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Golpe na Turquia

por Luís Naves, em 16.07.16

Um inesperado golpe militar na Turquia provocou horas de combates envolvendo tropas rebeldes e forças governamentais. Houve muitas vítimas. O Presidente Recep Erdogan fez um apelo desesperado a que as pessoas saíssem à rua e a população enfrentou os golpistas, desafiando o estado de emergência. Devido à intervenção popular, o golpe parece ter falhado. Foram detidos milhares de soldados e demitidos juízes: o Governo acusa os golpistas de pertencerem a uma facção de ‘gulenistas’, adeptos do movimento de Fethullah Gulen, que vive no exílio nos EUA e defende um Islão político com tolerância, modernidade e pacifismo. O seu movimento, Hizmet, tem raízes profundas na sociedade, nomeadamente no ensino e na assistência social. Também tinha meios de comunicação.

A explicação governamental não convenceu inteiramente os aliados da NATO. Erdogan e Gulen são os dois chefes políticos de movimentos islâmicos cuja aliança, em 2002, permitiu ao AKP, chefiado por Erdogan, a primeira de uma série de maiorias absolutas. Este partido islâmico conservador venceu de novo em 2007 e 2011, mas falhou a maioria em Junho de 2015, o que levou a eleições em Novembro desse ano, com nova vitória estrondosa. Em 2014, Erdogan (até aí primeiro-ministro) venceu as presidenciais e iniciou a alteração do regime, retirando poderes ao parlamento. Pouco antes, o líder turco entrara em conflito aberto com Gulen, por razões pouco claras, acusando o antigo aliado de criar um ‘estado paralelo’. A imprensa controlada por Gulen começou a publicar histórias sobre a corrupção no círculo próximo de Erdogan e o poder respondeu com o fecho dos jornais financiados pelos ‘gulenistas’ e a posterior substituição dos jornalistas.

O golpe de ontem na Turquia sugeriu que a velocidade na circulação de informação torna improvável um golpe militar em sociedades com boas redes sociais. A qualidade dos armamentos criou combates rápidos, extremamente letais e destrutivos. Um exército moderno e bem equipado, como é o caso do turco, possui facções capazes de organizar um golpe complexo, que não foram detectadas pelos parceiros da NATO. O regime de Erdogan vai talvez reforçar as tendências autocráticas, mas o presidente também provou que é uma figura invulgarmente popular, com quatro vitórias em legislativas, três em eleições locais e uma eleição presidencial. O período de eleições livres dominado pelo AKP trouxe grandes benefícios para os mais pobres: em 14 anos, o rendimento per capita (medido em paridades de poder de compra) aumentou mais de 50%. No mesmo período, a economia real cresceu dois terços. Nem o recente abrandamento económico, acompanhado por um surto desemprego, minou esta confiança no líder, por isso as pessoas saíram à rua. Para as próximas semanas, colocam-se muitas incógnitas, sobretudo sobre o futuro do movimento islâmico e da república secular, ou sobre o papel das forças armadas na sociedade turca. Por enquanto, a democracia parece ter sobrevivido.

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publicado às 19:42



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