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Fertilidade dos solos

por Luís Naves, em 01.08.15

(Esta crónica tem três anos)

Sempre gostei da elegância simples da ideia. O factor limitante é por definição a causa a impedir um qualquer crescimento. Aplica-se sobretudo à biologia, a populações, ecossistemas, etc. O conceito é intuitivo: se não houver água suficiente para abastecer mais de um milhão de pessoas, uma cidade terá aqui o factor limitante e não passará de um milhão de pessoas.
Estudei a ideia aplicada à fertilidade dos solos, onde é crucial a relativa abundância de fósforo, potássio e azoto, sem os quais as plantas não podem constituir a respectiva massa. A questão é um pouco mais complicada, há minerais secundários, como enxofre, cálcio, ferro ou magnésio, sendo necessária matéria orgânica, muita água, dióxido de carbono e sobretudo luz. Mas sem aqueles nutrientes em quantidades generosas, havendo ausência de apenas um deles, a colheita está ameaçada. A fertilização dos solos concentra-se, assim, na reposição dos minerais e, acima de tudo, na preocupação em identificar e eliminar o factor limitante de determinado solo.
Julgo que a ideia se aplica a muitas situações da nossa vida. Podemos ter tudo, saúde, amor, e faltar-nos o dinheiro. Penso que também serve de metáfora para o que somos, alguns de nós trabalhadores e honestos, mas sem ambição; outros, cultos e capazes, mas cheios de vaidade. Enfim, os nossos maiores defeitos são sempre o factor limitante do que poderíamos ser. E isto parece ser verdade no mundo que nos rodeia: uma economia capaz de crescer sempre, embora com pequenos soluços, foi transformada numa sociedade em crise, pelos efeitos perversos da ganância selvagem.

 

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publicado às 19:14

Extensão da colheita

por Luís Naves, em 13.06.15

Ao ler uma História da China, da autoria de John Keay, deparei com a personagem do imperador Hongwu, ou Zhu Yuanzhang, que governou durante 30 anos, no século XIV. Zhu era camponês e tomou o poder após uma revolta, triunfando na guerra civil que levou à queda da dinastia Yuan, que não resistiu ao caos que se seguiu à peste negra. O fundador da dinastia Ming é hoje visto pelos historiadores como um unificador que impôs a ordem no país, mas todos os dias condenava pessoas à morte. O pormenor mais estranho e fascinante foi o seu conceito de “execução até ao quinto grau”. Um dos métodos de matar os condenados era esquartejar lentamente o corpo, mas este quinto grau não dizia respeito ao requinte na forma, mas sim à extensão da colheita. O ministro que serviu de cobaia chamava-se Hu Weiyong e os documentos sobreviventes dizem que teria sido demasiado poderoso, corrupto ou incompetente, não se sabe ao certo. Em 1380, este ministro foi condenado ao quinto grau, o que implicou a morte de 30 mil a 40 mil dos seus familiares, até ao quinto grau de parentesco. Segundo se conta, um confuciano escandalizado com estas prepotências apresentou-se perante o imperador e criticou-o. Vinha acompanhado do próprio caixão e, após terminar a sua crítica, deitou-se dentro dele. Impressionado com a coragem do homem, o imperador, por uma vez, exerceu a clemência.

 

texto de 2011 (Emoções Básicas)

 

 

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publicado às 12:21

Sentimentalismo

por Luís Naves, em 06.06.15

A arte popular torna-se mais sentimental naqueles tempos difíceis em que as pessoas não sabem muito bem para onde vão. Mesmo nas pequenas transgressões, os artistas preferem a postura decorativa e o discurso politicamente correcto, garantindo a admiração de um público que lhes recusa sempre a proposta do incómodo. Assim, a hipocrisia vai invadindo as crónicas e os intelectuais, hoje muito desacreditados, tentam não sair da linha que se espera deles. Fala-se demasiado em afectos indefinidos e de alguma forma triunfou um sentimentalismo de xarope, o que talvez seja apropriado em tempos de negação. Foi assim muitas vezes no passado. Por enquanto, gostamos de emoções exageradas, embora isso nada tenha a ver com a nossa vida.

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publicado às 18:22

No fundo...

por Luís Naves, em 23.05.15

No fundo, tudo se resume a um grande conflito entre ilusão e realidade, entre sonhadores que com a máxima convicção acreditam na mudança e os desencantados que não vislumbram alternativa; entre os que se iludem na esperança de mudar um amante imperfeito e aqueles que já desistiram de sonhar com milagres; entre os que procuram a redenção e os que, perante as suas limitações, se afundam no desespero; entre os que têm fé no esplendor do futuro e os que sabem que além do horizonte também há horrores; no fundo, entre os que não pensam muito no seu esquecimento e morte e os que pensam demasiado nisso.

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publicado às 18:01

Divórcio

por Luís Naves, em 13.05.15

O divórcio entre o País e o mundo político-mediático torna-se cada vez mais visível nas declarações alheadas dos protagonistas e nos seus recados. Em palco, há muitos actores maus com pequenos papéis. Estamos longe daquilo a que se convencionou chamar ‘a política' e que não passa da repetição de intrigas de paróquia. O desfasamento entre a vida real e a vida publicada desfaz a credibilidade das elites, bem visível na pobreza das discussões e nas tolices dissecadas até à exaustão. Lemos e ouvimos pessoas que não acreditam numa única palavra do que escrevem ou dizem, por isso ignoramos os discursos dos políticos e os peritos do costume, que já se enganaram tantas vezes sobre a realidade.

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publicado às 10:37

Carga

por Luís Naves, em 12.05.15

Carregamos o peso do mundo ou aquilo que nos parece demasiado insuportável. A certo ponto, a culpa pertence-nos por inteiro, pois não nos esforçámos, sendo essa a explicação que sobra, depois de excluídas todas as outras. Não nos esforçámos em encontrar um rumo certo para a vida, fracassámos sempre e, olhando os destroços, quando pensamos no que podia ter sido, sentimos o profundo desânimo dos desistentes, acumulado em pequenos desastres tantas vezes repetidos, tão normais que já fazem parte dos nossos próprios corpos, transformados em sopro da respiração, em partículas habituais de emoções que julgávamos adormecidas.

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publicado às 10:36

O fugitivo

por Luís Naves, em 16.04.15

O livro fugira três dias antes. Estava num saco branco, encostado ao aquecedor do quarto, portanto, sem pertencer a uma colunata específica de livros abandonados à sua sorte. Veio a casa um senhor arranjar a janela e teve de tirar o aquecedor do sítio e arrumou o livro algures. Foi então que percebi que ele tinha fugido. Capa creme, sem ilustração, só o título e o autor, portanto, muito discreto. Procurei-o nas pilhas acumuladas, trinta e nove, pelas minha contas. Isso exige tirar os livros de cima, formando novas pilhas temporárias e procurar em baixo, remover tudo e reconstruir depois, baralhando a ordem. Pareceu-me escusado procurar nas estantes, porque estão sempre silenciosas e graves, com os livros escondidos nas suas cavernas quietas, em filas preguiçosas que só os bichos exploram.

Tive esperança de encontrar o livro fugitivo numa colunata de livros que a minha gata aprecia. A pilha número doze. Pareceu-me que o animal estava a dormir a maior altura naquele dia, o que quereria dizer que um livro clandestino se infiltrara. E, de facto, encontrei o malandro entre um nabokov e um velho romance de graham greene. Até lhe bati com o dedo, para castigo de uma fuga fortuita e sobretudo impensada. O sacaninha respondeu com o que me pareceu ser um sorriso escarninho de letras vermelhas em fundo creme, lábios grossos e pele de mulher morena.

Ainda estou para saber como isso aconteceu, mas o livro fugiu de novo. Foi ontem e não tenho explicação. Lembro-me de o ter colocado na pilha da minha mesinha de cabeceira. A empregada andou por ali em limpezas e até lhe telefonei, para perguntar se sabia o que tinha acontecido ao livro que estava na minha mesinha de cabeceira, e ela explicou que limpara o pó e arrumara os livros e pusera-os no mesmo sítio, mas talvez tenha baralhado a pilha número sete com a oito, enfim, uma deve estar agora mais alta e a outra mais baixa.

Terei de vasculhar de novo a biblioteca. e este é o quinto livro que me escapa este mês, e um deles por duas vezes. Na primeira hora de buscas, encontrei um do camilo que me fugira da vista no ano passado. O malandro ainda se estava a rir da minha incompetência de bibliófilo e coloquei-o com irritação na minha mesinha de cabeceira, e até telefonei à empregada a proibi-la de limpar ali o pó. Entretanto, a minha gata passou a dormir na pilha caótica número vinte e sete, que está perto da janela. Acho que ficou mais alta, mas não encontro uma explicação. Para saber se o livro se escondeu ali, terei de tirar a gata e o animal está a dormir como um anjinho, com um ronronar que quase me parece um riso de troça.

 

baseado num post de 2010

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publicado às 18:24

Atrevimento

por Luís Naves, em 08.04.15

Nunca teria a coragem de fazer o que fez Paul Gauguin, que abandonou a vida burguesa e a própria família para perseguir sem contemplações a sua visão artística. Cheguei a estudar pintura, aprendi algumas técnicas que me permitiriam sem dúvida pintar quadros com alguma exactidão (já quanto à beleza, não sei). A minha capacidade seria, no máximo, a da cópia, mas existe algo na pintura, talvez seja o cheiro das tintas ou o triunfo da cor sobre o branco visto a uma distância mínima, essa fabricação de películas que, vistas de perto, são manchas e, vistas de longe, começam a formar padrões; talvez seja isto que me fascina, observar em cada pincelada o triunfo da ordem sobre o caos. É isto que me fascina também na escrita, a arquitectura que emerge das palavras; mas, não sei porquê, não tenho a mesma sensação de prazer, talvez porque não seja possível ver num romance, novela ou conto a totalidade num único relance. Os artistas sonham com a fama, impulsionados pela vaidade de saberem que há poucos que conseguem fazer o que eles fazem. No caso de Gauguin havia mesmo muito poucos, mas o pintor amador, que nunca estudara em escolas convencionais, não poderia sabê-lo. Talvez tivesse essa suspeita, a intuição, mas não podia saber. Morreu na miséria, carcomido pela doença, certamente cheio de dúvidas. E se falhei a minha vida? E se a mandei fora, para nada?

Perseguir obsessões pode ser mandar fora uma vida. Li algures (infelizmente, tenho procurado a fonte, sem a encontrar) que em Paris, em 1900, havia dez mil pintores. Acho o número improvável, mas sei que o encontrei em fonte que na altura considerei credível, a ponto de memorizar a informação. É muito pintor para uma cidade que teria dois milhões de habitantes, mas pode ser que estivessem ali contabilizadas numerosas academias, os estudantes que chegavam de todo o mundo para aprender na Meca da pintura. Também os pintores de paredes, quem sabe? Dez mil, muitos deles com os mesmos sonhos de Gauguin, embora sem o seu talento.

Gauguin pintou cerca de 300 quadros e essa seria a produção de uma carreira relativamente curta. No caso do pintor francês, durou vinte anos, com altos e baixos. Dez mil vezes 300 dá a quantidade fabulosa de 3 milhões de quadros só para uma geração de pintores da passagem do século e do período pós-impressionista, e só entre aqueles que viveram em Paris em 1900. Se acharmos extraordinário e pouco credível o ponto de partida, podemos dividir por três. Ainda dá um milhão de quadros, todos bem feitos. E quantas obras conhecemos desta época? Cem, pouco mais do que isso? Uma em cada dez mil das que foram produzidas?

Dava para encher mil museus só com uma geração de artistas, mas sabemos que não será assim. É fácil perceber que a arte tem mais a ver com o fracasso do que com outra coisa. É uma espécie de loucura obsessiva que toma conta de vidas condenadas ao desperdício. E só um em cada dez mil triunfa, milagre que se deve ao atrevimento ou à loucura. Por mim, gostava de pintar para esse enorme museu, o maior que existe, o museu das vidas desperdiçadas, das obras que nunca ninguém verá, mas que deram tanto prazer a quem as criou, camada a camada, num combate da cor sobre o branco e deste contra a cor. E poder dizer no fim da vida que, embora perdendo a luta contra o esquecimento, quase fui feliz a imaginar a luz. Mas não me atrevo. O medo é mais forte.

 

baseado num post de 2010 (Emoções Básicas)

 

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publicado às 18:22

Uma questão de honra

por Luís Naves, em 31.03.15

Era uma ruiva espigada, que se chamava Martine. Mas tínhamos para ela uma alcunha, urubu, por causa do pescoço longo, o penteado esquisito e as finas pernas de pássaro. Por vezes, ficávamos a vê-la, nas tardes passadas no café junto da estação de comboios. Vinha com amigas, o que era raro, ou andava com um namorado novo Acho que existe uma designação para este tipo de mulheres: era licenciosa, mas as razões para tal ligeireza nunca as conheci. Divertia-se assim, suponho.
Soissons é uma cidade (como posso dizer?) chata. Nunca há nada de jeito para fazer. Os velhos ficam em casa a ver televisão e a juventude anda pelos cafés; mas os franceses não gostam, assim ficam só os árabes num canto, sem raparigas, sempre a papaguearem aquela algaraviada deles, e nunca metem conversa; e nós, os portôsse, também num grupo fechado, mas suponho que ninguém repara, porque somos bem comportados.

 

 

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publicado às 18:31

Bifurcação

por Luís Naves, em 30.03.15

Após uma longa caminhada, chegou a uma bifurcação, a um local estranho onde havia diferentes opções de caminho. Do seu lado esquerdo, desenvolvia-se uma rua triste. À direita, existia uma outra rua, mas esta apenas melancólica. Em frente, erguia-se um muro soturno, repleto de mensagens intransponíveis. Desistiu do muro ou de voltar atrás. Se optasse por seguir pela direita, iria desencadear uma infinita sequência de eventos, cujas consequências desconhecia. Se escolhesse a rua da esquerda, o resultado seria o início de uma infinita sucessão de acontecimentos também aleatórios, mas numa combinação totalmente diferente da primeira sequência, igualmente incerta, abarcando porventura outros destinos para além do seu. Uma anterior série infinita de eventos resultara na circunstância de se encontrar naquele local e de ter no seu bolso uma pequena moeda ainda brilhante, produzida meses antes e que entretanto circulara quase ao acaso nos bolsos de milhares de pessoas, até chegar ao seu, percorrendo pois um caminho que não tinha qualquer consciência de existir. Retirou a moeda do bolso. Brincou com ela entre os dedos. Cara ou coroa? Se saísse a face da cara iria pela rua da esquerda, desencadeando assim uma sequência infinita de eventos. Se, pelo contrário, escolhesse a face da coroa, iria para a rua da esquerda. Escolheu a face da coroa, lançou a moeda pelo ar e esta deu várias voltas sobre um eixo, criando por um breve instante a ilusão de ser perfeitamente esférica. Depois, cumprindo parte do sentido da sua curta existência, caiu na mão aberta. O acaso escolhera um caminho e, sujeito ao capricho, assim avançou, sem mais hesitações, por uma cadeia infinita de eventos.

 

baseado num post antigo

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publicado às 12:45


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