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Em bicos de pés

por Luís Naves, em 14.11.16

Neste magnífico texto, António Barreto escreve sobre as reacções ao resultado das presidenciais americanas e como as discussões políticas são anuladas pela ideia que as esquerdas possuem da sua própria superioridade moral. Pedro Correia observa aqui, também justamente, como ao público português só chegou a informação anedótica relativa à campanha de Donald Trump, que mesmo depois da vitória continua a ser uma espécie de caricatura. Lendo os dois artigos, ninguém pode ficar surpreendido com o anti-americanismo primário que borbulha nas redes sociais.

Alguns dirigentes da União Europeia estão a contribuir para alimentar essa histeria, com a sua reacção de pânico à eleição de Trump, como se o resultado nos EUA fosse o início de um efeito dominó de partidos populistas a tomarem conta do asilo. As elites políticas e mediáticas estavam estranhamente convencidas de que a crise dos últimos oito anos não teria consequências, que nada mudava; elas pensavam que as transformações sociais da última década não teriam impacto em futuras eleições ou na confiança dos eleitores; acreditavam que a insegurança imposta pelo terrorismo não as afectava; julgavam que, para o eleitorado, o medo de perder emprego, casa, poupanças ou a pensão era absolutamente neutro.

O Brexit podia ter sido um momento de iluminação, podia ter mudado esta ideia abstrusa de que é possível continuar a apascentar rebanhos, mas após uns dias de aparente frenesim, a Europa voltou à tendência do marasmo. Agora, agita-se perante o presidente eleito dos Estados Unidos, mas Trump falou primeiro com o Reino Unido, depois com a China, os europeus serão talvez os últimos na fila, esquecidos de que quem grita em bicos de pés acaba por se desequilibrar.

As instituições da UE, lideradas pela Alemanha e França, cometeram graves erros nos últimos anos: na recuperação económica, na gestão dos resgates, no tratado orçamental camisa-de-varas, numa união bancária que não serve para todos, na crise das migrações, no desrespeito dos pequenos países, nas sanções à Rússia (é ridículo andar a proibir exportação de maçãs e depois comprar petróleo). Podia acrescentar-se a escolha de figuras menores para dirigir as instituições, como é o caso de Jean-Claude Juncker.

Esta elite incapaz, protegida por meios de comunicação que há muito emigraram para os territórios de fantasia das redes sociais, devia ser rapidamente substituída, mas os partidos tradicionais estão entrincheirados no discurso do passado, parecem inclusivamente incapazes de fazer modificações internas ou de apresentar políticas alternativas. Qualquer protesto é condenado como dissidência e silenciado com insultos ou colagem à extrema-direita. As opiniões contrárias são atacadas com a superioridade moral da esquerda, das indignações beatas e do politicamente correcto, mas não é desprezando eleitores descontentes que se trava a ascensão dos partidos populistas.

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publicado às 17:08



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