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O direito à liberdade

por Luís Naves, em 25.02.14

Os regimes pós-comunistas foram em grande parte formas de continuidade dos sistemas comunistas. Esquecer esta circunstância impede a compreensão de conflitos como aquele a que assistimos na Ucrânia. Por estes dias, assistimos ao verdadeiro fim do regime, ou pelo menos à hipótese de revolução autêntica, havendo imagens que lembram o derrube de Ceauscescu, na Roménia de 1989. Os pós-comunistas pró-russos podem ainda conseguir dar a volta à situação, mas é difícil fazer a água subir o rio. A Ucrânia está em mudança e talvez tenha ganho uma nova identidade.
Entre nós, alguns esforçam-se por contar esta história numa versão de guerra fria, inteiramente pró-russa e com indisfarçável desprezo pelo direito do povo ucraniano à liberdade. É impressionante o contraste com a cobertura que os jornalistas portugueses fizeram da queda do império soviético, a partir de 1989. Nas últimas semanas, ouvimos referências contantes aos fascistas e a ocultação do carácter profundamente corrupto do presidente entretanto derrubado (que mandou ‘snipers’ matar manifestantes). A Bielorrússia é a próxima e vamos ouvir tudo outra vez a propósito do ditador local.


Em relação ao futuro imediato, é natural que a Rússia tente travar a ocidentalização da Ucrânia, pois Moscovo tenta reconstruir o império russo e esse desejo faz parte do mito do próprio Vladimir Putin. No entanto, a prazo, a Rússia deverá entender-se com a União Europeia, mesmo antes de surgir um regime mais democrático no Kremlin. Aliás, a História da Rússia foi marcada pela oscilação entre fases de aproximação ao Ocidente europeu ou de afastamento em relação a este; e todos os grandes momentos de grandeza foram os de aproximação. Por isso, a crise em Kiev não deixa de constituir uma oportunidade para o próprio Putin. Se a Rússia quiser ter um verdadeiro futuro como potência (pelo menos entre as cinco maiores) terá de encontrar uma forma de se acomodar com os europeus ocidentais. A sua abundância em matérias-primas e território são pontos fortes, mas está a agravar-se o problema demográfico. O império é simplesmente demasiado grande.
Em relação aos europeus, a questão é simples: têm de acabar com as contas de merceeiro e começar a pensar seriamente como será feito o alargamento aos Balcãs, à Ucrânia e à Turquia.
      

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publicado às 14:12



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