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Entre deuses e acaso

por Luís Naves, em 24.06.15

Na procura de interrogar a existência humana, a literatura ocidental tem sobretudo três grandes períodos: no início, eram os deuses que decidiam; depois, houve uma humanização do destino e surgiram os primeiros heróis, variações do ainda semi-divino Ulisses; recentemente, as pessoas ganharam independência e triunfaram os anti-heróis. Esta divisão é um esboço, não tem fronteiras exactas, pois é relativamente novo o património das histórias escritas que influenciaram a nossa visão do cosmos e do lugar da humanidade, talvez 3 mil anos na tradição ocidental, com algumas excepções de mitos mais antigos incorporados nesse ADN. No fundo, estamos a falar de uma centena de gerações.

A tradição hebraico-grega contém histórias imaginárias onde os povos são objecto do elevado interesse dos deuses e submetidos em ocasiões a uma fúria que hoje já não compreendemos, lembro-me por exemplo do episódio da destruição de Sodoma e Gomorra, que parece não ter motivo sólido, para além de conter várias peripécias estranhíssimas. Entretanto, no final do império romano, surgiu uma visão mais cínica da vida ou que dava ao homem certa autonomia, talvez por influência das lendas dos bárbaros da Europa, que entretanto tinham ocupado o lugar das elites políticas e intelectuais. O pessimismo e a nostalgia juntaram-se a novos temas do livre arbítrio, como amor romântico, idealismo e lealdade.

A terceira fase da literatura europeia coincidiu com a revolução científica: o lugar do homem no universo tornava-se menos central e, por isso, o destino já não dependia da virtude de cada indivíduo ou da tolerância dos deuses, mas resultava do contexto social ou do acaso, tornando-se mais imprevisível. Esta fase imprecisa e diversa, que dispensa o divino na interpretação do humano, é recente, terá pouco mais de dez gerações, está ainda a tactear o chão que pisa.

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publicado às 14:05



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