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Red Planet Mars

por Luís Naves, em 10.01.15

Todos os artistas têm esperança de criar obras que fiquem na memória e resultem em ampla influência, mas a verdade é que o trabalho artístico tem um pacto diabólico com o esquecimento. Os defeitos são mais visíveis nos livros que o tempo rejeitou e, no cinema, as obras datadas contêm uma ingenuidade quase cruel. Na internet é possível ver filmes antigos, alguns de péssima qualidade, e estive entretido a ver uma relíquia dos anos 50, Red Planet Mars, de Harry Horner, com diálogos engraçados e cenas patéticas. Os argumentistas queriam fazer um filme de propaganda e juntaram uma salada que incluía espiões soviéticos, extra-terrestres bondosos, canais de Marte, mensagens religiosas e cientistas alucinados. A má qualidade no cinema e na literatura está provavelmente ligada à junção de várias linhas narrativas banais, cuja colagem anula cada um dos elementos de partida, tornando a história inverosímil e as personagens ridículas.

Em Red Planet Mars surge uma actriz sensual, Andrea King, que nunca triunfou em Hollywood e que, a partir deste filme, acabou por fazer a sua carreira na televisão. Porque razão esta mulher lindíssima não atingiu a fama? A questão lembrou-me o excelente filme dos irmãos Coen, Inside Llewyn Davis, de 2013, sobre um cantor que trabalha sem cessar, que nunca desiste e que possui a coragem de prosseguir contra ventos e marés, com todo o egoísmo necessário, mas que fracassa da forma mais completa. Neste filme espantoso vi um actor de quem se vai falar muito, Oscar Isaac, a interpretar a personagem principal, um homem que recusa o compromisso e um fracassado que todos os amigos culpam pelas próprias falhas.

Llewyn Davis é fiel à sua profissão e, no entanto, não consegue sobreviver da música, por lhe faltar aquele pedacinho de talento adicional, o que quer que isso seja, ou talvez um bocadinho de sorte, a faísca capaz de incendiar o combustível acumulado pelo trabalho sempre insuficiente. Talvez lhe falte ultrapassar a superação, atingir o momento inexplicável. É este o génio do filme: não tenta explicar o que verdadeiramente falta a Llewin Davis ou o que faltou a Andrea King.

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publicado às 18:19



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