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Biblioteca do Neversink

por Luís Naves, em 09.08.16

À colecção de uma editora americana foi dado o nome de ‘Biblioteca do Neversink’, referência extraída de Herman Melville, sobre a biblioteca de um navio de ficção. A ideia é a seguinte: os livros mais agradáveis que lemos são geralmente os que encontramos por acaso. Li vários livros desses, brilhantes, esquecidos, menos famosos do que tantos outros, mas igualmente fascinantes. Encontrei por acaso um romance em que penso muitas vezes, Apepe, de Ferenc Karinthy, que não existe em português, mas podia citar outros: Coming Up for Air, de George Orwell, que julgo não estar editado em Portugal; Enviado Especial, de Evelyn Waugh, uma divertidíssima sátira sobre jornalismo; ou ainda Jogo da Cabra Cega, de José Régio, obra-prima infelizmente esquecida e que também encontrei por acidente.

A minha biblioteca do Neversink tem volumes de Laszlo Krasznahorkai, Dino Buzzati, Joseph Roth, Raul Brandão, Paul Bowles, Vergílio Ferreira, Romulo Gallegos, tem um Dostoievsky dos menos citados, ganhou agora este Definitely Maybe, a história de um cientista soviético que, à beira de uma grande descoberta, e por qualquer razão misteriosa, é interrompido por toda a espécie de peripécias parvas, ruídos insistentes e personagens ambíguas.

Os dois autores são famosos na ficção científica, mas esta sua obra supera o género. Os irmãos Strugatsky usam todos os mecanismos populares, com referências de cultura e diálogos de qualidade acima da média. O ritmo e o suspense obrigam a continuar a leitura, encontramos personagens cómicas e cínicas, subtis críticas políticas e também é usado o mecanismo das histórias de espionagem, com pistas falsas e cambalhotas lógicas que enganam o leitor à maneira do grande John Le Carré, que é expressamente citado.

Em Portugal, o livro foi publicado nos anos 90, com título Até ao Fim do Mundo, numa colecção de ficção científica da Europa-América. Teve, por isso, dificuldade em encontrar os seus leitores. Para os fanáticos do género, será demasiado intelectual e de alguma forma decepcionante, pois dispensa os lugares-comuns habituais da ficção científica, que geralmente é uma forma de fantasia onde a realidade está cuidadosamente disfarçada. Para quem não aprecia este tipo de literatura, Até ao Fim do Mundo tem tudo: inteligência, ideias, modernidade, simplicidade na estrutura e no estilo, com o brinde inesperado de colocar um sorriso permanente na cara do leitor agradecido. O romance é também um bocadinho mais subversivo do que parece. Questiona o domínio do politicamente correcto, especula em torno do tema das conspirações, dos poderes ocultos e do respectivo controlo do pensamento. Coloca o problema da resistência fútil e explica como a desistência pode ser uma tentação. Estará mesmo uma super-civilização a interferir no desenvolvimento científico da humanidade? Tudo indica que sim, mas nas certezas convém colocar um talvez. O facto é que se tornou difícil pensar: somos constantemente interrompidos por minúsculas preocupações da vida contemporânea. Este livro, escrito numa sociedade onde havia o peso do sistema político totalitário, é hoje compreensível para todos os contemporâneos da pouco poética era da internet e dos telemóveis.

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publicado às 09:37



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