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Romance de robô II

por Luís Naves, em 24.01.15

O maior obstáculo aos romances de robôs será sem dúvida a autenticidade da vivência. Como é que esse obstáculo pode ser ultrapassado se a máquina não vive como vivem os humanos e não sente como eles sentem? Afinal, estão envolvidos processos digitais a partir de um programa e de uma base de dados, mas sem pele e sem fogo, sem sofrimento ou alegria. Numa história concebida por máquinas, nada daquilo foi sentido sequer em farrapos, como acontece ao romancista, que podendo começar a escrita a partir de uma experiência que nunca teve na sua vida, extraindo a essência de sensações alheias, terá sempre de incluir um pedaço de autobiografia, por minúsculo que seja. Existe depois a questão da dose e, do outro lado do abismo, temos a moda do romance autobiográfico. Aí estamos perante outra impossibilidade, pois a memória humana é contaminada por inúmeras distorções, erros e fantasias. A memória é a realidade pressentida mais a imaginação sem a qual não podemos lembrar. O que cada escritor recorda das pessoas que conheceu nunca é a verdade sobre elas, mas uma reconstrução tão legítima e tão falsa como o uso de protótipos na criação das personagens. É o caso de A Morte do Pai, do romancista norueguês Karl Ove Knausgard, o brilhante primeiro volume de uma obra que pretende resumir a vida do autor como ele a lembra, mas pensada muito depois da vivência e transformada em comentário e revelação. Este exercício de memória é uma interpretação repleta de emoções e lacunas, não se confunde com a verdade e, visto à distância, funciona como ficção.

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publicado às 12:15



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