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O naufrágio

por Luís Naves, em 14.04.16

Conheço jornalistas desempregados que davam para fazer duas redacções de alta qualidade. Há comentadores na blogosfera que, de borla, escrevem textos sem as banalidades que infestam as páginas dos jornais pagos. Cresce o divórcio entre os órgãos de comunicação e o público. Não há estabilidade na vida dos jornalistas que restam na profissão. Eles temem pela perda dos seus empregos, trabalham horas a fio em burocracias mal geridas, mal pagos e sem incentivos, sem perspectivas de futuro, sempre ultrapassados por vedetas bem relacionadas.

Portugal é um país onde a hipocrisia compensa. De repente, deixámos de ouvir falar dos horrores do desemprego e da emigração forçada, as histórias recorrentes no jornalismo do ano passado. A profunda indignação das corporações disto e daquilo também desapareceu. Os jornais discutem minuciosamente temas fracturantes que interessam a meia dúzia de portugueses, desviam para canto as notícias embaraçosas, insistem nas opiniões inócuas dos comentadores que falharam todas as suas previsões nos últimos cinco anos e que continuam a debitar de cátedra.

A comunicação social é um negócio da credibilidade. O divórcio entre público e órgãos de comunicação tem causas económicas profundas: a perda de receitas de publicidade e de leitores para a internet. No entanto, sem a erosão dessa credibilidade, os órgãos de comunicação não estariam em situação tão calamitosa. Gastaram-se fortunas em modernizações tecnológicas, acumulou-se dívida, havia boas relações com o poder político, formaram-se grupos inafundáveis. Agora, estão quase todos falidos e perdem leitores, numa hemorragia sem fim. A comunicação social é um assunto tabu que nunca é debatido pela própria comunicação social. Em Portugal, fala-se de tudo, menos disto; e quando se fala, é com paninhos quentes.

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publicado às 18:54



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