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Os fantasmas

por Luís Naves, em 29.10.16

Entre os grupos que se passeiam ao sol feliz do Outono tépido, encontramos os fantasmas. São figuras trágicas que, com certa dose de crueldade, classificamos mentalmente como cromos, por não terem coisas para fazer, por estarem tão obviamente fora da existência normal, por não serem como nós e por viverem assim, esfarrapados e no alheamento. Um deles aproxima-se, mal vestido e sujo, os sapatos rotos, as calças demasiado compridas, no fio, a dançarem no chão. Tem umas madeixas de cabelo a taparem mal a sua confusa cabeça. Investiga brevemente um caixote do lixo. Tal como os outros fantasmas, traz um vistoso saco de plástico, que leva com orgulho, através das margens do grande rio da sociedade. Este também fala sozinho, em longas conversas, como fazia o que encontrei atrás e que costumo ver num centro comercial, a esforçar-se por andar bem vestido, mas visivelmente solitário e com a sua vida parada algures num passado que já só existe em recordação. Hoje, estava apenas a ver passar o mundo, mas geralmente faz pequenas tarefas de vigilância, deixam-no andar por ali, no centro comercial, por ter um ar decente, mas, no fundo, é como os restantes, os que percorrem cenários como personagens em busca de uma deixa e nós, os espectadores, olhamos com divertimento para a interrupção que eles fazem na história, rimo-nos mentalmente, quer dizer, nisso somos civilizados, o nosso riso é puramente mental e acompanhado imediatamente de uma vaga culpa, pois também temos sentimentos e também nos emocionamos com as desgraças televisivas, sobretudo as mais distantes e que estão devidamente arrumadas em narrativas com princípio, meio e fim. Não é o caso destes cromos, pelo contrário, aqui o que sabemos deles? Porque pararam estas vidas? Quem são estas figuras tristes e qual o motivo de se atravessarem tão abruptamente no nosso dia tranquilo?

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publicado às 19:24



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