Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Cinismo ou ingenuidade

por Luís Naves, em 15.11.14

A Relógio de Água publica Crónicas do Mal e do Amor, com três romances curtos de Elena Ferrante. Ninguém sabe ao certo quem é esta fantástica escritora italiana, que prefere o anonimato, decisão curiosa, que justifica com a opinião de que os livros não precisam dos seus autores. No primeiro romance deste volume, Um Estranho Amor, descubro uma passagem com erotismo invulgar, claramente um ponto de vista feminino sobre sexo, repleto das ideias de submissão, humilhação, dor física, mas também desejo e certa perversidade secreta. A cena é pornográfica, explícita e, no entanto, é também autêntica e não há uma palavra de mau gosto ou uma frase mal escrita, que não corresponda a uma emoção associada ao acto em si ou aos pensamentos da personagem e narradora. Ali está todo o realismo brutal da literatura contemporânea. É difícil escrever sobre sexo e, nem por acaso, lia recentemente a reacção do escritor japonês Haruki Murakami à inclusão do seu nome na lista de um prémio anual para a pior cena de sexo em literatura: o autor sentia-se ofendido, confundido com um cínico ou um ingénuo. Aliás, os media falam mais deste tipo de prémio negativo do que das obras. É demasiado fácil escrever mal sobre sexo ou ser ridicularizado pelo uso de palavras ou metáforas impróprias e, no entanto, sendo algo que todos os leitores conhecem, o assunto devia ser uma banalidade. Isto leva, naturalmente, a outras reflexões: o que estará na origem da dificuldade em escrever sobre este tema central da vida humana?

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:12



Mais sobre mim


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Links

Alguns blogues anteriores

Locais Familiares

Boas Leituras