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Os dominadores

por Luís Naves, em 27.05.17

O fascínio de Os Dominadores, de John Ford, não parece ter explicação. Mistura de história de índios e cowboys, de filme de guerra e sentimental, tem em si qualquer coisa de transcendente e poético. A obra é também, numa leitura mais profunda, uma reflexão despretensiosa sobre a inexorável passagem do tempo, com um pedaço de nostalgia e outro de contemplação dos largos espaços da Terra. Ao rever este filme de 1949 numa cópia com cores baças, pareceu-me mais antigo e precioso: o avanço da coluna de cavalaria no meio da tempestade não era um truque e sentia-se a pequenez do homem na imensidão da paisagem. Aliás, as pequenas coisas humanas da continuidade da vida são envolvidas por uma camada de inocência, mas isto não basta para explicar o fascínio. Estamos num território imaginário, mas não o sentimos como tal. O tempo decorre no intervalo de uma patrulha, mas o filme está impregnado de eternidade. Tudo se ajusta, os actores, os diálogos, a acção, e somos transportados sem resistência para aquele universo inventado onde tudo flui e é movimento tranquilo. Uns filmes envelhecem e outros, mais raros, preservam a autenticidade e a pureza originais. E destes tempos clássicos julgo que saiu uma magia que já não se repete.

Existe igualmente neste filme uma interessante visão de um mundo desaparecido: a ordem ameaçada num território dominado por guarnições, de onde saem colunas em patrulha; os índios armados por empresários sem escrúpulos; a difícil negociação com nativos cujos problemas estão para além do interesse da história; a pax americana benevolente, mas se necessário impondo pela força os valores da civilização; um poder militar ao serviço do progresso, num país com divisões ainda visíveis. Esta foi a América do pós-guerra, hoje não consensual, pois cresce a tendência para estabelecer uma nova estratégia, com menos fortes e guarnições, menos interferência nos assuntos dos nativos, menos patrulhas e domínio.

Assim, este mundo de John Wayne já nem sequer existe, excepto na nossa imaginação, pois acabou depois de Ronald Reagan. 

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publicado às 11:22



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