a preços de 2011), quase triplicando a riqueza média dos portugueses; o sistema de pensões abarca 40% da população, proporção dez vezes superior à de 1970, quando a rede social abarcava cerca de 400 mil pessoas; o analfabetismo, que atingia 31% das mulheres em 1970, praticamente desapareceu; em média, os portugueses de hoje vivem mais 13 anos do que a média da população de 1970. E, no entanto, só se ouve falar no ‘aumento da pobreza‘ e no ‘recuo económico e social’, como se Portugal fosse hoje muito mais pobre, inculto e atrasado. De facto, empobrecemos nos últimos cinco anos, mas a tendência de médio prazo é claramente outra. A esquerda habituou-se de tal forma a este discurso miserabilista, que banaliza o que foi conseguido pelo regime democrático. A direita comete um erro semelhante: repete o mito do empobrecimento, explicando o fenómeno com a pretensa insustentabilidade do Estado Providência, o que a leva a defender políticas impopulares de redução dos gastos sociais. 

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publicado às 12:07

Pequenez humana

por Luís Naves, em 07.02.15

Conhecia explicações didácticas sobre as distâncias no sistema solar e tinha uma noção dos números, mas este vídeo permite visualizar um conceito que para nós, humanos, tem uma escala demasiado obscura. A viagem a partir do Sol à velocidade da luz permite chegar a uma noção mais profunda da vastidão do espaço. Claro que sabemos teoricamente que até chegar à Terra, a luz precisa de mais de 8 minutos e que até Júpiter leva 43 minutos e até à estrela mais próxima a distância é de quatro anos-luz, mas estes valores deixam a certo ponto de fazer sentido para a nossa experiência, tornam-se estranhos e construímos um mapa mental onde o abismo tem necessariamente de se estreitar e ficar imperfeito. Ao ver esta lenta viagem, fiquei espantado por Mercúrio estar tão distante do Sol e surpreendi-me de novo, pois pensava que Vénus tinha uma órbita mais próxima da Terra. Afinal, o universo é ainda muito maior do que eu pensava; simplesmente, não tive imaginação para perceber a escala desmedida em que tudo se escondia. Talvez seja isto o conhecimento: vamos percebendo que somos cada vez mais minúsculos e não podemos deixar de nos interrogar sobre a banalidade da inteligência. Ao percebermos como existir se parece com um milagre, logo parecem ridículos os conflitos em que os humanos gastam as suas vidas. Neste artigo, por sua vez, menciona-se a possibilidade da galáxia em que vivemos estar repleta de planetas habitáveis: os cientistas falam na hipótese de haver, na Via Láctea, centenas de milhares de milhões de planetas nas zonas habitáveis dos respectivos sistemas solares. Agora imaginem: um número incontável de pequenas ilhas, muitas a abarrotar de vida, mas separadas umas das outras por intransponíveis oceanos da noite.

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publicado às 19:56

Dez obras-primas

por Luís Naves, em 06.02.15

Os franceses sabem fazer revistas e numa tabacaria comprei um exemplar de Beaux Arts dedicado à banda desenhada. No interior são analisados detalhes de dez obras-primas, começando em O Lotus Azul, uma aventura de Tintim, por Hergé. Os diferentes artigos descrevem as técnicas usadas e detalhes do desenho, pormenorizam personagens no devido contexto histórico, além de haver informação sobre a pesquisa que os autores fizeram e que seria difícil na sua época. A revista inclui histórias completas que serviram de ensaio e discorre sobre algumas curiosidades. De Blake e Mortimer (o meu favorito) é escolhido O Segredo da Grande Pirâmide e julgo que se trata mesmo da obra-prima de Edgar Pierre Jacobs. Corto Maltese e Blueberry são heróis também citados, além de um trabalho de Bilal, entre outros que desconhecia, nomeadamente exemplos americanos. A banda desenhada esteve sempre muito presente na minha infância e juventude, mas os heróis da Marvel passaram-me ao lado. Lembro-me de várias obras franco-belgas, inglesas e espanholas que me impressionaram e que nunca mais vi publicadas, talvez pela circunstância desta arte ter entrado num período de declínio. Estive à procura destes dois textos antigos. O gosto das pessoas também se alterou e os jovens de hoje preferem o estilo americano e as mangas japonesas, com histórias porventura mais infantis. A revista não dá muitas pistas sobre os motivos desta mudança, mas talvez se trate de um daqueles momentos de decadência que se acentuam por não haver uma verdadeira novidade. Hergé e Jacobs continuam insuperáveis. Espero que um dia surja um sucessor à altura: a banda desenhada é uma arte demasiado interessante para desaparecer.

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publicado às 19:54

Borgen

por Luís Naves, em 17.01.15

A série dinamarquesa Borgen faz uma das melhores abordagens sobre a política que já vi em ficção. Os actores são óptimos, a escrita é perfeita, o ritmo, a música, enfim, todos os aspectos técnicos funcionam. Ao contrário do que sucede em séries americanas que abordam política ou jornalismo, aqui não há situações exageradas nem maniqueísmo nas personagens. O que mais atrai é a forma exacta como é exposta a realidade da democracia parlamentar, nomeadamente a necessidade de negociar, o carácter inesperado das crises, a inevitabilidade das concessões, o poder dos interesses especiais, a linha fina que separa lealdade e traição, a condensação do tempo, a não repetição das oportunidades ou ainda a crueldade de certas decisões, como deixar cair alguém de quem se gosta, enfim, o carácter solitário da política que, paradoxalmente, não pode ser praticada sem convencer muita gente através da palavra.

A história mostra correctamente a existência de um triângulo entre três vectores inseparáveis: a política, o jornalismo e a comunicação. Nenhum deles vive sem os outros. O spin doctor não é alguém que esconde os factos, mas um protagonista com importância na explicação das decisões (veja-se por exemplo o carácter central da escrita dos discursos). Os jornalistas nem sempre procuram a verdade, muitas vezes têm motivos egoístas ou seguem pistas falsas. Os políticos, tratados pelos autores sem demagogia, vivem no medo de perder tudo por causa de uma trivialidade e nem sempre fazem o que gostariam de fazer. Borgen mostra a força das democracias parlamentares europeias e é uma crítica demolidora às simplificações populistas.

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publicado às 11:08

O homem providencial

por Luís Naves, em 03.06.14

António Costa será, provavelmente a curto prazo, o próximo líder socialista. O apoio mediático é esmagador e as suas hipóteses de vencer as legislativas são substancialmente superiores às de António José Seguro, pois Costa tem uma imagem de determinação e serenidade (tal como Passos Coelho), mas talvez supere o primeiro-ministro em empatia e confiança. Além disso, é um óptimo orador e tem experiência em debates televisivos. Acima de tudo, como demonstrou o resultado eleitoral, muitos portugueses querem mudança e o presidente da câmara de Lisboa terá a seu favor um fenómeno de homem providencial que o pode lançar para a vitória. O vago sebastianismo que nos atinge em momentos de crise faz sonhar os socialistas.

Essa perspectiva de vencer tornou-se mais provável depois de uma decisão do Tribunal Constitucional que terá implicações económicas e orçamentais não apenas este ano, mas também nos próximos. Para compensar o dinheiro em falta, e por não poder reduzir o número de funcionários públicos, o governo será forçado a aumentar impostos, sufocando uma parte do pequeno crescimento económico que se ia conseguir: em vez de 1,5%, uma pequena proeza, o crescimento acabará por ser menor em algumas décimas, devido ao impacto do aumento do IVA.

As reformas acabaram no ano passado, este ano acabou a consolidação orçamental. As clientelas e os interesses especiais estão outra vez na mó de cima e deram por findo o período de ajustamento. A comunicação social sente o cheiro do sangue e apoia inteiramente este regresso à irresponsabilidade orçamental. Os europeus olham com impotência para a maneira infantil como Portugal se lança nos braços de um possível segundo resgate.

 

 

 

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publicado às 11:34

Eleições divertidas

por Luís Naves, em 12.03.14

Observando as reacções ao manifesto sobre a reestruturação da dívida, percebe-se que esta discussão ameaça estilhaçar a estratégia de todos os partidos nas eleições europeias.


O Governo não pode apoiar a ideia de restruturar a dívida sem torpedear a credibilidade que tanto custou a juntar nestes três anos: uma frase mal medida e os juros sobem. Claro que, em pensamento, qualquer extensão de maturidades ou perdão de juros seria bem recebido, mas os credores têm aqui o poder negocial, não é possível aos devedores falarem no assunto sem estragar a negociação e qualquer benesse terá de partir da iniciativa de Berlim e só depois das eleições europeias. Estas limitações são bem conhecidas.
O manifesto não é hostil à Europa e a reestruturação seria feita com o acordo dos credores, mas haveria mesmo assim enormes perigos, sobretudo se a estratégia era a de sair à irlandesa do programa de ajustamento. Em 1891, houve uma bancarrota em Portugal e, dez anos depois, a dívida foi reestruturada, mas o País ficou afastado dos mercados financeiros durante décadas e há quem faça a ligação entre a crise económico-financeira e a revolução de 1910. O último empréstimo desta dívida reestruturada foi pago em 2001 (não é gralha). Quanto mais se falar de reestruturação, mais difícil será a saída do programa de ajuda externa.

 

É natural que o Governo não aceite sequer discutir o tema. Na campanha eleitoral que se avizinha, a coligação PSD-CDS só pode dizer que o debate é inoportuno, como se ele tivesse sarna. Nenhum candidato apoiará a reestruturação. No entanto, os dois partidos estariam a mentir se dissessem que não desejam a extensão das maturidades ou juros mais baixos (até já se conseguiu isso uma vez, com grandes poupanças). O assunto é pantanoso e cada pergunta será incómoda, sobretudo a segunda ou terceira.
O PS parece completamente entalado: não pode apoiar a reestruturação mas como a tem defendido, sem usar a palavra, a sua posição é insustentável. Os socialistas querem facilidades e querem pagar tudo até ao último tostão, ou seja, pedem mais tempo e assumem a dívida, embora não possam usar a palavra reestruturação sem provocar um susto nos mercados ou, pior, uma subida dos juros. O PS é a favor do documento e não o pode apoiar nem renegar. Não foi à toa que o manifesto teve inspiração de dirigentes socialistas que já estarão na jogada seguinte.
O Bloco de Esquerda queria começar a atacar o euro, mas isso agora acabou, pois o ex-líder Francisco Louçã é um dos signatários do manifesto a favor da reestruturação responsável da dívida, ou seja, não hostil aos credores. De repente, foi ridicularizada a retórica da esquerda radical. O Partido Comunista, que começara a atacar a união monetária, terá de enfiar a viola no saco e apoiar a ideia de reestruturar a dívida, o que implica negociar com a Europa. Sair da moeda única? Nem pensem nisso, nós sempre fomos pela reestruturação.


Assim, estas eleições estão a ficar divertidas: toda a gente vai discutir a necessidade de consenso, já agora liderado pelo Presidente e pelos chamados notáveis, sendo que alguns destes notáveis têm sido a verdadeira oposição ao ajustamento. As reformas acabaram, queremos ter dinheiro para o crescimento, o mundo de ontem impõe um entendimento partidário que nenhum dos partidos verdadeiramente deseja mas ao qual todos terão de prestar a devida homenagem.

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publicado às 13:18

Sobre a táctica do salame

por Luís Naves, em 02.03.14

Não era suposto os impérios contemporâneos terem um comportamento típico do século XIX. Habituámo-nos a aceitar operações de polícia aplicadas em situações humanitárias de emergência ou no derrube de regimes particularmente nocivos para os seus próprios cidadãos. Perdemos o hábito de intervenções de carácter imperial que nem sequer disfarçam o uso puro e simples da força. A crise na Crimeia corresponde a um destes raros exemplos anacrónicos de exercício do império à moda antiga.
Por isso discordo desta análise de Ricardo Lima, em Blasfémias, de estarmos perante um exemplo da táctica do salame. Uma precisão: a analogia é da autoria do ditador estalinista húngaro Mátyás Rákosi, que explicou o que deviam fazer os comunistas após terem sofrido uma derrota eleitoral pesada, no pós guerra; pegando num alimento muito popular no seu país, Rákosi disse que os adversários (os partidos burgueses) deviam ser cortados em fatias finas de salame, até não restar nada deles. Foi o que aconteceu, entre 1946 e 1949, ao partido social-democrata e ao partido dos pequenos proprietários. Ou seja, a táctica é aplicada em situações de tomada de poder: trata-se de dividir o eleitorado, de reduzir forças democráticas sem que isso seja evidente, atacando dirigentes e sectores sociais; quando as fatias são demasiado grossas, a táctica do salame perde eficácia e sabor. Ela precisa de subtileza e visa a supremacia do mais fraco.


A máxima divide et impera tem muitas formas, incluindo a descrita na analogia de Rákosi, mas a ocupação militar da Crimeia não obedece a essa lógica e, pelo contrário, é tão despida de elegância que só aumentará a determinação ucraniana de decidir o seu destino. Vladimir Putin terá razões substantivas para arriscar neste caso, sobretudo devido às ligações sentimentais da Rússia à Crimeia, mas a intervenção não pode passar um certo limite, por exemplo, não pode estender-se à parte leste da Ucrânia, pois os custos de uma segunda Guerra Fria com o Ocidente seriam catastróficos para Moscovo, tendo em conta a fragilidade do império russo.
Do ponto de vista europeu, há implicações graves na circunstância de uma potência conseguir impunemente arrancar pela força um pedaço de território a um país rebelde à sua vontade. Se não houver uma resposta firme dos ocidentais, os últimos vinte anos de reconstituição política do continente ficam comprometidos. É natural que na sequência desta crise a União Europeia sinta alguma ansiedade em relação à sua dependência energética da Rússia e também é natural que haja reforço da cooperação militar na UE. No imediato, o conflito na Crimeia coloca sobretudo duas outra questões: se um povo tem ou não direito de decidir o seu destino e o que é ou não tolerável na acção dos impérios do século XXI.

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publicado às 11:19

Brados costumes

por Luís Naves, em 04.02.14

Portugal tem fama de ser um País de brandos costumes, mas é de oito ou oitenta. Há um caso mal esclarecido, em investigação, que pode ou não envolver praxes, mas logo se formam dois grupos irreconciliáveis: o primeiro quer proibir, o segundo vê experiências místico-religiosas nas brincadeiras estudantis. Sempre achei a praxe uma coisa de parvos, mas defendo a liberdade de fazer parvoíces (desde que sejam voluntárias) e acho natural que muitos estudantes se revoltem contra a limitação da sua liberdade de se comportarem como completos idiotas.
Em Portugal, existe um curioso gosto de discutir o que não se conhece: os Mirós que ninguém parece ter visto (não haverá alguns menos bons do que outros?); ou o programa cautelar que ninguém sabe o que será. Li um comentador que defendia em texto ligeiro “a saída suja” do programa de ajustamento, ou seja, ele queria evitar a saída à irlandesa. Para este autor, Portugal tinha de aceitar um programa cautelar sobre o qual nada se sabe. Quais são as exigências políticas dos credores? E se eles exigem mais cortes de despesa, por exemplo 3 mil milhões de euros, não em três anos, mas em um? Que dirá este perito? Os mesmos comentadores que estiveram sempre a dizer que o ajustamento ia falhar explicam agora, do alto da sua ignorância em finanças, que uma saída sem cautelar é eleitoralismo puro e que a solução desconhecida será a mais vantajosa. Que pressa lhes deu?


E há outras pessoas que quando ouvem a palavra cultura sacam logo da pistola. Os nossos liberais de pacotilha querem proibir as praxes e os quasros de Miró, alguns são também pela proibição da adopção por homossexuais (um dos problemas mais prementes da Nação). Há também viajantes de Marte que acreditam na necessidade de fazermos austeridade durante mais dez anos. Entretanto, os socialistas deliram e preferem aumentar impostos a cortar na despesa pública. As pessoas que se acham cultas querem ficar com Miró que não viram e, se bem compreendi as notícias, cada quadro em causa tem um valor estimado a rondar apenas 400 mil euros. Será um património assim tão fundamental? Não dará para vender alguns? E não dará para ficarmos pelo menos com alguns deles? Já agora os melhores.
Vivemos neste tipo de histórias e nunca se discute o essencial. Há quem goste de proibir e quem queira um Estado nulo. O Tratado Orçamental, bem entendido, não é para cumprir. Quando se fala genericamente, todos são reformistas, mas quando aparece uma reforma em concreto, toda a gente se revela contra. Ser contra implica indignação abundante e adjectivos aos brados. Lemos a comunicação social e vemos a pobreza franciscana: as catástrofes mil vezes anunciadas afinal não se concretizam e o País lá vai ignorando a sua paupérrima elite, talvez com um encolher de ombros e com os ouvidos a doer, de tanta retórica inútil.

 

O texto que critico pode ser encontrado aqui.

Entretanto, a questão dos quadros de Miró está resolvida. Não haverá leilão. Isto está a ficar bom para os populismos e em breve temos as eleições. Nada como um fait divers para animar a malta.

 

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publicado às 12:29


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