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Escândalo na TV

por Luís Naves, em 05.06.17

Network, Escândalo na TV, filme de Sidney Lumet (1976) é provavelmente uma das obras-primas do cinema americano dos anos 70. Quando vi este filme pela primeira vez, há uns trinta anos, interpretei a história como uma crítica à televisão e à comunicação de massas, mas ao revê-lo ontem percebi que está ali uma premonição mais escura, uma espécie de profecia política. A transformação das notícias em entretenimento por uma estação em dificuldades financeiras acaba em tragédia, quando dirigentes irresponsáveis decidem utilizar um apresentador louco para aumentar as audiências. Parece uma crítica de Hollywood aos poderes infantis da TV, no entanto, se fizermos uma leitura política, vemos ali uma representação da ascensão do populismo contemporâneo: muitas das coisas que o apresentador Howard Beale afirma em directo parecem uma antecipação do discurso dos populistas mais desenfreados da Era de Donald Trump. A fama de Beale (espantosa interpretação de Peter Finch) surge quando ele pede às pessoas para gritarem à janela que estão zangadas e ‘não aguentam mais’. E as pessoas fazem isso, embora o filme não nos esclareça o motivo da adesão. Vendo em Network a metáfora política, é impossível não pensar na circunstância deste populismo de Beale começar como loucura, ter uma fase intermédia de descontrolo e uma fase final em que se torna objecto de manipulação dos poderes supremos. Sendo assim, o populismo a que assistimos será igualmente um fenómeno conveniente, que começa como anomalia, parece às tantas correr em pista própria e acaba no redil dos interesses. A política como espectáculo e como reality show afasta todas as outras formas de praticar a política e é uma simplificação que legitima novos poderes e outras simplificações. É fantástica a cena de manipulação do capitalista: ‘As nações não existem, senhor Beale, só existe a IBM, a ITT, o sistema holístico das corporações e dos fluxos financeiros’. Hoje, a única diferença seria Google, Goldman Sachs ou Amazon.

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publicado às 14:23



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