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Leituras da tarde

por Luís Naves, em 14.02.15

Passei a tarde a ler jornais e tento em vão lembrar-me de tudo: fotos espectaculares de gigantescas cavernas de gelo num vulcão da Antárctida (monte Erebus); um artigo de Niall Ferguson sobre o acordo de Minsk, texto hostil a Moscovo, onde o autor fala de "conflito congelado"* e cita a História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides, na famosa passagem da perdição de Melos, quando os atenienses explicam que os direitos e a justiça se aplicam apenas entre iguais, pois “o forte faz o que quer e o fraco sofre o que deve”**. Curiosamente, no mesmo Financial Times onde surge este episódio a propósito da Ucrânia, há um artigo onde se fala dos pobres melianos vítimas dos atenienses, mas a analogia aplica-se desta vez aos gregos na crise das dívidas soberanas: ou aceitam prolongar o resgate ou saem da zona euro. Os europeus e os mercados assumem o papel dos atenienses.

Como é fraca a memória, sendo este aliás o fio condutor do obituário do jornalista americano David Carr, que segundo o belíssimo texto do El Pais “se investigou a si mesmo”. Numa fase da sua vida em que mergulhou nas drogas, tinha a recordação de lhe terem apontado uma pistola; não se lembrando do que fizera, entrevistou as testemunhas desse período negro da própria vida, usando os métodos de reportagem e o mínimo de opinião ou lembrança***.

A reportagem aproxima-nos da verdade, mas no meu caso parece que a leitura de uma tarde desapareceu quase por inteiro. Sei que li sobre carros digitais no futuro, o custo das transmissões televisivas no desporto, a esmagadora derrota do Hamburgo por oito a zero, a corrupção no exército chinês, a última sondagem sobre as próximas eleições na Andaluzia (esquerda em dificuldades e direita envolvida em escândalos), vários artigos sobre a recuperação económica na União Europeia e ainda sobre os refugiados kosovares que entram na UE pela fronteira da Hungria, vindos da Sérvia.

Esta última história é mais próxima, pois fui testemunha dela há dois meses, ainda no início do estranho êxodo. Os imigrantes entram sobretudo por uma aldeia a 30 quilómetros de Szeged, mas alguns tentam junto à cidade e chegam ao bairro onde fiquei na altura do Natal, na extremidade sul e virado para a fronteira. No google não parece demasiado difícil: dez quilómetros a corta-mato desde a Sérvia e, evitando a estrada principal, chega-se ao terminal do autocarro que parte para o centro e para a estação ferroviária. Na estrada nacional e apenas numa direcção, caminhavam grupos de pessoas com sacos às costas e sob frio intenso. Pareciam famílias inteiras, com homens, mulheres, crianças. Na altura, achei aquilo estranho, mas não imaginei que fossem kosovares. Agora piorou, os jornais dizem que aparecem milhares de refugiados por dia.

 

* A expressão de Ferguson é mais sugestiva em inglês, frozen conflict

** História da Guerra do Peloponeso, Tucídides, tradução de David Martelo, Edições Sílabo

*** Resultou num livro que deve ser bem interessante, The Night of the Gun

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publicado às 19:24



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