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Escaqueirávamos museus...

por Luís Naves, em 04.03.15

Entre outras passagens fantásticas, encontrei num livro a referência à mensagem conhecida mais antiga da humanidade. Não há ali ideias filosóficas nem se trata de um testemunho incrível sobre o passado, nem sequer de algum poema sublime. Numa simples tábua de argila cozida pode ler-se, em escrita cuneiforme, o seguinte texto: “29086 medidas cevada 37 meses kushim”. Segundo a interpretação, no documento diz-se que foram recebidas 29086 medidas de cevada ao longo de 37 meses, segue-se a assinatura do funcionário. Kushim seria o contabilista sumério e um dos primeiros nomes registados pela História. Ele anotava cuidadosamente a colecta de impostos obtida há 5 mil anos na cidade de Uruk, mais tarde engolida pela areia do deserto iraquiano.

De uma civilização posterior da mesma região, a Mesopotâmia, foram entretanto destruídos no museu de Mossul artefactos com mais de 3 mil anos, para efeitos de propaganda do grupo extremista Estado Islâmico. Como se refere aqui, entre as estátuas destruídas havia reproduções, mas também objectos assírios originais. O Estado Islâmico vende antiguidades no mercado negro e estará a preparar novas atrocidades, visando corpos em carne e osso, pois entretanto capturou centenas de reféns cristãos.

Daqui a cinco mil anos, talvez não sobre muita coisa do nosso tempo e seria bem estranho que, perante este improvável vazio, se encontrassem por sorte sensacionais imagens de uns loucos a destruir estátuas antigas, sem motivo aparente, ou a mensagem enigmática de um funcionário das finanças a contabilizar a receita do IVA. Alguém iria concluir que éramos assim: escaqueirávamos museus e cobrávamos impostos.

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publicado às 18:50



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