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Ninguém tem tudo (conto)

por Luís Naves, em 30.08.14

Ao tomar um banho de chuveiro pela manhã, o tipo escorregou e estatelou-se na banheira de forma catastrófica. No meio do pânico, transido de dores, pensou que já não iria sair à tarde e não poderia cumprir o compromisso que tinha marcado uma semana antes. A perna estava maltratada e foi um sarilho dos diabos levá-lo às urgências, onde ficou à espera umas horas, durante as quais se lembrou, por mero acaso, de telefonar a desmarcar o compromisso que exigiria tirar o carro da garagem e fazer-se à estrada; depois recebeu tratamento e após sofrer e gritar de forma patética, até as enfermeiras acharam exagerado, acabou por ter alta do hospital, sem precisar de internamento. Não tinha fracturas, mas as dores eram intensas e queixou-se durante uns dias da sua má sorte, que não fora toda má, mas ele não podia saber e vocês só sabem porque eu estou a dizer antes de tempo, na minha qualidade de narrador impaciente, daqueles que conhecem todos os pormenores da situação mas não são capazes de manter o interesse do leitor naquela interessante tensão entre o saber pouco e o querer saber mais.

 

 

Escorregar na banheira é uma maneira ridícula de quase partir uma perna e as nódoas negras levaram uma semana a passar. Mais hematoma, menos hematoma, nas pernas e costelas, o tipo tivera afinal alguma fortuna, mas julgou que isso se devia a não ter partido nenhum osso. Era uma boa alma e desconhecia uma parte importante da verdade. À hora a que saiu do hospital, amparado por dois primos, ele devia estar a conduzir o automóvel, um opel cinzento, para o tal compromisso, isto se não tivesse escorregado na banheira algumas horas antes. O carro, como já referi, era um daqueles modelos que não são suficientemente fortes para resistir ao impacto de um camião TIR. Exactamente à hora em que o carro devia ter passado naquele sector da estrada, despistou-se um camião pesado que levava uma carga de colchões novinhos em folha; a carga estava mal presa e fez com que o camião se inclinasse para a esquerda, na direcção da outra faixa. O caso deu-se em meio segundo, que é tempo de sobra para um camião se inclinar para a esquerda e sair desarvorado na parte oposta da estrada. O camionista assustou-se com a inclinação dos colchões mal acondicionados (tinham saído da fábrica e ainda cheiravam a novos) e, num movimento quase instintivo, no mínimo irreflectido, guinou o volante e o camião precipitou-se para o lado oposto da estrada e saiu descontrolado pela berma, onde havia uma ligeira vala e depois um pequeno campo lavrado, pelo que o veículo deu um salto extraordinário, como se fosse um cavalo a escoicear, pelo menos esta foi a descrição posterior da única testemunha, que assistiu a tudo e até falou com o empregado do reboque, que não se interessou demasiado com o relato dele, pois estava a colocar o gancho e a fazer cálculos de cabeça se o reboque tinha força suficiente para tirar o camião do batatal. De resto, havia grande espalhafato, os colchões espalhados pela terra lavrada, que até parecia que o espantalho se podia ali deitar para uma soneca simpática. Mas se queremos o episódio bem relatado, o espantalho quase foi esmagado por um colchão voador, que caiu praticamente aos seus pés, maneira de dizer, pois o espantalho não tinha pés. 

 

Pouco depois do despiste chegou a patrulha da guarda que recolheu o depoimento do motorista ainda antes de chegar a ambulância, a qual levou a única vítima por simples precaução, pois o despistado estava incólume, mas tinha ainda um pouco de nervos em franja (foi para o mesmo hospital onde estava o sortudo dos hematomas que escorregara na banheira). Ninguém quis ouvir a única testemunha do despiste, mas o camionista ainda teve tempo para explicar aos polícias como perdera o controlo do volante, devido à tal carga mal presa, e disse, aliviado, com o sangue frio que lhe restava: “Ainda bem que não vinha nenhum carro na outra faixa, ou tinha sido uma desgraça”. Foi neste ponto que um dos polícias concordou que fora uma sorte no meio do azar e a testemunha, que queria entrar na conversa, confirmou: “Não vinha nenhum carro na outra faixa”, disse, numa repetição que o polícia interpretou como confissão de não ter visto coisa alguma. “Este gajo não é lá muito credível”, pensou o agente.

 

Enfim, não circulava nenhum carro na outra faixa, acrescento eu, na qualidade de narrador omnisciente, que tudo sabe e tudo compreende, pela razão simples de não ter saído da garagem nesse dia um certo e determinado opel cinzento, pois o condutor escorregara na banheira e ficara maltratado na perna, não podendo conduzir e, pelo motivo já referido, o ferimento, adiou o compromisso que tinha para aquela tarde e que o teria levado a uma rota de colisão com o camião TIR que transportava os colchões, um dos quais ficara aos pés do espantalho, maneira de dizer.

Naquele meio segundo que foi suficiente para a guinada inesperada do camião TIR, o opel estaria no exacto ponto da estrada e na faixa de rodagem oposta onde ocorreu o despiste. O facto de não haver nenhum carro na outra faixa e do camião se ter atolado no batatal, onde ficaram espalhados vários colchões por estrear, e que era um dó de ver pelo desperdício, foi completamente confirmado em notícia de cinco linhas de jornal, feita por um repórter ensonado e de plantão, que na tarde do acidente telefonou para as ocorrências policiais, tendo sido devidamente informado pelo guarda de serviço sobre aquele evento sortudo, embora sem o privilégio de visualizar toda a cena dantesca dos colchões por estrear espalhados pelo batatal, um deles mesmo em frente ao espantalho de assustar pássaros.

Mais informo, na já mencionada qualidade de narrador, que um exemplar do jornal com a notícia chegou às mãos do proprietário do opel, que magoara a perna na véspera, ao escorregar na banheira, e que não tendo nada de melhor para fazer nessa manhã, cheio de dores pelas nódoas negras, leu a tal notícia de cinco linhas, distraído e sem reparar que o texto era sobre ele, embora de forma indirecta, pois o quase acidente envolvendo duas viaturas, transformado em simples despiste pela escorregadela na banheira, ocorrera na estrada que ele deveria ter percorrido à mesma hora, embora na faixa de rodagem oposta e em sentido oposto ao camião TIR que levada os colchões por estrear. As costelas doridas não facilitaram a leitura e foi no exacto momento em que lia essas cinco fatais linhas que o homem sentiu uma forte dor na perna, ou antes, uma espécie de comichão que o levou a amaldiçoar a sua falta de sorte e a distrair-se do que lia. Pensou, com extrema nitidez: “O azar que eu tenho”, já esquecido da notícia sobre a carga mal acondicionada que tinha feito bascular um camião na estrada, provocando o golpe instintivo de volante e o despiste catastrófico. O referido texto rematava com uma frase bondosa sobre a felicidade de não ir nenhum carro a passar na outra faixa, mas já não houvera espaço para mencionar todos aqueles colchões espalhados pelo batatal, um deles que voara quase até atingir o espantalho, muito infeliz naquele dia, pois em vez de assustar os corvos parecia meio ridículo, transido de medo pela sua experiência de estar ali a fazer de alvo.

 

E os colchões serviram de curiosidade para os corvos, que vieram todos ver o que se passara naquele batatal, ignorando o espantalho sem pernas, que ainda não recuperara do susto e que, de qualquer forma, era geralmente ignorado. Os pássaros estavam surpreendidos por não verem ali os restos esmagados de um opel cinzento, posso garantir que foi isto que pensaram, ao debicarem com requintes de malvadez os colchões novinhos em folha, e só garanto isto por ser narrador omnisciente, daqueles que sabem tudo e compreendem até o linguajar dos pássaros e podem ligar os fios todos, mesmo os que possam parecer frágeis ou eventualmente quebrados.

E ainda falta referir a segunda oportunidade da testemunha, que três meses depois assistiu a um assalto (ninguém se magoou, mas os bandidos fugiram) e quando chegou o carro da polícia, o agente interrogou o dono da loja e dois dos clientes. A testemunha achou estranho que ninguém lhe fizesse perguntas, até comentou isso em casa, à noite: “Quando me ofereci para contar o que acontecera, o guarda, que andara por ali a interrogar toda a gente, fechou o bloco de notas e disse que já tinha tudo. Ora, quem é que tem tudo? Ninguém tem tudo!”

 

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publicado às 19:39


2 comentários

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De Helena Sacadura Cabral a 30.08.2014 às 22:30

Delicioso este teu conto.
Sorte minha, porque se não tenho lido o conto que omniscientemente narraste, poderia vir atrás ou à frente do Opel cinzento e apanhar com alguns colchões a cheirarem a novinhos em folha. E, claro, não poderia ter escrito estas linhas, o que seria manifestamente uma perda. Mas, como dizes, ninguém tem tudo!
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De Luís Naves a 31.08.2014 às 00:05

Agradeço a leitura e o comentário

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