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Lendo os jornais

por Luís Naves, em 15.02.15

Quando lemos os jornais antigos, percebemos que o tempo teve um efeito brutal sobre os grandes temas, tornando-os quase incompreensíveis. Ao escreverem as notícias importantes, os jornalistas de cada época presumem que os leitores estão a par da generalidade dos detalhes. Assim, o estilo das prosas mostra certa cumplicidade, recorrendo à omissão de elementos cruciais, insinuando episódios anteriores da intriga, todos do conhecimento público, e que é inútil mencionar.

Se o jornalismo político de 1915 é hoje ilegível, de igual modo um leitor do futuro terá dificuldade em perceber o que foi importante para nós durante estes dias, podendo até pensar que estávamos numa crise sem saída. Das peripécias da política interna vão perceber pouco e estranhar a rudeza das palavras; será espantoso que se desse tal importância às dificuldades da Grécia e surgissem tantas opiniões a desmentir os factos disponíveis. No início de 2015, havia conflitos importantes em vários Estados falhados e os radicais islâmicos atacavam em locais pacatos do Ocidente, mas nas conversas em Portugal as pessoas falavam sobre outros fait divers: um filme erótico para esquecer, sacos de plástico pagos nas lojas, pessimismo, futebol e dinheiro; falavam sobre o futuro incerto, doenças e as proezas dos filhos; falavam das férias de sonho, de comida e de roupa. No mundo, havia tragédias e calamidades, medos, discussões estéreis e paixões à flor da pele, mas o essencial da nossa vida era a continuidade de dias semelhantes uns aos outros.

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publicado às 19:12



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