Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Da supremacia ocidental, apesar de tudo

por Luís Naves, em 10.09.16

O primeiro episódio de Star Trek foi emitido a 8 de Setembro de 1966, o que motivou esta semana uma vaga nostálgica de evocações dos 50 anos da mítica série de televisão. Esta semana foi também lembrada a revolução cultural chinesa, igualmente por motivos de calendário: Mao Zedong morreu a 9 de Setembro de 1976, dez anos depois de ter desencadeado uma das mais estranhas purgas políticas da História contemporânea.

A revolução cultural foi lançada em meados de Maio de 1966, mas ganhou força entre Junho e Agosto, quando Mao conseguiu enviar milhões de jovens pelo país, numa orgia de destruição de símbolos do passado. O seu objectivo era recuperar a pureza ideológica do partido comunista e reforçar o poder sobre a hierarquia chinesa, mas a natureza caótica do movimento sacrificou uma geração inteira, a loucura matou mais de 1,5 milhões de pessoas, o fanatismo teve um efeito devastador na sociedade chinesa e a ignorância destruiu património impossível de substituir.

O caso de Star Trek é totalmente diferente. As aventuras de uma nave espacial e da sua tripulação começaram por não ter grande popularidade: os cenários eram rudimentares, as personagens algo esquemáticas, as histórias relativamente superficiais. E, no entanto, ao longo das décadas seguintes, surgiu um culto popular, com os seus fanatismos e excessos, objectos, imagens imediatamente identificadas. A série deu origem a filmes e é hoje um produto da indústria cultural de Hollywood, com alcance em todo o mundo, incluindo na China.

A série é contemporânea da revolução cultural. As duas surgiram nas mesmas semanas. O território da imaginação, num caso, a ideia da destruição do passado, no outro. Star Trek é sobre a liberdade, a Revolução Cultural mostra como a liberdade, mesmo a do pensamento, pode ser frágil, pois os guardas da revolução atacavam desvios de comportamento, tentavam sobretudo destruir quem procurasse o recolhimento individual. Pensar era um crime. Esta brutal crónica de Ferreira Fernandes explica um pouco do fenómeno: no exílio em Paris, o autor militou em partidos da esquerda radical e foi expulso de uma organização maoísta por ter na sua estante livros trotskystas.

Talvez a revolução cultural tenha sido mais humana do que nos parece: o fanatismo ideológico está ao alcance da pessoa mais inteligente. Na nossa realidade, Star Trek pode ser frívolo, mas diverte e existe, é um produto cultural aparentemente inócuo que não tenta convencer ninguém das suas ‘verdades intrínsecas’. Curiosamente, já não há lugar para as revoluções culturais dos anos 60, cheias de certezas, que tentaram apagar o próprio pensamento e onde se considerava que as pessoas são o que lêem. Estas ideias foram por enquanto derrotadas. Haverá melhor símbolo do triunfo esmagador do Ocidente?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 13:41



Mais sobre mim



Links

Alguns blogues anteriores

Locais Familiares

Boas Leituras