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Novo sismo eleitoral

por Luís Naves, em 09.06.17

Novo sismo eleitoral no Reino Unido: em legislativas antecipadas, num erro de cálculo histórico, o Partido Conservador desbaratou a maioria que tinha no parlamento. Embora fosse o partido mais votado e a primeira-ministra Theresa May possa formar novo governo, é possível que haja uma insurreição interna ou uma situação de alta instabilidade. Na prática, existe um parlamento ‘pendurado’, ou seja, um impasse a exigir coligação. Este resultado confirma o padrão de insatisfação popular nos países desenvolvidos: o eleitorado não quer a política habitual nem os políticos do costume, os que vivem na sua bolha, alheados da realidade. Os conservadores entraram nestas eleições demasiado confiantes, não perceberam o descontentamento popular e fizeram uma péssima campanha. May queria negociar na Europa com a sua autoridade reforçada, mas vai entrar nas negociações do Brexit, dentro de dias, num calamitoso estado de fragilidade. A primeira-ministra subestimou o adversário, Jeremy Corbyn, que ganhou com o regresso ao bipartidarismo tradicional e que parece seguir com habilidade a máxima de Napoleão: ‘nunca interrompas o erro do adversário’.

Estas eleições mostram a crescente importância da gestão de expectativas. Muitos britânicos assustaram-se com a possibilidade (ainda em Maio) de um triunfo absoluto dos conservadores. As sondagens de Abril e Maio apontavam de forma unânime para uma diferença superior a cem deputados em relação aos trabalhistas (afinal, foi de apenas 57). Nos seus cálculos complacentes, os conservadores pensaram que iam garantir 80% dos votos do partido nacionalista UKIP, que praticamente desapareceu; ora, os trabalhistas atraíram uma proporção significativa destes eleitores, talvez mais de metade, garantindo com esse acréscimo de dois ou três pontos percentuais que os conservadores não ganhavam por landslide, ou derrocada do adversário. Ontem, embora fossem perdedores (ficaram em segundo lugar e não formam maioria), os trabalhistas definiram-se logo como os vencedores das eleições. Todos os eleitos repetiam a narrativa de que tinham ganho e os observadores, internos e externos, diziam o mesmo. Como se esperava o colapso do partido, a votação competitiva pareceu uma vitória. Vivemos assim numa fase estranha das democracias, em que os derrotados podem sair vencedores e os que ganham podem ser considerados ilegítimos.

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publicado às 13:04



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