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O hotel

por Luís Naves, em 26.07.15

 

Uma história parva, escrita em 2006, inspirada numa notícia sobre um hotel alemão exclusivo para uma clientela que detestava o mundial de futebol

 

Não dei pelo erro, porque o hotel estava numa parte fresca e agradável da cidade, rodeado de florestas. Achei quase estranho que me fizessem assinar tanta papelada no check-in, mas a viagem cansara-me e não reparei nos detalhes. O quarto era fantástico e fiquei contente por o preço ser tão acessível. Larguei o casaco sobre uma cadeira; o bagageiro colocou as malas com cuidado no chão e despediu-se com um sorriso. Antes de me lançar sobre a cama e dormir, ainda tive um baque no coração, uma súbita ansiedade. Corri para o casaco e descansei. Lá estava o bilhete, o precioso bilhete dos oitavos de final. Tinha um dos melhores lugares do estádio para ver o Portugal-Argentina. Enfim, adormeci a imaginar as jogadas do Deco e do Figo, o magnífico golo do Pauleta. A vitória portuguesa e a magia do melhor jogo...
Na manhã seguinte, ao acordar, estranhei o silêncio no hotel e, sobretudo, que não houvesse uma televisão no quarto. Em pleno mundial de futebol, um quarto sem televisão! Era peculiar!
Quando desci para o pequeno-almoço, esqueci o assunto. A sala de refeições estava vazia, excepto o casal de velhos e uma loura espampanante. A comida era magnífica. Regressei ao quarto e descansei. Sentia-me já em estágio para o grande jogo dessa noite, poupando energias.


Às onze, desci para ler os jornais e estranhei que não houvesse jornais. Lembrei-me da televisão e abordei o rapaz na recepção:
“Pode explicar-me porque razão não há televisão no meu quarto?”
O rapaz olhou-me com um ar desconfiado, como se o meu cartão de crédito estivesse na lista negra. Apesar de tudo, insisti:
“E não me arranja aí uns jornais, para ver os resultados do futebol? Nem que seja o Financial Times!”
O tipo olhou para mim com ar alarmado. Empalidecera. Pegou no telefone e chamou um tal de doutor Fassbeander. Estranhei!
Chegou de um corredor lateral aquela figura magricela e agitada. O doutor Fassbeander lembrava Peter Sellers, o actor. Falava com forte pronúncia e tinha um tique nervoso, um súbito espasmo da metade direita da cara, que lhe distorcia os músculos, obrigando-o a uma horrível piscadela de olho.
“O Swarzkopf disse-me que o senhor pediu jornais...”, disse Fassbeander.
“Quem é o Swarzkopf?”
“O rapaz da recepção”.
“Ah!”
“E para que quer os jornais?”
“Para ver os resultados do futebol!”
Ao ouvir aquilo, Fassbaender entrou em transe. Levou as mãos ao cabelo, muito excitado.
“Uma recaída!”, exclamou, como se falasse sozinho.
Foi então que ele apontou para o que estava escrito, em letras garrafais, na recepção, e que eu não vira:
“Hotel anti-mundial. Tranquilidade e retiro. Garantimos aos clientes total isolamento do fanático vício do futebol”. Ia-me dando uma coisa. Ao chegar ali, estava ensonado e não vira o cartaz. Compreendi que, ao assinar a papelada, na recepção, abdicara da minha liberdade de ver as meias-finais. 
Fassbeander colocou o braço sobre o meu ombro e levou-me para junto da piscina:
“Herr Naves, quando concluiu o check-in, fez um pedido de ajuda especializada e colocou-se nas nossas mãos. Como bem sabe, este é um hotel para férias sem futebol. Estará totalmente separado das agitações desse jogo funesto. Esteja tranquilo, sou um psiquiatra encartado e vou libertá-lo do vício do futebol. É uma adicção grave, tão grave como drogas duras. Mas temos o remédio”.
Depois, Fassbeander chamou dois enfermeiros:
“Aqui o herr Naves está a ter uma recaída. Levem-no para o quarto e mantenham-no lá fechado. E procurem nas bagagens, se ele tem algum bilhete para jogos”.
Tremi, ao ouvir aquilo. Felizmente, tinha o bilhete do Portugal-Argentina bem escondido.
Os dois gorilas, ao carregarem escada acima os meus cem quilos, parecia que levavam pela mão um saco de penas. Mesmo assim, estrebuchei e protestei, lembrei-lhes os meus direitos constitucionais e fiz ameaças, nomeadamente de que era primo de uma amiga do embaixador, o que os fez rir. Como estava a entrar em desespero, lembrei-lhes que aquela atitude era uma violação dos tratados da União Europeia, o que os fez rir em grandes gargalhadas.
No meio da confusão, reparei numa cabeça loura que fugidiamente apareceu numa porta entreaberta, para logo desaparecer no interior do quarto. Essa porta fechou-se de imediato, embora sem ruído.
Os enfermeiros lançaram-me para dentro do quarto e fizeram uma busca pouco minuciosa, à procura de bilhetes para jogos. Não encontraram nada e saíram, ainda com substanciais risadas.
Comecei logo a imaginar planos de fuga, mas nenhum deles parecia poder funcionar. Então, senti leves pancadas na minha porta. Fui abrir. Era uma mulher loira, espampanante. Tinha-a visto antes, na sala de refeições. Com gestos conspirativos, entrou pelo meu quarto:
“Chamo-me Conchita Velásquez”, disse ela, falando baixinho, em castelhano. “E sou argentina”.
Conchita chegara ao hotel no dia anterior, para ver os oitavos de final do campeonato. Mas cometera o mesmo erro que eu. Felizmente, também conseguira esconder o seu bilhete do malvado Fassbeander. De repente, estávamos a discutir planos a dois.
“Não posso perder este Argentina-Portugal”, disse ela.
“É um Portugal-Argentina”, esclareci.
A primeira ideia que tivemos foi sair pela porta da frente, aproveitando uma distracção dos guardas. Fizemos um cuidadoso reconhecimento do trajecto, mas depressa vimos que havia sentinelas nos principais pontos de fuga. Gastámos imenso tempo nessas tentativas frustradas e quando nos apercebemos da urgência da situação, faltavam menos de duas horas para o início dos oitavos de final. O plano B parecia mais eficaz. Foi Conchita quem o imaginou, pois tinha estudado cuidadosamente a arquitectura do hotel:
“Há um corredor que vai dar a uma zona de serviço menos frequentada”, explicou ela e eu comecei a observá-la melhor: o seu corpo perfeito, embora pequeno; a pele morena (sim, o cabelo loiro e comprido era pintado); uma certa disposição fogosa, que lhe transmitia um encanto permanente. Olhei o relógio e disse que faltavam 45 minutos para o início do jogo. Ela disse que não havia mais tempo a perder: pôs ao ombro uma malinha castanha, pegou numa blusa azul e branca e avançou em busca do tal corredor, liderando a nossa evasão. Era uma mulher de armas. Tinha as calças muito justas e as pernas bem desenhadas avançavam com uma determinação que não seria possível alguém travar..
Tal como previra Conchita, passámos facilmente as primeiras barreiras do caminho e conseguimos chegar aos jardins do hotel. Só tivemos azar na última fase da fuga e fomos detectados por um dos dois enfermeiros, que saíra mesmo a essa hora para fumar um cigarro.
Mas já ninguém podia evitar a nossa fuga. Descemos a alameda e encontrámos um táxi. Ordenámos ao taxista que fosse para o estádio, na máxima velocidade, pois só faltava meia hora para o início do jogo. O táxi arrancou e ainda ouvimos os gritos de Fassbaender, que tentava impedir-nos de fugir.
Nas imediações do estádio, começámos a ver as claques portuguesa e argentina. E foi então que cometemos um erro fatal: devíamos ter-nos separado, Conchita e eu, e Fassbaender nunca nos teria apanhado. Mas não o fizemos, por uma questão sentimental, talvez; nos filmes de evasões, os fugitivos nunca se separam.
Foi na porta 2B que Fassbeander nos capturou. Ele vinha acompanhado de um polícia enorme e sorridente, que lembrava Curd Jurgens. Aliás, era tão parecido com Curd Jurgens, o actor, que julguei ter enlouquecido.
“É preciso impedir estes dois doentes de verem este jogo de futebol”, gritava Fassbeander.
Curd Jurgens, o polícia, olhava para os nossos bilhetes, mas não se comoveu. Acreditara no que lhe dizia o doido Fassbeander, que dava saltinhos nervosos e não se calava. Ainda tentei apelar aos adeptos portugueses que entravam pela porta 2B e Conchita abria os braços, apelando aos argentinos sorridentes que entravam no estádio. Mas Curd Jurgens foi inflexível.
À hora em que devia ter começado o jogo, eu e Conchita estávamos num quarto do hotel anti-mundial, fechados à chave.
Ela tirou os sapatos e deitou-se na cama. Desesperada, começou a chorar baixinho. Aproximei-me dela, comovido.
“Tenho a certeza de que a Argentina vai vencer o jogo”, disse eu.
“Não, Portugal é mais forte”, respondeu ela, com a cara repleta de lágrimas.
Foi naquela preciso momento que compreendi a sua beleza. E, apaixonado, aproximei os meus lábios dos dela e beijei-a longamente, a pensar na melhor maneira de romper a defesa da Argentina

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publicado às 19:05



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