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Demasiada realidade

por Luís Naves, em 01.07.15

Ao fim da tarde estava um calor dos diabos, ainda hesitei, mas felizmente fui ao lançamento do livro Os Marcianos Somos Nós, editado pela Gradiva. O autor, Nuno Galopim, concretizou uma ideia brilhante com rara competência, juntando no mesmo volume muita informação sobre o conhecimento científico de Marte e a cultura popular ligada ao planeta. A obra é uma viagem pelos factos e pela imaginação. Durante a apresentação outro amigo, Eurico de Barros, explicou a certo momento que em Portugal existe hostilidade em relação à literatura da imaginação. Fiquei a pensar nesta ideia. Tolera-se que outras culturas procurem a fantasia, mas nunca se espera isso dos autores nacionais. O gosto dominante parece ignorar que as nossas vidas têm demasiada realidade em redor, basta ver como as pessoas podem ser mortas durante banhos de sol numa praia do Mediterrâneo e que num país europeu tão rico como o nosso o dinheiro seja racionado em caixas multibanco. A realidade deixou de ser banal, a ponto de já não se distinguir do que se vê nos filmes, incluindo surreais execuções de prisioneiros afogados dentro de jaulas ou loucos aos comandos de aviões que se suicidam na companhia de 150 passageiros. Temos demasiada realidade nas nossas vidas, sim, a conviver sem transição com gatinhos fofos no Facebook. Por isso, compreendo a fadiga de muitos leitores em relação à literatura dos estados de alma e do sentimentalismo gourmet.

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publicado às 16:54



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