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Notas eleitorais: a indecisão

por Luís Naves, em 26.05.14

Se a leitura europeia é ambígua, as nacionais são para todos os gostos. Em Portugal, as pessoas votaram contra a austeridade, mas não apoiaram a oposição. O eleitorado parece querer uma esquerda diferente, com outras pessoas e que possa fazer pontes para diferentes críticas da situação, ao estilo da que faz Marinho e Pinto. No fundo, rejeitando o presente, o eleitorado quer mudança, embora sem radicalismo: o Bloco de Esquerda perdeu mais de metade dos eleitores que tivera nas anteriores europeias; o Livre não voa; a CDU teve boa votação, mas o seu progresso foi inferior a dois pontos percentuais face a 2009, parecendo mais protesto do que solução.

O governo sofreu um espancamento, mas só com palavras este PS não chega lá. A comunicação social, ontem muito surpreendida, criou um caldo de cultura segundo o qual é possível viver fora da realidade. Este foi o resultado. Em legislativas, com valores semelhantes, o arco da governação teria perdido a legitimidade; tinha mais deputados, formava governo, mas Portugal mergulhava no caos. Em resumo, o País tem ano e meio para resolver isto.

 

A direita espera subir e acredita que o milagre da recuperação económica provará aos eleitores que a austeridade valeu a pena. A esquerda tem um problema mais grave: por um lado, mantém uma retórica inflamada (foi patético ver ontem o triunfalismo dos socialistas) mas defende o Tratado Orçamental; a alternativa é propor uma mudança que lhe traga a vitória nas urnas, embora com o risco elevado dessas promessas não poderem ser minimamente cumpridas.

A Aliança Portugal demonstrou que a soma PDS e CDS é menor do que a dos dois partidos separados. Também parece sugerir que há espaço para novas formações do centro-direita. De qualquer forma, do ponto de vista do governo, a única opção é manter o rumo. O dilema da esquerda será mais difícil de resolver: como conquistar o centro sem apoiar o rigor nas contas públicas? Se o PS não colaborar nas medidas de austeridade e nas reformas, leva o País outra vez à bancarrota; se colaborar, ganha as eleições, mas apenas por margem mínima, e vê o eleitorado fugir do sistema para movimentos populistas à sua esquerda.

A abstenção também parece indicar que muitos eleitores (talvez dois milhões) estão à espera da clarificação e do período pós-crise para decidirem onde votar. Não é cinismo, é prudência.

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publicado às 12:45



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