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Excerto de um texto

por Luís Naves, em 02.03.17

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Vivemos numa época em que é cada vez mais difícil interpretar a realidade. O poder está fragmentado, as sociedades perderam coesão cultural; já não aceitamos de forma complacente todos os pontos de vista dos nossos intelectuais, das elites e dos meios de comunicação. Hoje fala-se em fake news, notícias falsas, mas a questão não é nova. A manipulação da verdade é uma circunstância do mundo contemporâneo que existiu em outras épocas. Podemos distorcer o que contamos, exagerar, omitir. É possível alterar a percepção que as pessoas têm dos conflitos, manipulando as emoções. O ponto de vista nunca foi inocente. Mas os leitores de hoje, ao contrário do que acontecia no passado, desconfiam das notícias que lhes chegam pelos canais tradicionais. Os meios de comunicação atravessam uma crise de credibilidade; está a ser contestado o cartel dos mediadores que interpretam a realidade: as fontes de informação são múltiplas e produz-se uma quantidade imensa de notícias e de opiniões. Os leitores contemporâneos tendem a rejeitar todos os meios de comunicação que não alinhem na sua definição de verdade. É como se vivêssemos nas bolhas de uma garrafa de champanhe, que coexistem separadas. Só aceitamos discussões onde se diz aquilo que queremos ouvir. As próprias palavras já não significam o mesmo em cada um dos lados da barricada. Este debate é paradoxal: não conheço ninguém que não procure informar-se melhor. No mundo em que habitamos, nunca houve tal proporção de indivíduos cultos; pode parecer contraditório com o que disse antes, mas hoje é impossível esconder uma informação essencial; sabe-se tudo; a opinião pública reage de imediato a qualquer abuso de poder e o eleitorado penaliza qualquer governante que cometa erros demasiado grosseiros. Como é que se manipula neste contexto? Escondendo a informação sensível numa montanha de abundância. Não é preciso censura, existe apenas uma autêntica enxurrada de factos, o que torna difícil a selecção daquilo que possa ser relevante. Este contexto parece ser ideal para operações de manipulação. Estamos porventura a assistir a esse fenómeno em várias notícias da actualidade. Em França, por exemplo, o candidato François Fillon estaria em excelentes condições para vencer as presidenciais se não tivesse aparecido uma notícia num momento cirúrgico. Ela é verdadeira, muito embaraçosa, mas por que razão surgiu exactamente agora, em vez de aparecer quando ele era primeiro-ministro ou nas primárias dos republicanos? Escândalos em vésperas de eleições? Temos de desconfiar, naturalmente.

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Excerto de um texto lido na apresentação do livro Manipulação da Verdade, de Eric Frattini, editado pela Bertrand.

Fiquei também a conhecer o autor, uma pessoa fascinante. 

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publicado às 18:48



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