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Guerra de culturas

por Luís Naves, em 08.02.17

Desapareceu o confronto tradicional da política. Aquilo a que assistimos é um sismo na ordem global, sob a forma de guerra de culturas. A luta tem crescente violência a alastra a novos domínios da vida quotidiana. Os dois exércitos falam uma língua diferente e são irreconciliáveis. estão a conquistar todo o debate. Um dos lados diz que foi atraiçoado pelas elites, pelos dirigentes que não disseram a verdade, pelos banqueiros cínicos e pelos intelectuais acomodados. Estas pessoas não estão apenas desiludidas, mas enraivecidas: querem as suas vidas de volta, a segurança que tinham, as fábricas onde trabalhavam (agora, na melhor das hipóteses, andam a virar rodelas de carne moída); querem sair do empobrecimento e da precariedade em que caíram, querem que não vençam sempre os mesmos. Este grupo está convergir em protestos que mais parecem rupturas, contestando as migrações em massa, a insegurança crónica. Julgam estar a viver no declínio, numa sociedade em perda de memória, com sinais de senilidade. Por isso, procuram a mudança; para eles, está em perigo a preservação da identidade e ficam estupefactos quando o outro lado não consegue ver isso. Querem a pátria de volta e respeito pelas tradições; recusam os políticos do diálogo e do consenso; desprezam burocratas não eleitos e desconfiam das organizações não eleitas. Este exército de protesto enfrenta um grupo heterogéneo, dominante nas classes triunfantes da nova economia, nos debates televisivos, nas discussões académicas e até na arte contemporânea. Este segundo grupo, o que está instalado no poder, tem muitas opiniões, mas defende genericamente que a sociedade se caracteriza pela mestiçagem de ideias e que a diferença que vem de fora deve ser integrada com extrema tolerância, o que não se pode dizer sobre o pensamento antigo; esse, sendo fonte do mal, deve ser rejeitado.

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publicado às 19:19



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