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As próximas eleições (6)

por Luís Naves, em 17.05.14

A crise ucraniana tem mais a ver com eleições europeias do que à primeira vista se imagina, mas antes de lá chegar é necessária uma pequena digressão:

As manifestações contra Viktor Ianukovitch começaram numa altura em que o presidente, corrupto e muito ligado a Moscovo, recusou fazer um acordo com a UE. Reagindo à indignação de uma opinião pública que pretendia aproximar-se à Europa, o partido no poder dividiu-se e deixou de ter maioria no parlamento. Os deputados da oposição, juntando-se aos grupos parlamentares dissidentes, tentaram mudar o governo e queriam eleições antecipadas. O presidente reagiu ao endurecimento das manifestações de protesto (que começaram por ser pacíficas) e seguiu-se uma espiral de violência que deu origem a uma negociação, da qual resultou um acordo de eleições antecipadas e um governo provisório com legitimidade parlamentar e a legalidade que resulta desse acordo político. De forma incompreensível, o presidente abandonou Kiev e refugiou-se em Moscovo. Seguiram-se a anexação da Crimeia pela Rússia, as ameaças militares e a formação de uma república popular numa região de maioria russófona onde há confrontos crescentes entre milícias apoiadas pela Rússia e forças militares ucranianas. A Rússia tem um comportamento imperial e está a tentar criar um Estado falhado na Ucrânia, ao estilo da Bósnia, que é hoje um protectorado pago pelos contribuintes europeus e um país retalhado em zonas étnicas e de funcionamento impossível.

 

Tentei resumir a crise de forma objectiva, mas sei que a narrativa dominante é diferente: nessas versões, o governo provisório de Kiev não tem legitimidade e a existência de um parlamento não costuma ser referida; os autores afirmam sem pestanejar que a Rússia tem direitos históricos sobre a Ucrânia; pensam ainda que os ucranianos (muitas vezes descritos como fascistas) não têm o nosso direito à liberdade; além disso, os russófonos são identificados como russos, não se tratando pois de uma minoria étnica dentro de um país, mas da extensão de outro país; o referendo na república popular de Donetsk é por vezes apresentado como legítimo (não havia homens armados nas mesas de voto nem houve intimidação e votou toda a gente, não interessa a inexistência de observadores). 

No fundo, muitas pessoas parecem aceitar facilmente a barbárie que resulta do nacionalismo à solta, fantasma que a União Europeia consegue manter adormecido. Mas não tenham dúvidas: a Europa das Bósnias-Herzegovinas e das Repúblicas Populares de Donetsk está ali ao virar da esquina e regressará sem piedade no caso do fracasso do projecto europeu.

 

 

Quem conheça a História da Europa Central percebe a tragédia que representou o desmantelamento do Império Austro-húngaro: as democracias resultantes da guerra de 14-18 foram sempre demasiado fracas para resistir às agressões das potências vencidas e que queriam alterar a ordem internacional, nomeadamente a Alemanha nazi, a Itália fascista e a União Soviética. As minorias étnicas foram usadas cinicamente e perseguidas com violência. A Segunda Guerra Mundial foi a conclusão do suicídio colectivo da Europa, com limpezas étnicas em larga escala e o genocídio das minorias sem Estado, nomeadamente de judeus e ciganos.

Essa purificação, pelos vistos, ainda não acabou, como não morreu ainda a política imperial do século XIX. A Europa bárbara odeia este projecto europeu em que vamos votar, nunca o aceitou, nunca o compreendeu. A União Europeia é a única construção política que impede os nacionalistas fanáticos e os populistas tontos de criarem territórios culturalmente esterilizados, onde todos falem a mesma língua, tenham as mesmas ideias estreitas e até a mesma religião. Para os outros eleitores, os que recusam o pensamento tribal e preferem a liberdade, a Ucrânia devia ser um sério aviso.

 

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publicado às 12:09



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