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Mocidade, de Joseph Conrad

por Luís Naves, em 13.08.16

Muitos exemplos de grande literatura são textos curtos sobre temas simples, mas que escondem uma profunda complexidade. É o caso deste conto de Joseph Conrad. Mocidade terá sido um esboço para a obra-prima do autor britânico de origem polaca, O Coração das Trevas, publicado um ano depois, em 1899. O narrador é o mesmo nos dois textos, Marlow, também o narrador de Lord Jim. O escritor usa no conto e na novela o mesmo esquema narrativo, de alguém que conta uma história antiga aos amigos. Mocidade é uma história de homens fracassados, que executam com valentia uma viagem cheia de obstáculos. O texto está repleto de pequenas observações certeiras sobre as personagens, por exemplo, “um homem que tivera, tinha ou esperava ter desgostos”, e descreve em tom nostálgico os perigos que mudam uma vida. Conrad fez aos 21 anos uma viagem parecida com a que descreve, num velho navio fustigado por tempestades, vítima da combustão espontânea da sua carga de carvão, incluindo a explosão quase catastrófica e a propagação imparável do incêndio, culminando no abandono do navio perdido.

Num plano mais simbólico, há neste texto uma metáfora do mal que nos acompanha, que se esconde no porão da sociedade e cuja superação é o verdadeiro triunfo. É pelo menos assim que Marlow olha para aquele episódio: “Para mim era o esforço, a prova, o julgamento da vida” o mais importante, ou, como escreve mais à frente, “a convicção triunfante de termos força, o calor da vida numa mão cheia de pó, aquela chama do coração que ano após ano esmorece, esfria, encolhe até se apagar de todo...e se apaga cedo, muito cedo... antes da própria vida”. Em Mocidade, temos a prova da vida, a superação da juventude, o combate contra o fogo escondido que arde no interior do navio condenado. Os homens revelam-se na adversidade, na coragem sem glória, na suave crença do humano, nas marcas do tempo que vão apagando a chama do coração.

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publicado às 12:35



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