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Como cantaria ela os parabéns-a-você?

por Luís Naves, em 12.06.17

Num restaurante para jovens, daqueles de fast food americana, um grupo de adolescentes desatou de repente a cantar os parabéns-a-você, e foi um momento de pureza, ingénuo e simples. Em volta, havia apenas sorrisos e, no meu canto da sala, a pensar como a vida passa, senti primeiro a onda feliz, mas logo a seguir um arrepio, com a ideia repentina de que tudo será um dia esquecido; decorrida uma eternidade suficiente, digamos de quinhentos anos, nem sequer haverá a mesma língua, nem sequer porventura a mesma canção de parabéns, talvez não existam os países e as cidades, nem nada de parecido, apenas os rostos semelhantes de pessoas em tudo o resto diferentes. Terá decorrido um minúsculo nada na linha do tempo e uma imensidade e meia nas vidas humanas, pelo menos de quinze gerações. Ninguém se lembrará de quem fomos ou que significado tivemos, tudo o que deixarmos será interpretado, até se tornar incompreensível. Tenho à minha frente uma reprodução de Uma Jovem de Florença, como é conhecida a pintura de Domenico Ghirlandaio, de 1495, cujo original está no Museu Gulbenkian (existe uma grande reprodução numa estação de metropolitano); a minha imagem é um pequeno rectângulo chamado pano em microfibra, o que teria deixado o pintor italiano numa perfeita estupefacção; como está no meu ângulo de visão, em frente ao computador, penso muitas vezes nesta rapariga (quem seria, o que fez, como viveu?) muito criança ainda, olhos cinzentos e cabelo ruivo, rosto que podia ter encontrado naquele restaurante para jovens onde se cantavam os parabéns-a-você, nesse quase-nada congelado na linha do tempo e que em breve, digamos quinze gerações, nem sequer fará sentido para alguém que esteja vivo, pois tudo é passagem e esquecimento.

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publicado às 16:55



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