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Naquele tempo

por Luís Naves, em 20.05.15

Naquele tempo, o mundo era diferente. As pessoas vestiam-se de outra maneira, não existia internet e ninguém usava telefones portáteis, só havia linhas fixas e as ligações tornavam-se difíceis quando muitas pessoas telefonavam ao mesmo tempo. Era criança, mas lembro-me. As cidades tinham crescido demasiado depressa e, por vezes, nos subúrbios novos não havia água ou faltava a electricidade. O metropolitano possuía uma linha única e era um luxo fantástico, vinham pessoas de fora só para ver aquela maravilha. A auto-estrada acabava logo, prolongava-se por 30 quilómetros apenas; e, tirando pequenas ilhas de modernidade, o país continuava tão atrasado como sempre fora; os comboios pareciam velhas carcaças que se arrastavam por ferrovias antiquadas, entre estações onde a História parecia ter parado.

Nesse tempo, construíram-se fábricas e grande bairros de apartamentos, mas a vida manteve-se lenta e pausada. As rádios eram todas idênticas (nem sei se havia muitas estações) e só passavam a música permitida. Éramos católicos, líamos jornais censurados e recebíamos informação rigorosamente controlada. Os discos, esses objectos valorizados, riscavam-se com um gesto mais brusco e faziam um ruído estranho quando a agulha do gira-discos deslizava sobre eles, num suave movimento de ondulação. Nos escritórios, ouvia-se o infernal batuque das máquinas de escrever e era difícil dactilografar sem erros: tudo tinha de ser escrito várias vezes. Ninguém tinha impressoras, nem música digital, nem sequer livros electrónicos, mas havia vendedores de enciclopédias que iam de casa em casa.

Nesse tempo, o País tinha o coração cinzento, das fardas dos polícias e dos carros oficiais, do excesso de sotainas, da literatura provinciana e dos estudos retóricos, das televisões a preto e branco. Muita gente emigrava e esses emigrantes regressavam no Verão, com um falar esquisito e guiando carros caros, trazendo mulheres loiras que se se bronzeavam em biquíni e dizendo que lá fora é que era bom. Por aqui, havia futebol e ouvia-se fado, respirava-se a tristeza de um mundo, que resistindo ainda, adivinhava que os seus dias estavam contados. Da guerra em África, falava-se pouco, como se falava pouco de sexo ou política. Este era um país de cidades ainda meio feitas e habitadas pela nostalgia das aldeias dispersas em vales pobres, todas muito parecidas umas com as outras, com as suas casas caiadas de branco, o largo da igreja, a torre sineira, o chafariz público, o cheiro dos estábulos, as moscas, o posto de correio e a taberna escura.

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publicado às 11:48



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