Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




O mendigo irónico

por Luís Naves, em 02.06.15

Sentara-me ali à sombra, na margem do grande rio do mundo, a observar quem passava, velhos e novos, ricos e pobres, apressados e vagarosos. Embora estivesse distraído com os meus pensamentos, vi a certa distância o homenzinho que vinha na minha direcção, baixo e gordo, a estender a mão à clientela da esplanada. Foi enxotado dali e percebi que se aproximava. Tinha cabeleira e barba de profeta, ventre inchado, camisa branca fora das calças, sacos de plástico na mão esquerda, já que a direita ficava livre, para poder estender-se à minha frente, dedos grossos e sujos, palma cavada. Pediu-me dinheiro, numa voz fina que contrastava com o corpo largo de pele escura. Respondi que não dava, primeiro com um gesto da cabeça, embora sem firmeza que o fizesse desistir. O mendigo repetiu o pedido e eu repeti a recusa, desta vez a pronunciar um não que pretendia acabar com a conversa. Ele deitou-me um feroz olhar de desprezo e agradeceu, numa voz fininha que parecia de anjo: ‘Obrigado por ajudares um desgraçado’. Saltitou depois um pouco à minha frente, sempre a olhar para mim. Desistia, caminhou um pouco, hesitando embora, procurando outro burguês sem nada para fazer, mas ainda sem me largar, com tempo para me deixar uma sentença: ‘quando morreres, vais de certeza para o céu’. E lá prosseguiu, muito irónico, em busca da refeição.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:44



Mais sobre mim


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Links

Alguns blogues anteriores

Locais Familiares

Boas Leituras