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Intolerância e bipolarização

por Luís Naves, em 09.12.15

As últimas semanas demonstraram que a sociedade portuguesa tem no seu código genético certa tendência para a intolerância. A partir de agora, temos a retórica do tudo ou nada, má qualidade do debate público, agressividade dos comentadores e argumentos fantasistas da esquerda, que vê em simples manobras tácticas grandes batalhas ideológicas. A propósito do espirro de um dirigente, tornou-se moda para alguns dizer que a direita se radicaliza; isto agora vai mudar tudo, dizem outros, vendo vastas cedências na declaração burocrática de um responsável europeu que quer tudo na mesma; vem aí a “austeridade inteligente”, afirmam certos crentes, como se a austeridade fosse “estúpida” ou “inteligente”, conforme o autor.

A política entrou numa onda de crispação que vai ignorar o voto de 38% do eleitorado. A direita tem um problema: só será poder com maioria absoluta, pois acabou a hipótese bloco central que permitia resolver situações de impasse. Sem novo partido ao centro, CDS e PSD terão todas as razões para se entenderem em coligações pré-eleitorais, mas precisarão de 43% dos votos para chegar ao poder, o que é a fasquia mais alta da Europa*. No futuro, independentemente do que disser antes das eleições, o PS ficará colado a parceiros que até hoje eram sobretudo partidos de protesto à sua esquerda, mas precisa de menos votos para lá chegar. A bipolarização cria dois campos pouco coerentes e demasiado antagónicos. Esta estratégia de António Costa foi um erro crasso, que o país pagará caro: representa a ruptura na III República e surge numa altura em que é o pior sistema possível para um país que precisa de continuar as suas reformas.

 

* Tipicamente, qualquer partido europeu chega ao poder com 35-36% dos votos, basta ser o mais votado; no fundo, temos agora o sistema que os espanhóis se preparam para eliminar, de bipolarização crispada, mas com a agravante de haver desequilíbrio anti-democrático entre as duas forças (uma precisa de muito mais votos do que a outra).

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publicado às 11:29



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