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O Leopardo

por Luís Naves, em 18.05.17

Revisão de O Leopardo, de Luchino Visconti, que passou na versão original italiana (tinha visto apenas a dobrada em inglês, com a voz de Burt Lancaster). O filme de 1963 narra um período da vida de um aristocrata de meados do século XIX, o Príncipe Salina, que enfrenta o aparecimento de uma nova ordem política, liderada por indivíduos que acumularam riqueza de forma que não está bem explicada, mas que o príncipe parece desprezar. A sociedade de O Leopardo é parecida com a descrita nos livros de Camilo Castelo Branco: também temos ali a pobreza extrema (que não importa ao narrador), camponeses de chapéu na mão saudando aristocratas falidos que vivem de rendas cada vez mais curtas; estes ricos empobrecidos mantêm um estilo de vida faustoso que não podem sustentar, observando com horror a ascensão dos arrivistas sociais, que no fundo pertencem ao mesmo povo que essa classe dominante continuará a pastorear, julgando dispor de um direito divino ao exercício do poder. A revolução é uma mudança controlada, uma tempestade quase cómica que não altera o essencial, embora marque a passagem das gerações e represente uma transição em que se perde afinal algum do esplendor antigo.

Às tantas, dei-me conta de que a história é hoje bem mais certeira do que na década de 50, quando Tomasi di Lampedusa escreveu o livro original (recusado por vários editores durante a sua vida, sendo publicado por um editor comunista). Também hoje vivemos num período de mudança cínica, onde as velhas estruturas se adaptam a movimentos telúricos populistas. Uma parte substancial da população sente que empobrece e mostra descontentamento em relação à distribuição da riqueza, que beneficia de forma desproporcionada a metade superior da sociedade. No fundo, isto também acontecia no mundo do Príncipe Salina: só vemos no filme a dinâmica das classes ricas, mas a revolução traída tinha talvez na sua base o empobrecimento dos camponeses e a acumulação da riqueza pela burguesia emergente. E a ideologia do poder que vemos no filme parece actual: a ordem política dominante triunfa em oposição à desordem caótica dos derrotados, que queriam verdadeiras mudanças.

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publicado às 09:40



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