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Erros ucranianos

por Luís Naves, em 27.03.14

Muitos autores, sobretudo em colunas de jornal ou blogues, estiveram três anos a escrever textos críticos em relação ao governo, à chanceler Angela Merkel e à actuação da União Europeia. Achei curioso que alguns destes comentadores escrevessem desde o início a favor da anexação da Crimeia pela Rússia. Para mim, não havia dúvida de que era um exercício de lei do mais forte, por isso achei este apoio estranho.
A nossa elite é deveras interessante e revela uma notável capacidade de resistência ao incómodo provocado pelos factos. Os mesmos que se negam a aceitar que a estratégia do resgate era a única disponível são também os que lideram a tese da razão russa e do erro europeu.
Julgo que alguns intelectuais precisam de demonizar a UE para poderem certificar a posição, por eles defendida durante três anos, de que era necessário parar com a austeridade e era preciso rejeitar a estratégia alemã para a crise das dívidas soberanas. Segundo esta resposta instintiva, líderes europeus que não tinham razão desde 2011, nomeadamente Merkel, não podem agora ter razão.

 

No fundo, esta visão é estreita.
No caso da crise da Crimeia, sendo a UE, na dupla ocidental, quem está a fazer de polícia bom, são quase incompreensíveis as acusações de que a União Europeia cometeu erros sérios; o seu crime, veja-se bem, foi o de tentar fazer um acordo político e económico com um país vizinho que queria exercer o seu direito à liberdade. Mais erraram os europeus quando, perante a inaceitável chantagem de uma potência do século XIX, mostraram unidade e defenderam a democracia.
Os autores que ainda apoiam Vladimir Putin usam variações de cinco argumentos: o presidente ucraniano foi derrubado ilegalmente; os russófonos ucranianos, sempre apresentados como russos, estão a ser perseguidos pelo novo poder fascista de Kiev; existe o precedente do Kosovo; os americanos invadiram o Iraque; haverá referendos independentistas na Catalunha e na Escócia.

 

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Na verdade, nenhum destes argumentos sobrevive a dez segundos de análise:
O Kosovo tem semelhanças, mas as diferenças são brutais: havia insurreição armada; houve reacção armada da Sérvia, que provocou centenas de milhares de refugiados albaneses; houve negociações internacionais que incluíram a Rússia, houve eleições livres e a antiga república autónoma tornou-se entretanto independente. Este precedente tem tantas diferenças, que se torna espantoso tentar usar o argumento.
Em relação ao caso do Iraque, nem vale a pena fazer comparações, pois a invasão foi apoiada por uma resolução das Nações Unidas que, neste caso, não existe; aliás, a Rússia não tem apoio de nenhuma das potências com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, que foi completamente ignorado.
Os últimos argumentos também não sobrevivem. O derrube do presidente Viktor Ianukovitch foi concretizado pelo parlamento ucraniano, pois o presidente perdeu o apoio dos deputados do Partido das Regiões, que era maioritário e se fragmentou, com várias facções a juntarem-se à oposição. Esta inclui um partido de extrema-direita, mas que é minoritário na nova composição parlamentar. Não há outra maneira de descrever a situação: o regime de Ianukovitch ruiu, sobretudo após a repressão das manifestações e a tentativa de usar forças militares contra os protestos.

 

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A dependência europeia do gás da Rússia é outro tigre de papel e a Rússia não tem condições para jogar a cartada de um eventual embargo. Além disso, não há grandes diferenças culturais ou linguísticas entre ucranianos e russos, povos destinados à convivência pacífica. Em relação ao referendo escocês, a consulta é legal; o catalão, a realizar-se, para já parece inconstitucional. São, portanto, duas questões diferentes. Finalmente, as minorias: em vários países europeus onde minorias étnicas sofrem discriminação, a situação destes grupos melhorou com a adopção de legislação europeia; ou seja, a adesão à União Europeia ou a simples aproximação ao clube é algo que beneficia largamente estas populações; os russófonos nada têm a temer neste caso, pelo contrário, mas a atitude de Moscovo tornou-se num grave problema para vários dos nossos parceiros da UE onde existem significativas minorias de étnicos russos.
Em resumo, o conflito que está a ser criado na Ucrânia é totalmente artificial e a estratégia de Vladimir Putin falhou, havendo agora um problema político difícil de resolver: como tirar a Rússia desta situação.

 

Por isso, concordo totalmente com o que escreve aqui Pedro Correia e discordo totalmente da resposta de Luís Menezes Leitão, reconhecendo ser admirável que haja um blogue onde convivem opiniões opostas. São estes exemplos que fazem do Delito de Opinião um dos melhores.  

 

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publicado às 12:06


2 comentários

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De jj.amarante a 03.04.2014 às 23:27

"Em relação ao caso do Iraque, nem vale a pena fazer comparações, pois a invasão foi apoiada por uma resolução das Nações Unidas que, neste caso, não existe;" o secretário geral da ONU Kofi Annan diz que a invasão foi ilegal, desrespeitando os regras da ONU: http://www.theguardian.com/world/2004/sep/16/iraq.iraq
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De Luís Naves a 04.04.2014 às 09:45

As resoluções eram sobre a existência de armas de destruição maciça no Iraque. Claro que elas nao existiam, pois ninguém as encontrou e, nesse sentido, pode ser referida a ilegalidade do conflito. Dito isto nao existe comparação com a crimeia, pois a Rússia nem sequer tentou simular uma negociação a nível da ONU. Nao há qualquer duvida ou possibilidade de debate legal, pois nao existe qualquer resolução que permita a intervenção russa, nem sequer uma fantasia sobre armas de destruição maciça, uma insurreição local ou uma unha encravada de um étnico russo.

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