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Ressentimento russo e ilusão imperial

por Luís Naves, em 11.04.14

O dilema da Ucrânia está bem analisado neste texto de Pedro Correia. Concordo com o autor de Delito de Opinião, nomeadamente quando escreve sobre os perigos do apaziguamento e a cedência à propaganda de um agressor que tenta transformar-se em vítima. A Rússia não aceita a ordem do pós Guerra Fria, tal como a Alemanha, nas décadas de 20 e 30 do século passado, não aceitou a ordem imposta pelo Tratado de Versalhes. Assim, a actualidade tem uma explicação: Moscovo considera que este é o momento de travar o declínio imperial e de contestar o arranjo que resultou do colapso da URSS. A estratégia é semelhante à da Alemanha do passado, com intimidação dos vizinhos e instrumentalização de minorias étnicas.


 

Alguns autores, por exemplo Luís Menezes Leitão, consideram que a culpa do conflito é das democracias ocidentais, outros contestam o direito dos ucranianos a definirem o seu futuro contra a vontade da Rússia. Têm circulado também comparações com a crise que levou à Primeira Guerra Mundial, o que a meu ver é uma analogia inútil. Em 1914, a Rússia discutia com a Áustria-Hungria o domínio sobre os territórios dos Balcãs habitados por eslavos e a Alemanha, recentemente unificada, queria esmagar de vez a França, que por sua vez pretendia recuperar a Alsácia-Lorena, perdida 40 anos antes; além disso, alemães e ingleses discutiam a supremacia mundial e estavam em aberto distribuições de colónias, poder naval e domínio económico. Para além de má diplomacia e dos erros cometidos pelos dirigentes das cinco potências, a Primeira Guerra Mundial tem na sua origem rivalidades imperiais que mais tarde ou mais cedo podiam dar origem a um conflito. Está longe de ser o caso do arranjo contemporâneo, onde são mínimos os motivos para guerras entre os cinco grandes.
A Rússia é talvez a excepção, mantendo comportamentos do século XIX, tratando-se de uma potência imperial cheia de ressentimentos. Moscovo pretende cortar a Ucrânia às fatias, mas quanto mais o conseguir, mais difícil será não exibir em público as suas debilidades. As coisas correram mal na Chechénia e menos mal na Geórgia, mas a Ucrânia é maior. O jogador tem cartas na mão, pode desestabilizar a Moldova ou a Letónia, mas em cada jogada aumenta o risco de ser obrigado a cumprir as bravatas. Também aumenta a resistência. Se continuar nesta linha, Moscovo arrisca-se a criar em pouco tempo uma Ucrânia com forte identidade.


Na nova ordem internacional é difícil contrariar a vontade das populações e o seu desejo de paz e acesso à riqueza. Será progressivamente menos eficaz a propaganda que, neste caso, tenta demonizar o lado mais fraco. Europeus e americanos não usarão soldados para defender o direito dos ucranianos à liberdade, mas a arma económica e a liberdade de informação, que venceram a Guerra Fria. O mundo de hoje é sobretudo financeiro e mediático. A opinião pública tornou-se global, as matérias-primas compram-se noutro sítio. Se por qualquer erro de Putin este conflito fosse demasiado longe, a Rússia enfrentaria crescentes dificuldades económicas e isolamento político, falta de capitais, descontentamento interno e declínio tecnológico. Em resumo, voltaria aos problemas crónicos da extensão imperial que mesmo antes do próprio Pedro I forçaram os russos à pobreza e ao atraso relativo.

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publicado às 11:36



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