Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Mal-encarado

por Luís Naves, em 31.05.17

A impaciência crescia, igual uma comichão incómoda, das que não nos livramos sem esgravatar sob a pele com as unhas afiadas da raiva. O corpo cansado recusava-se a avançar no doloroso caminho que o Sol abrasava. Todas as pessoas feias me irritavam, mas sobretudo as bonitas, pois a beleza é um insulto: esta por falar alto, a outra por se meter à minha frente; e havia o peso do casaco demasiado quente que me sufocava e a necessidade de gritar no meio da rua, sem que isso fosse possível. A brisa ácida trazia com ela o cheiro da comida gordurosa. Os carros tentavam atropelar-me e cresciam outras ameaças à minha volta: o cão perigoso que me evitou, transeuntes hostis, jovens que falavam alto e me queriam empurrar do passeio, o vendedor que me impingia algo e desistiu logo, o bronco tatuado que caminhava a sorrir (para quê), a velha irritante cheia de sacos, o miúdo com os pés no banco a olhar para o telemóvel, o chão sem sombras, o avião a rugir por cima das casas, a pomba parva que trotava à distância de um pontapé, a fila de carros parados a buzinar, as manchetes cretinas dos diários e o tom delico-doce das montras, tão felizes, que apetecia espatifar com uma pedrada.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:47



Mais sobre mim



Links

Alguns blogues anteriores

Locais Familiares

Boas Leituras